31 de agosto de 2016

Rondó

Alois Hans Schramm
Selva de corpos, xadrez de ruas,
Casas, auroras, mulheres nuas,
Mais tudo que sofras ou fruas,
Ao fim, o que
Dizem? Por quê?

Ou para quê? Para que o empório
Da vida, o espólio contraditório,
Pernas, velórios, taças, casório,
Para quê, se
Só há aí por quê?

E ao fim, enfim, no assim do crepúsculo,
O estupefato tempo minúsculo
Que resta ao rubro e cansado músculo
De bater, e
Soar: por quê?

Tudo, que é tanto, nele, o segundo
Final, é nada. Só, bem no fundo
De si, sem lastro, é que explode o mundo,
E, ainda, então, lê
Ígneo, por quê?

Alexei Bueno

O Passar do Tempo Sussurra

É difícil entender alguns enlaces da vida, por vezes ela parece se amarrar de maneira que nos deixa atônitos. As horas passam e cada dia é um dia a menos, exigindo de nós destreza e coragem para que saibamos viver o máximo da vida que temos, se apropriando do nosso tempo.
Ilustração Lucas Pandolfelli
São vários os caminhos que percorremos em busca de nos reinventarmos diante dos inúmeros desafios que a vida traz. Nesse processo de transformação, algumas coisas nos são impostas: crescemos, amadurecemos e envelhecemos – e não há cirurgia plástica que possa evitar isso. Outras já exigem de nós movimento, ação.
Aprendi neste processo, que o tempo é um arquiteto impetuoso que não se pode parar. Enquanto ele passa, os nossos dias são moldados exigindo de nós coragem. Um exímio “compositor de destinos”, segundo o cantor Caetano Veloso, que nos forma a cada decisão que tomamos.
No que se refere às emoções, o tempo cumpre dois papéis: ou machuca ou cura. Quem nunca ouviu da mãe o famoso jargão “quando casar sara”, não sabe o que é sentir o alívio de chegar aos 30 anos, solteiro e sem machucados. Mas tal frase tem um significado muito maior e, mais velho, eu a traduziria da seguinte forma: calma, meu filho! O tempo vai tratar disso. Em breve a dor vai passar e os machucados cicatrizarão. E cicatrizaram.
Por outro lado, ele também pode machucar. Quando não lidamos com os problemas que a vida nos reserva, o tempo pode tornar a dor um enfado terrível. E viver se torna um peso. Porque, como diria Mario Quintana: “o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. E, se não colocarmos os pingos nos “is”, nossa vida pode se tornar um intenso tormento.
O tempo também muda ideais, objetivos, perspectivas e, consequentemente, nos muda. Deixamos de agir e ser como éramos e desbravamos um novo mundo. Se nos prendemos ao passado o futuro deixa de ser expectativa e o presente torna-se indiferente. Érico Veríssimo diz que: “quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”. Que através do tempo, sejamos bons construtores.
( © obvious: )

30 de agosto de 2016

Instruções para chorar

Annibale Carracci
Prescindindo dos motivos, vamos ater-nos à maneira correta de chorar ou seja, um pranto que não ingresse no escândalo, nem insulte o sorriso com paralela e torpe semelhança. Consiste o pranto médio ou corrente numa contração geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranho, este último no final, já que o pranto termina no momento em que uma pessoa se assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe for impossível por haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães onde ninguém entra.
Quando o pranto começar, você cobrirá com decoro o rosto usando para tal ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com a manga do bibe a tapar a cara, e de preferência a um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.
Júlio Cortázar (1914-1984)
Tradução: João Alfacinha da Silva

Violeta

Assaf Frank
Esquecida no prado, debruçada
Sobre si mesma, humilde e dolorosa
A violeta vivia e era ignorada
Da noite negra e da manhã radiosa.

Eis que na curva do caminho breve
Uma linda visão de mulher passa.
Vem, vai chegando, alegre, suave e leve
Uma pastora toda encanto e graça.

“Ai de mim!” – pensa a flor – “Ai se eu pudesse
Ser a mais bela flor da natureza
Para que a doce amada me colhesse
E no seio me trouxesse presa!

Ai se somente por um breve instante
Sobre o seu seio claro eu repousasse!
Se eu lhe beijasse a carne palpitante
E com o seu doce aroma a perfumasse!”

Mas ah! Veio a pastora indiferente
Nem atentou para a florzinha escrava!
Pisou a pobre... E a pobre alegremente
Ao ser calcada, trêmula, pensava:

“Ai que delícia, a de morrer agora,
A de morrer, cheia de amor infindo,
Pisada assim pela gentil pastora.
Pisada assim pelo seu pé tão lindo!”

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Múcio Leão

29 de agosto de 2016

Hino a Afrodite

Charles Nicolas Rafael Lafond – Sappho canta para Homero
Afrodite imortal de faiscante trono
filha de Zeus tecelã de enganos peço-te:
a mim nem mágoa nem náusea domine
Senhora o ânimo

Mas aqui vem - se há uma vez
a minha voz ouvindo de longe
escutaste e do pai deixando a casa
áurea vieste

atrelado o carro. Belos te levavam
ágeis pássaros acima da terra negra
contínuas asas vibrando vindos do céu
através do ar,

e logo chegaram. Tu ó venturosa
sorrindo no rosto imortal indagas
o que de novo sofri, a que de novo
te evoco,

o que mais desejo de ânimo louco
que aconteça. "Quem de novo convencerei
a acolher teu amor?" "Quem, Safo, te faz sofrer?"

"Se bem agora fuja, logo te perseguirá,
se bens teus dons recuse, virá te dar,
se bem não ame, logo amará - ainda que
ela não queira."

Vem junto a mim ainda agora, desfaz
o áspero pensar, perfaz quanto meu ânimo
anseia ver perfeito. E tu mesma - sê
minha aliada.

Safo de Lesbos (600 a.C.)
Tradução: Jaa Torrano

Baquaqua, biografia de um escravo

Historiadores traduzem única autobiografia escrita por ex-escravo que viveu no Brasil Mahommah Gardo Baquaqua, nascido no Norte da África no início do século XIX, trabalhou no país antes de fugir para Nova York.
Capa com imagem de Baquaqua - Divulgação/Bruno Véras
“Que aqueles ‘indivíduos humanitários’ que são a favor da escravidão se coloquem no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da África à América, sem sequer experimentar mais que isso dos horrores da escravidão: se não saírem abolicionistas convictos, então não tenho mais nada a dizer a favor da abolição.”
As palavras são de Mahommah Gardo Baquaqua, ex-escravo nascido no Norte da África no início do século XIX e que trabalhou no Brasil antes de fugir das amarras da servidão em Nova York, em 1847. O trecho consta do livro “An interesting narrative. Biography of Mahommah G. Baquaqua” (“Uma interessante narrativa: biografia de Mahommah G. Baquaqua”, em tradução livre), lançado assim mesmo, em inglês, pelo próprio ex-escravo, em Detroit, no ano de 1854, em plena campanha abolicionista nos EUA. A obra jamais foi traduzida para o português, permanecendo desconhecida do público brasileiro.
No entanto, com apoio do Ministério da Cultura e do Consulado do Canadá, o professor pernambucano Bruno Véras, de 26 anos, resolveu se debruçar sobre o documento, ajudado por outros dois pesquisadores. Ele viajou ao Canadá, onde buscou vestígios de Baquaqua e consultou os originais do livro, cuja primeira edição em português deve ser lançada no Brasil.
- Baquaqua sempre foi um personagem que me intrigou. Ele escreveu a única autobiografia de um africano escravizado em terras brasileiras. Nos EUA e na Inglaterra existem vários desses relatos, que tinham uma função abolicionista. No Brasil, só um. E, apesar disso, Baquaqua não é conhecido em nossa História nem em nossos livros didáticos - conta Véras.
Os historiadores Paul Lovejoy e Robin Law, por exemplo, republicaram o livro nos anos 2000, ainda no idioma de Shakespeare. Segundo consta dos registros da edição original, parte da obra foi ditada para o escritor Samuel Moore, responsável também por editar a história do escravo.
Duas vezes Escravizado
A trajetória extraordinária desse personagem começa nos anos 1820, em Dijougou, onde hoje é o Norte do Benim. Filho de um proeminente comerciante, o pequeno Mahommah Baquaqua estudou em uma escola islâmica para ter acesso ao Corão, adquirindo conhecimentos de leitura e de matemática. Suas habilidades logo lhe permitiram atuar em importantes rotas comerciais que ligavam o então califado de Socoto e o extinto Império Ashanti, que rivalizavam no tráfico de escravos e no domínio de regiões da África Ocidental.
Baquaqua foi preso e feito escravo pelos Ashanti enquanto vendia grãos, noz de cola e outras especiarias para o front de guerra. Mesmo sendo recomprado e libertado pelo seu irmão, acabou novamente detido pouco tempo depois por tentar roubar e ingerir bebida alcoólica perto de Dijougou, algo próximo a um pecado capital para uma localidade dominada pelo Islã. Baquaqua não pôde contar com a sorte daquela vez. Novamente escravizado, foi levado para a cidade litorânea de Uidá, importante porto de onde saía grade parte dos cativos destinados ao Novo Mundo. É a partir desse ponto que a autobiografia ganha seus contornos mais emocionantes:
“Quando estávamos prontos para embarcar (para as Américas), fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pescoço e, assim, arrastados para a beira-mar. Uma espécie de festa foi realizada em terra firme naquele dia. Não estava ciente de que essa seria minha última festa na África. Feliz de mim que não sabia”, escreveu o escravo.
Se, antes, os brasileiros tinham conhecimento do ambiente de um navio negreiro por meio das descrições de historiadores ou de famosos poemas como o de Castro Alves, agora poderão ter um relato vivo de uma testemunha de um dos piores capítulos da História da humanidade:

“Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos.”
Comida e bebida eram escassos na viagem, havendo dias em que os escravos não ingeriam absolutamente nada. “Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés, e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que tenha sido jogado ao mar”, conta Baquaqua.
A incrível jornada de Baquaqua - Editoria de Arte
Pernambuco foi o destino do navio que levava nosso personagem, que desembarcou em 1845. De início, foi levado para uma lavoura nos arredores de Olinda, onde conheceu a dureza da escravidão brasileira: “o fazendeiro tinha grande quantidade de escravos, e não demorou muito para que eu presenciasse ele empregando livremente seu chicote contra um rapaz. Essa cena causou-me uma impressão profunda, pois, é claro, imaginei que em breve seria o meu destino”.
Baquaqua tratou da violência do senhor, chamando-o de “tirano”. Trabalhando como padeiro, o escravo inicialmente prestava os serviços com dedicação, mas ao ver que seu "patrão" nunca ficava satisfeito, entregou-se às bebidas e evitou o serviço. Acabou revendido para outro comerciante, desta vez no Rio de Janeiro.
"Meus companheiros não eram tão constantes quanto eu, sendo muito dados à bebida e, por isso, eram menos rentáveis para o senhor. Aproveitei disso para procurar elevar-me em sua opinião, sendo muito prestativo e obediente, mas tudo em vão; fizesse o que fizesse, descobri que servia a um tirano e nada parecia satisfazê-lo. Então comecei a beber como os outros e, assim, éramos todos da mesma laia, mau senhor, maus escravos."
Na capital do Império, devido aos seus conhecimentos de matemática e literatura, o escravo atuou dentro de um navio especializado no comércio de charque entre o Rio Grande do Sul e a Corte.
Mas foi uma encomenda de café para Nova York que mudou sua vida completamente. Naquela época, os estados do Norte dos Estados Unidos já tinham abolido a escravidão, fato que não passou despercebido por Baquaqua. “A primeira palavra que meus dois companheiros e eu aprendemos em inglês foi F-R-E-E (L-I-V-R-E); ela nos foi ensinada por um inglês a bordo e, oh!, quantas e quantas vezes eu a repeti.”
Baquaqua tentou fugir do navio ao desembarcar em Nova York, mas logo acabou preso. Com a ajuda de abolicionistas locais, o escravo conseguiu escapar da prisão e rumou para o Haiti. Ficou por lá durante dois anos, período em que se converteu ao cristianismo, ingressando na Igreja Batista Abolicionista. De volta aos Estados Unidos, em 1850, o já liberto africano frequentou aulas de inglês por três anos no Central College, numa localidade então conhecida como MacGrawville, hoje parte de Nova York.
RELATO SIMILAR AO DE FILME QUE GANHOU OSCAR
Mas foi em Detroit que Baquaqua publicou seu livro, numa tentativa de arrecadar fundos para a campanha abolicionista. A autobiografia - chave do seu engajamento na luta abolicionista (que o levou até mesmo à inglesa Liverpool, em 1857, último lugar onde se teve notícia de Baquaqua) - é contemporânea e guarda similaridade com a de Solomon Northup.
Americano nascido livre e escravizado no Sul dos Estados Unidos, ele teve sua obra adaptada para o cinema em 2013, com o título “Doze anos de escravidão”. O filme americano venceu o Oscar em três categorias, inclusive a de melhor longa-metragem.
- O contexto em que o livro de Solomon Northup foi publicado é o mesmo do de Baquaqua. Abolicionistas incentivavam ex-escravos a escrever relatos do cativeiro e mobilizar a opinião pública. Nada melhor do que o próprio escravo para contar como era a escravidão - afirmou Véras, que também trabalha para lançar um site somente sobre o ex-escravo, reunindo vídeos, fotos e arquivos de época.
Essa fascinante história também virou tema de um pequeno documentário em 2012, produzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em parceria com professores da rede de ensino do estado. Paulo Alexandre, conhecido nacionalmente por reproduzir os principais acontecimentos da Segunda Guerra Mundial no Facebook, foi um dos que participaram da produção.
Segundo ele, o personagem pode ser trabalhado em sala de aula como uma história de superação e de luta contra os estereótipos em torno do escravo:
- Meus alunos ficam impressionados quando lhes conto sobre Baquaqua, pois todos tinham aquela velha ideia de escravo submisso, aquele indivíduo sem nome nem identidade, que só sabia apanhar e trabalhar. Ninguém imagina que ele poderia ser uma pessoa inteligente, empreendedora, que consegue a liberdade a partir do próprio esforço.

( Jornal 'O Globo' )

28 de agosto de 2016

Espelhos

Paul Gauguin
Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos veem.
Os esquecidos nos lembram.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, eles se vão?

Eduardo Galeano (1940-20015)

Crepúsculo

Louis-Jean-Francois Lagrenee
O claro acorda o escuro
O escuro aborta a luz
O espaço rompe os espaços
Farrapos afogam-se na solidão!
A alma dança
E
Oscila e oscila
E
Estremece no espaço
Você!
Meus membros buscam-se
Meus membros roçam-se
Meus membros
Oscilam afundam afundam afogam-se
Na
Imensidão
Você!

O claro aborta o escuro
O escuro devora a luz!
O espaço se afoga na solidão
A alma
Ferve
Ferrolha-se
Para!
Meus membros
Giram
Na
Imensidão
Você!

O claro é luz!
A solidão sorve!
A imensidão escorre
Rasga
Me
Em
Você!
Você!

August Stramm (1874-1915)

27 de agosto de 2016

Paleolítico

Uma pintura rupestre do Período Paleolítico.
No início, o homem pré-histórico pouco sabia, mas foi aprendendo no decorrer de sua existência. Comunicava-se através da linguagem falada, coletava alimentos, utilizava pedras e pedaços de pau como armas, passando mais tarde a usar arco e flecha. Vestia-se com peles de animais, assava carne e vivia em cavernas.
As características enumeradas acima fazem parte do período: Paleolítico. Neste período, o homem vivia em cavernas e deixava marcas, além de apresentar forte caráter nômade (procura de alimento).

Revolução Neolítica

Pintura rupestre do Período Neolítico.
Ao longo dos últimos 20 mil anos, as relações dos homens entre si e com a natureza passaram por uma intensa transformação. Desenvolveram-se a domesticação dos animais, o pastoreio e, há cerca de 12 mil anos, a agricultura, maior avanço cultural da humanidade. O cultivo dos campos contribui para a manutenção das aldeias, cuja população passou a dispor de uma fonte mais estável de alimentos. Essas transformações fundamentais tornaram-se conhecidas como Revolução Neolítica ou Revolução Agrícola.
Em decorrência do desenvolvimento e do pastoreio, ocorreu uma sedentarização da população, o que levou ao surgimento das primeiras civilizações conhecidas, com melhoria nas condições de sobrevivência e aumento da expectativa de vida.

26 de agosto de 2016

Já é tudo pedra

Maurice Utrillo
Já então é tudo pedra
os dias, os desenganos.
Rios secaram neste rosto, casca
de barro, areia causticante.
E onde outrora o mar
- os olhos - búzios esburacados.

E tudo é duro e seco e oco,
o sexo enlouquecido
o osso agudo
coberto de pó e de silêncios.

Havia uma ferida, a primavera
que já não arde nem desfibra - seca
a flor amarela escura
anêmica impura
- rato no deserto

caveira de pássaro
exposta na planura.

- Max Martins (1926-2009)

Dança

Pablo Picasso
Sim, existe a dança:
o corpo solto avança
e recua leve nos passos
matemáticos, um, dois, um,
como se fosse mais fácil
viver num tempo menor,
brincadeira de criança
que sabe de cor o roteiro
e ri na hora marcada.

Fora da dança, o infinito
nos convida, nos seduz
com passos improváveis,
mas temos dois olhos,
apenas duas pernas,
e, sobretudo, duas mãos
onde só cabe um punhado
de estrelas.

Ricardo Silvestrin

25 de agosto de 2016

Corte

Jean-Léon Gérôme
O que se entende por Corte do antigo regime é, em primeiro lugar, a casa de habitação dos reis de França, de suas famílias, de todas as pessoas que, de perto ou de longe, dela fazem parte. As despesas da Corte, da imensa casa dos reis, são consignadas no registro das despesas do reino da França sob a rubrica significativa de Casas Reais.
(Norbert Elias - A sociedade de corte. Lisboa Estampa, 1987.)
Algumas casas de habitação dos reis tiveram grande efetividade política e terminaram por se transformar em patrimônio artístico e cultural, cujo exemplo é o palácio de Versalhes, construído pelo rei Luís XIV, era capaz de abrigar toda a corte francesa. É, sem dúvida, o símbolo mais conhecido do poder real do Antigo Regime.

Canção

Georges Barbier
Abril florescia
Na paisagem mansa.
Entre os jasmineiros
E as roseiras brancas
Do balcão fronteiro
Vi as irmãs sentadas.
A menor cosia,
A maior fiava...
Entre os jasmineiros
E as roseiras brancas,
A mais pequenina,
Risonha e rosada,
De agulha suspensa,
Sentiu que eu a olhava.
A maior seguia,
Silenciosa e pálida,
O fuso na roca,
Que o fio enroscava.
Abril florescia
Na paisagem mansa.

Numa tarde clara
A maior chorava,
Entre os jasmineiros
E as roseiras brancas,
Ante o branco linho
Que na roca fiava.
— Que tens? perguntei-lhe.
Silenciosa e pálida,
Indicou o vestido
Que a irmã começara:
Na túnica negra
A agulha brilhava;
Sobre o véu luzia
A agulha de prata.
Apontou a tarde
De abril que sonhava:
Naquele momento
Os sinos dobravam.
E na tarde clara
Me ensinou suas lágrimas...
Abril florescia
Na paisagem mansa.

Noutro abril alegre,
Noutra tarde clara,
O balcão florido
Solitário estava...
Nem a pequenina,
Risonha e rosada,
Tampouco a irmã triste,
Silenciosa e pálida,
Nem a negra túnica,
Nem a touca branca...
Apenas no fuso
O linho girava
Por mão invisível;
E na obscura sala
A lua do límpido
Espelho brilhava...
Entre os jasmineiros
E as roseiras brancas
Do balcão florido,
Minha imagem dava
Na lua do espelho,
Que longe sonhava...
Abril florescia
Na paisagem mansa.

Antonio Machado (1875-1939)
Tradução: Manuel Bandeira

24 de agosto de 2016

“Manhã” significa “Ordenha” para o granjeiro

John Everett Millais - A filha do fazendeiro
“Manhã” significa “Ordenha” para o granjeiro –
Alvorecer, para o Tenerife –
Picar verdura, para a criada –
Manhã significa tão só perigo para o amante –
E apenas revelação para a bem-amada –

Os epicuristas têm, na manhã, o desjejum –
As noivas, um apocalipse –
Os mundos, uma inundação –
Vidas frágeis, o alívio de seus ais –
A fé, a prova de Deus Pai.

Emily Dickinson (1830- 1886)
Tradução: Ivo Bender

"Ah! Os relógios"

Philip Martin
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

Mario Quintana (1906-1994)

23 de agosto de 2016

Vereis que o poema cresce independente

Edward H. Potthast
Vereis que o poema cresce independente
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,
coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.

Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...

Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.

Jorge de Lima (1893-1953)

Um outro um

Kent R. Wallis
Caminho com o outro que é um vulto
a me seguir ao sol. O que não tem
nome ou norma e sequer se faz oculto,
porque livre é seu hoje e o seu além.
Não posso deletar esse atributo
que já está na conta do armazém
do ser. E ainda que me faça astuto,
eu próprio já não sei se quando é quem.
Se me desperto acordo em alvoroço
aquela voz que grita nos meus ossos
uma pavana
¹,
feita de alarido
(num apelo febril mais do que posso).
Por vezes, me pergunto estarrecido:
foi ilusão de espelho esse ter sido?

Salgado Maranhão
¹ Dança renascentista de origem italiana.

22 de agosto de 2016

Há dias em que em ti talvez não pense

Amedeo Modigliani
Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio.

Gastão Cruz

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira, por Candido Portinari
Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um elétrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas pousaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

21 de agosto de 2016

As mãos e os frutos

Bartolome Esteban Murillo
Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa teu canto
o silêncio é todo meu.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

A Verdade e a Mentira...

Wilson Vicente
Foi a verdade e a mentira
Nascida no mesmo dia,
A verdade, no chão duro
Porque nada possuía
E a mentira por ser rica
Nascer na cama macia
E por causa disto mesmo
Criou logo antipatia,
Não gostava da verdade,
Temendo a sua energia,
Pois onde a mentira fosse
A verdade também ia
O que a mentira apoiava
A verdade não queria
O que a mentira formava
A verdade desfazia,
O segredo da mentira
A verdade descobria,
E a mentira esmorecendo
Vendo que não resistia
Chamou depressa o dinhêro
Para sua companhia,
Levou o dinhêro com ele
A inveja, a hipocrisia,
A ambição, a calúnia,
O orgulho, o crime e a ironia,
A soberba e a vaidade
Que são da mesma famia
E fizeo um tal fofó
Um ingôdo, uma ingrizia
Que a verdade pelejava
Pra desmanchá e não podia
E a mentira aposentou-se
Com esta grande quadria.
Depois, casou-se o dinherô
Com a sua prima anarquia
E com quatro ou cinco mês
Dela nasceu uma fia,
Caçaro logo os padrinho
Mas no mundo não havia
Satanaz com a mãe dele
Lhe apresentaro na pia
E com todo atrevimento
Com toda demagogia
Caçaro um nome bonito
Na sua infernal cartia
E dissero: essa menina
Se Chama democracia,
Tudo se danou de quente
E a verdade ficou fria.

- Patativa do Assaré (1909-2002)

20 de agosto de 2016

Alvorada

José Rosário
A alvorada lembra um linho sem mancha,
aparando a orvalhada.
Há musselinas, contas claras de miçanga
entre as folhas frescas do pomar.
Na meia-luz trêmula, qualquer cousa espera.
O jardim ajoelhou, num misticismo doce.

Incensórios de corolas, folhas que fossem
lábios de seiva, murmurando em prece.
No linho puro, sob o altar da alvorada,
é a missa eterna.
Passarinhos, campainhas vivas...

Toda a alvorada religiosa
adora a luz na lenta elevação do sol.

- Augusto Meyer (1922-1955)

Ah! Não posso

Dario Mecatti
Se uma frase se pudesse
Do meu peito destacar;
Uma frase misteriosa
Como o gemido do mar,
Em noite erma, e saudosa,
De meigo, e doce luar.
Ah! se pudesse!... mas muda
Sou, por lei, que me impõe Deus!
Essa frase maga encerra,
Resume os afetos meus;
Exprime o gozo dos anjos,
Extremos puros dos céus.

Entretanto, ela é meu sonho,
Meu ideal inda é ela;
Menos a vida eu amara
Embora fosse ela bela.
Como rubro diamante,
Sob finíssima tela.

Se dizê-la é meu empenho,
Reprimi-la é meu dever:
Se se escapar dos meus lábios,
Oh! Deus, - fazei-me morrer!
Que eu pronunciando-a não posso

Mais sobre a terra viver.

Maria Firmina dos Reis (1825-1917)

19 de agosto de 2016

Ida e volta

Johann Moritz Rugendas
Quando nos encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.

Quando voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefatos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com olhos e cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.

Porém continuamos indo.

Amalia Bautista

Ao Fim

Henry Hintermeister
Ao fim são muito poucas as palavras
que nos doem a sério e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
que tocam nosso coração e menos
ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
que em nossa vida a sério nos importam:
poder amar alguém, sermos amados
e não morrer depois dos nossos filhos.

Amalia Bautista
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães