31 de julho de 2016

De noite...

Renoir
De noite eram barcos, de manhã são aves:
entram cantando pela casa.
Juntos vão pelos dias como irmãos
gêmeos, dependentes
uns dos outros como estrelas
da mesma constelação.
Cada viagem já foi voluptuosa
descoberta de emoções
de porto em porto; agora
é só o gosto inteligente
de regressar à pequena praça
de muros caiados, à casa
onde o corpo se reconheceu noutro corpo,
fiéis a esta luz, este mar.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Ternura

Albrecht Altdorfer
Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira (1927-1996)

30 de julho de 2016

Pôr de Sol

Jean-Léon Gérôme
Onde estás? A alma anoitece-me bêbada
De todas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu [canto da noite.

Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Ele no entanto já ia longe, levando a luz A gentes mais devotas
Que o honram ainda.

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Tradução: Manuel Bandeira.

O aplauso dos homens

Hans Zatzka
Não trago o coração mais puro e belo e vivo
Desde que amo? Por que me afeiçoáveis mais
Quando era altivo e rude,
Palavroso e vazio?

Ah! só agrada à turba o tumulto das feiras;
Dobra-se humilde o servo ao áspero e violento.
Só creem no divino
Os que o trazem em si.

Friedrich Hölderlin (1770-1843)
Tradução: Manuel Bandeira.

29 de julho de 2016

Desesperado

Edvard Munch – Ashes (Cinzas)
No alto ressoa um seixo agudo
A noite verte vidro
O tempo estaca
Eu
Cascalho
Tu
Te
Vidras!

August Stramm (1874-1915)
Tradução: Augusto de Campos.

Confidência para ser gravada na lâmina da água

Jean-Baptiste-Camille Corot
Caminho bem na minha solidão,
porque sei de mim mesmo o que perdi.
Não tenho mais precisão de mentir,
Enfrento cara a cara o desamor
que mal me disfarcei. Não fui capaz
de ser o que sonhei, Fiquei aquém
das palavras ardentes que inventei
para que um dia triunfasse o amor,
Porque não dei com medo de perder,
o diamante mais puro no meu peito,
inútil de fulgor se consumiu.

- Thiago de Mello

28 de julho de 2016

Trabalhos e Dias

Abel Grimmer
Quando o cardo floresce e a ruidosa cigarra
pousada nas árvores espalha o seu canto estridente,
com o contínuo bater das asas, nos penosos dias de verão,
as cabras estão então mais gordas e é melhor o vinho,
mais lascivas as mulheres e mais frágeis os homens,
quando Sírio esquenta a cabeça e os joelhos
e, sob o efeito do calor, a pele se torna seca.
Pudesse ao menos eu ter a sombra dum rochedo
e vinho bíblino
¹, uma bolacha e leite
das cabras que não aleitam os filhos, um pedaço
de carne de vitela alimentada nos bosques,
que ainda não teve crias, e de cabrito
recém-nascido. E, por cima, para saborear
o vinho flamejante, que possa deitar-me à sombra,
com o coração saciado de comida e o rosto
voltado contra o forte sopro do Zéfiro,
tirar três vezes água duma fonte cristalina
e misturar-lhe uma quarta parte de vinho.

Hesíodo (séc VIII a.C,)
Tradução: Albano Martins
¹ Bíblino = se refere a Bíblia.

Epigrama

Marc Chagall
Bom é ser árvore, vento,
sua grandeza inconsciente;
e não pensar, não temer,
ser, apenas: altamente.
Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte,
com o mesmo rosto tranquilo
diante da vida ou da morte.

Marly de Oliveira (1935-2007)

27 de julho de 2016

A Vida

John Atkinson Grimshaw
No infinito do temo,
a vida é uma lamparina pequenina.
acesa, à noite, numa jangada sobre o mar
— uma jangada desarvorada
que tem plena certeza
de que vai naufragar.

Mas a luz da lamparina,
cujo pavio estertora
e a vaga de repente apaga,
volta à fonte divina
em novo clarão de aurora.

- Léo Lynce

Lanterna dos Afogados

Walter Langley
Quando tá escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar

Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar

Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar

Uma noite longa
Pra uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar

E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar

Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar

Uma noite longa
Pra uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar

Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar.

Herbert Vianna - Paralamas do Sucesso

26 de julho de 2016

Anos, países, povos

John Atkinson Grimshaw
No infinito do temo,
a vida é uma lamparina pequenina.
acesa, à noite, numa jangada sobre o mar
— uma jangada desarvorada
que tem plena certeza
de que vai naufragar.

Mas a luz da lamparina,
cujo pavio estertora
e a vaga de repente apaga,
volta à fonte divina
em novo clarão de aurora.

- Léo Lynce

Soneto do Sol de Madrugada

Herbert James Draper
É noite - como as noites são vazias
E faz silêncio à volta, em toda a estrada
As mãos já não procuram, são tão frias
É noite - e nem sinal de uma alvorada.

Há cruzes espalhadas - tão sombrias!
Há um desejo morto na calçada
As esperanças passam, fugidias
Parece que adiante não há nada.

E de repente o fim que se procura
Após a longa e triste caminhada
E finalmente a luz na noite escura

O sol brilhando em plena madrugada
O desejo de ser - sem ser loucura
A vida, num segundo, iluminada.

Aramis Ribeiro Costa

25 de julho de 2016

Nó Obscuro da Existência

Carybé
O grande nó obscuro de existência
será dilacerado

pelo derradeiro gume do destino
e não iluminado.

Tudo o que existe vacila lentamente
em torno da indiferença
da luz à sombra dos ciprestes.

António Ramos Rosa (1924-2013)

Não Critique

Franz Stuck
Não molestes com tua austeridade
Os que vivem contigo a vida esquiva;
O ódio não produz, não vence, não persuade;
Perdoando toda ofensa,
Terá, em recompensa,
A paz definitiva!

- Omar Khayyám – (1048-1131)
Tradução: J.B. de Mello e Souza

24 de julho de 2016

De "O Livro de Horas"

Georges Braque
A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.

Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos...
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: José Paulo Paes

23 de julho de 2016

Fome do Absoluto

Joan Miró
A Terra você sabe é redonda mas parece chata.

Você não pode confiar
nos sentidos.

Você pensa que já viu todo tipo de criatura
porém não

esta criatura.

Quando o conheci, sabia que

me havia desmamado de Deus, não
da fome do absoluto. Ó boca

insaciável pronunciando o que é e deve
permanecer inapreensível —

dizendo Você não é finito. Você não é finito.

Frank Bidart
Tradução: Carlos Machado

As Evidências

John William Godward
Desta vergonha de existir ouvindo,
Amordaçado, as vãs palavras belas,
Por repetidas quanto mais traindo
Tornadas vácuas da beleza delas;

Desta vergonha de viver mentindo
Só porque escuto o que dizeis com elas;
Desta vergonha de assistir medindo
Por elas as injúrias por trás delas

Ao mesmo sangue com que foram feitas,
Ao suor e ao sêmen por que são eleitas
E à simples morte de chegar-se ao fim;

Desta vergonha inominável grito
A própria vida com que às coisas fito:
Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

Jorge de Sena (1919-1978)

22 de julho de 2016

Cantiga do Campo

Jean-Francois Millet
Por que andas tu mal comigo
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!

Os que andam na descamisa
Gabam a viola tua,
Que, às vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Àquela casa onde cozes,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar contigo, ó meu pomo
Exposto às chuvas e aos sois!
E uma noite morrer como
Se morrem os rouxinóis!

Morrer chorando, num choro
Que mais as magoas consola,
Levando só o tesouro
Da nossa triste viola!

Por que andas tu mal comigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!
António Gomes Leal (1848-1921)

Fezada

Alexandre Reider
Eu vi a Cristo num país de assombro
onde rapazes proclamam alto Teu nome,
boca alta, sem nenhum atavio,
que os leve a jogar ao esconde-esconde.
Eu vi e fiquei pávido, pasmado,
como ancorado num cais um navio novo
e dei comigo a cantar – Louvo-te Senhor,
neste meu país, Portugal de assombro,
com os três rapazes que Daniel cantou,
afagando ele a boca aos leões.
E agora procuro-os, penso neles,
a coisa mais natural do mundo
e desafio a que me procurem onde
Jesus andou com as criancinhas, os pobres
e os privados do seu Nome.

Ruy Cinatti (1915-1986)

21 de julho de 2016

80 anos de Literatura

Frederick Spencer
2016: 80 anos na Literatura
Autor
Título do Livro
Editora
Gilberto Freyre
Sobrados e Mucambos
Cia Editora Nacional
Sérgio Buarque de Holanda
Raízes do Brasil
Editora José Olympio
Érico Veríssimo
Um Lugar ao Sol
Editora Globo
Monteiro Lobato
Dom Quixote das Crianças
Cia Editora Nacional
Monteiro Lobato
Memórias da Emília
Cia Editora Nacional

Que é viver?

Konstantin Razumov
Viver?...é repelir constantemente para longe de nós tudo aquilo que deseja morrer. Viver?...É ser cruel, impiedoso para tudo que envelhece e enfraquece em nós e mesmo além.
Viver...é portanto não ter piedade dos moribundos, dos velhos e dos miseráveis? Contudo, o velho Moisés disse: “Não matarás”.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "A Gaia Ciência"
Tradução: Márcio Pugilesi, Edson Bini e Norberto de Paula Lima

Olha-me!

Gaetano Previati
Olha-me! O teu olhar sereno e brando
Entra-me o peito, como um largo rio
De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando
O ermo de um bosque tenebroso e frio.
Fala-me! Em grupos doudejantes, quando
Falas, por noites cálidas de estio,
As estrelas acendem-se, radiando,
Altas, semeadas pelo céu sombrio.
Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto
Agora, agora de ternura cheia,
Abre em chispas de fogo essa pupila...
E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto
Em seu fulgor me abraso, uma sereia
Soluce e cante nessa voz tranquila!

Olavo Bilac (1865-1918)

20 de julho de 2016

Filosofia do Amor

Francesco Albani
As fontes se unem com o rio,
e esses rios ao Mar caminham,
os ventos pelos Céus, com brio,
uns nos outros se aninham;
nada está no mundo a sós;
num só espírito, dita o Céu,
tudo encontra a foz.
Por que não eu e o teu?

Os montes beijam nuvens sem chão,
e cingem-se as ondas também;
condena-se a flor-irmã que, do irmão,
vier a ter desdém;
e o raio de sol cinge o vale,
e o luar vem beijar os mares:
de que tudo então me vale
se não me beijares?

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)
Tradução: Adriano Scandolara

A Piaf

Edit Piaf (1915-1963)
Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça irá”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exatamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram, mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Jorge de Sena (1919-1978)