31 de maio de 2016

Seja Você

Raymond Leech
Não olhe o que os outros fazem.
Os outros são tantos!
Você entra num jogo
Que nunca quer parar.
Pelos caminhos de Deus ande,
Não deixe outro ser o guia.
Assim você caminha direto e reto,
E mesmo que ande sozinho.

Christian Morgenstern (1871-1914)
Tradução: Montez Magno

Tem paciência

Alexis Borges Daphnis
Tem paciência
com tudo não resolvido em teu coração
e
tenta amar as perguntas em ti,
como se fossem
quartos trancados ou livros escritos em idioma estrangeiro.

Não pesquises em busca de respostas
que não te podem ser dadas,
porque tu não as podes viver,
e
trata-se de viver tudo.

Vive as grandes perguntas agora. Talvez, num dia longínquo,
sem o perceberes,
te familiarizes com a resposta.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

30 de maio de 2016

Reflexão

Stephen Lucas
Alegrias são dádivas do destino,
que demonstram seu valor no presente.
Pesares, ao contrário, são fontes do conhecimento
cujo significado se revela no futuro.

Rudolf Steiner (1861-1925)

Lembrança de Morrer

Claude Monet
Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos, – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoidecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
– Foi poeta – sonhou – e amou na vida. –

Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia a ave d’aurora
E quando à meia noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!

Alvares de Azevedo (1831-1852)

29 de maio de 2016

Estrada

Claude Monet
Noite sem rasto guia-me até ao meu destino
escondido na solidão das ruas
inconcreto na vastidão das horas
onde tu existes misteriosa e noturna
no teu perfil de bruxa e da rainha
apátrida e nostálgica
deslizando no vidro da madrugada
azulando de raios gelados o dia que nasce
viva e oculta
cada vez mais viva e oculta
cada vez mais única de amor humano
com a tristeza das luzes marítimas
com a gravidade de quem parte
suavemente para sempre.

Ernesto Sampaio(1935-2001)

Lugares Desertos

Gilbert Michaud
Neve caindo e noite caindo rápida, bem rápida
Num campo que vi de passagem
No solo quase coberto de neve macia,
Algum capim ainda aparecendo

Também o mato em volta está coberto
Todos os animais abafados em suas tocas.
Estou muito distraído para contar;
A solidão me envolve sem querer.

E solitária como é esta solidão
Será mais só ainda antes de o ser menos
Brancura vazia de neve na noite que cai
Sem nenhuma expressão, sem nada a exprimir.

Não podem me assustar com seus espaços vazios
Entre estrelas – onde não há raça humana.
Pois tenho dentro de mim, muito mais perto,
Meus próprios desertos para me assustar.

Robert Frost (1874-1963)
Tradução: Marisa Murray

28 de maio de 2016

Andava um Homem

Odilon Redon
Andava um homem à procura de si
quando reparou que as searas tinham sido incendiadas
o mar se desregulara
e o sol ardia de outra maneira
com as mãos que pôde dedicou-se a juntar pedras
e o que restava
a construir uma casa geométrica com abertura para cima
no sentido ao contrário da paisagem e das casas
que até então conhecera

com a luz que ainda havia
fez-lhe chão.

Carlos Nogueira

Canção do cego barqueiro

Jean-Baptiste-Camille Corot
Orelha vasta de água,
o que escutas
vem de onde?

Orelha de céu chegado;
caracol de vogais, rio,
o que escutas
vem de quando?

E as coisas parecem ver-nos,
se as estivermos amando.

Trouxe os meus dias pequenos
como ramos de jacintos.
E que possam compreender-me.
E eu a eles, por instinto.

Os dias grandes são poucos,
gloriosos, talvez extremos.
E os diamantes no fogo
duram, enquanto morremos.

Carlos Nejar

27 de maio de 2016

Reflexão

Brenda Hoddinott
Em cada um vive uma imagem
daquele que deve vir a ser.
Enquanto ele não a realiza,
não alcança a sua paz.

Friedrich Rückert (1788-1866)

Guerra dos Trinta Anos: (1618 a 1648)

A Europa no século XVII estava passando por um momento em que vários países Europeus tinham o interesse em ampliar seus poderes no continente por meio da conquista de novos mercados e territórios. Porém havia muita concorrência entre as monarquias centralizadoras da Europa e isso provocou vários conflitos e guerras. É nesse contexto que observamos a ocorrência da Guerra dos Trinta Anos.
Esse conflito que marcou a transição do feudalismo para a Idade Moderna. A Guerra dos 30 anos envolveu uma série de países, em volta da região onde hoje está a Alemanha, e teve como elemento catalisador as disputas religiosas decorrentes das reformas protestantes do século 16.
Mas as causas dessa guerra também incluem a luta pela afirmação do poder de monarquias europeias, com disputas territoriais e conflitos pela hegemonia.
A Guerra dos Trinta Anos foi um dos mais terríveis conflitos de toda a História. Milhões de pessoas morreram ou ficaram para sempre doentes. Por toda a Europa, a guerra tornou ainda mais difícil a vida dos pobres: suas plantações foram destruídas, suas casas e aldeias arrasadas, seus bens saqueados.
Karl Friedrich Lessing - O cerco (defesa do pátio da Igreja durante a Guerra dos Trinta Anos)
Os soldados não tinham nenhum interesse nacional, lutavam por aqueles que lhes pagavam melhor e não hesitavam em mudar de lado, dependendo da oportunidade.
Sebastian Vrancx - Paisagem com um assalto
O pagamento dos exércitos era irregular e não havia administração para organizar o abastecimento dos combatentes. As tropas, portanto, viviam à custa da população da área que ocupavam, e não havia muita diferença quando se tratava de seu próprio país ou do inimigo: os soldados saqueavam o que podiam.
Sebastian Vrancx - Uma paisagem com viajantes emboscados do lado de fora da cidade.
Os camponeses fugiam para as florestas, carregando seus animais e tudo o que conseguiam levar. Na volta, encontravam apenas casas queimadas e colheitas incendiadas. Sem sementes para refazer as lavouras e com a produção desorganizada pela ocupação militar, trabalhavam longos anos para refazer sua vida. As aldeias se despovoavam, os sobreviventes morriam de fome, os campos transformavam-se em matagais. Aldeias inteiras foram apagadas do mapa. Em algumas regiões, foi necessário um século para recuperar as áreas devastadas.
Ernest Crofts - Uma cena da Guerra dos Trinta Anos
Quando as tropas se dispersavam e a indisciplina arriscava comprometer a união do exército, os oficiais procuravam os desertores e saqueadores e os enforcavam às dezenas, para servir de exemplo.
Enfim, quando chegou a época de assinar o tratado de paz, os príncipes negociaram, trocaram territórios, impuseram seu poder e domínio sem nenhuma consulta, com o mais profundo desrespeito aos direitos do povo.
DUPÂQUIER, Jacques; LAVICHIVER, Marcel. Les temps modernes. Paris: Bordas, 1971. p. 104.

26 de maio de 2016

O Haver

“Quem foi que assim nos fascinou para que tivéssemos
um ar de despedida em tudo o que fazemos?”.

Rainer Maria Rilke
Odilon Redon
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir a ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes (1913-1980)

25 de maio de 2016

A Base de Toda Metafísica

Nicolas Poussin
E agora cavalheiros,
Uma palavra digo para permanecer em vossas mentes e memórias,
Como base e também finale para toda metafísica.

(Assim para os estudantes o velho professor
Ao término de seu curso repleto.)

Tendo estudado o novo e o antigo, os sistemas Grego e Germânico,
Tendo estudado e exposto Kant, Fichte e Schelling e Hegel,
Exposto o saber de Platão, e Sócrates maior do que Platão,
E, maior que Sócrates pesquisado e exposto, Cristo divino havendo
longamente estudado,
Vejo hoje em reminiscência aqueles sistemas Grego e Germânico,
Vejo os filósofos todos, igrejas cristãs e cédulas de dez dólares vejo,
No entanto sob Sócrates claramente vejo, e sob Cristo o divino vejo,
O caro amor do homem pelo seu camarada, a atração de amigo por
amigo,
Dos bem casados marido e mulher, de crianças e pais,
De cidade por cidade e de terra por terra.

Walt Whitman (1819-1892)
Tradução: José Lino Grünewald

Soneto

Christian Schloe
Enquanto, ao competir com teu cabelo,
ouro brunido ao sol deslumbra em vão;
enquanto com desprezo ao rés-do-chão
olha tua alva frente o lírio belo;

enquanto atrás do lábio, por querê-lo,
mais olhos que da rosa agora vão;
e enquanto triunfa com afetação
do luzente cristal teu ser de gelo;

goza gelo, cabelo, lábio e frente,
antes que esta que foi hora dourada
– ouro, lírio, rosal, cristal luzente –

não só em prata ou flor estiolada
se torne, mas tu e tudo juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

Luis de Góngora (1561-1627)
Tradução: Érico Nogueira

24 de maio de 2016

Liberdade e Igualdade!

Lauren Beisel: Sinos de Santorini
Liberdade e igualdade!, escuta-se ecoar;
O pacato cidadão defende-se,
Enchem-se as ruas, os mercados,
E bandos de estranguladores surgem por toda volta;
Então as mulheres tornam-se hienas
E agem apavorantes, sarcásticas,
E ainda contorcendo-se, com dentes de pantera,
Rasgam o coração do inimigo.
Nada Santo o é mais, desatam-se
Todos os laços do piedoso temor,
O bem cede lugar ao mal,
E todos os vícios reinam livres.
Perigoso é acordar o leão,
Destruidor é o dente do tigre,
No entanto, o mais terrível dos horrores,
É o homem no seu desvario.
Ai daqueles que emprestam ao eterno cego
O facho da luz celestial!
Este não brilha para ele, a luz tão somente queima
E torna em cinzas cidades e países.

Friedrich Schiller (1759-1805)
Tradução: Maria Costa

Explicação Necessária

Ferdinand Heilbuth
Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro. Não sei que quer dizer este ruído;
contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-as,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.

Yiannis Ritsos (1909-1990)
Tradução: Eugénio Andrade

23 de maio de 2016

Com pesos e medidas

Ivan Aivazovsky
Com pesos e medidas
ou com axiomas,
filhos da lógica,
é impossível fixar
o princípio da rotação
desta cuia dourada
que nos cobre
– a máquina cósmica.

Ou prever a deterioração, a ruína
e o fim dos sólidos alicerces
sobre os quais
nos vemos assentados.

Como poderão interpretar –
pesos e medidas,
axiomas e raciocínios,
o tema imenso da criação.
este nosso Universo incomensurável?

Criando lendas?
Bosquejando fantasmas?

Omar Khayyám (1048-1131)
Tradução: Christovam de Camargo

Partiu-se o Sol

Christian Schloe
Partiu-se o sol
entre nuvens de cobre.
Dos montes azuis chega um ar sonoro.
No prado do céu,
entre flores de estrelas,
a lua vai em crescente
como um garfo de ouro.

Pelo campo (que espera os tropéis de almas),
vou carregado de pena,
pelo caminho só;
porém o meu coração
um raro sonho canta
de uma paixão oculta
a distância sem fundo.

Ecos de mãos brancas
sobre a minha fronte fria,
paixão que se madurou
com pranto de meus olhos!

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

22 de maio de 2016

Ofertório

Edoardo Ettore Forti
Foi por vós, catecúmenos* sombrios
Da excelsa religião do sentimento,
Que de tudo num vago esquecimento
Vaguei da morte pelos reinos frios;

Buscando a essência em flor do sentimento
Oculta nesses báratros* sombrios,
Onde a voz tumular de ventos frios
Geme o salmo de eterno esquecimento.

Foi por vós que eu vivi nas outras vidas
As sensações secretas, doloridas,
Que sufocam os gritos na garganta,

E é por vós que minh'alma aniquilada,
Nos sudários do sonho amortalhada,
Das próprias ruínas ressurgindo, canta.

Carlos Fernandes (1874-1942)

* Catecúmeno - Aquele que se instrui e se prepara para receber o batismo; noviço.
* Báratro - Precipício onde se jogavam os criminosos em Atenas, abismo, inferno.

Inferno - Canto I (Excerto)

Gustave Doré
No meio do caminho de nossa vida,
encontrei-me numa selva escura,
de tal modo que a via certa desaparecera.
Ah! Descrever como realmente era difícil
essa selva selvagem, áspera e densa
que no pensamento renova o medo!
Tanto é terrífica, que pouco mais é morte,
mas para descrever a boa ajuda que ali encontrei
falarei sobre outras coisas que ali divisei.
Não sei na verdade dizer como nela entrei,
pois estava de tal modo dominado pelo sono nesse momento
que a verdadeira via abandonei.

Dante Alighieri (1265-1321)
Tradução: Carlos E. Zampognaro

21 de maio de 2016

Aspecto

Sir Edward John Poynter
Vivo dentro de quatro paredes matemáticas
Alinhadas metricamente. Rodeiam-me apáticas
almazinhas que não sabem um pingo sequer
Desta febre azulada que nutre minha quimera.

Uso uma pele falsa que listro de gris
(corvo que sob a asa guarda uma flor-de-lis
Provoca-me certo riso o bico feroz e raivoso,
Que eu mesma crio para farsa e estorvo.)

Alfonsina Storni (1892-1938)
Tradução: Vássia Silveira

O Andarilho e sua Sombra

Childe Hassam
O pão neutraliza o sabor de outros alimentos, apaga-o; por isso faz parte de toda refeição maior.
Em toda obra de arte tem de haver algo como o pão, para que nela possa haver diferentes efeitos: que, seguindo-se imediatamente um ao outro, sem uma pausa e descanso assim, esgotariam e despertariam aversão rapidamente, de modo que uma refeição maior seria impossível.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
Tradução: Paulo César de Souza

20 de maio de 2016

Correm Turvas as Águas deste Rio

Ettore Forti
Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturvaram;
os campos florescidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio,
umas coisas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

É o Silêncio...

Edward Robert Hughes
É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe cai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima
.................................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
Últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E oh! minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

Pedro Kilkerry (1885-1917)
Tradução: Frederico Barbosa

19 de maio de 2016

Vinho, aguardente e amores proibidos

Edward Ladell
Se até o século XVIII foi considerado saudável remédio contra vermes, mal da vista e erisipela, a aguardente passou ao index dos médicos. Só bebida com moderação era útil, sobretudo para os velhos cujos órgãos aquecia. Em excesso, fazia perder a razão e os sentidos: “Que fraqueza! Que tristeza! Que palidez! ” – Pontuava o médico mineiro Francisco de Mello Franco, vituperando contra a bebedice. Beber em demasia passou a ser problema moral. A embriaguez fora de controle era capaz de gerar “furores e ímpetos perniciosos”, levando seu adepto a homicídios, adultérios e ladroagens. Tornada “vício”, a cachaça teve, porém, seu consumo embalado pelo comércio transatlântico de destilados e a modernização das garrafas. Antes em forma de cebola, agora, tinham formato de bastão podendo ser empilhadas umas sobre as outras, para a alegria dos comerciantes e dos “viciosos” consumidores!
Na defesa dos comportamentos moderados, os médicos davam largas à imaginação. Um remédio eficaz, por exemplo? A cabeça de um cordeiro lanudo, uma mancheia de cabelos humanos, uma enguia com seu fel, tudo levado ao forno até torrar. O pó resultante devia ser misturado à bebida. “Tiro e queda!”
O vinho português reinou absoluto por século. Era solicitado à mesa dos engenhos ricos e constava da hospitalidade dos conventos. Em recepções, as autoridades não economizavam o conteúdo das preciosas pipas vindas da terrinha. Vindos do Porto ou da Madeira eram oferecidos em festas de Natal e Páscoa enchendo com sua cor dourada e quente os cálices erguidos em brindes. Debret e Saint-Hilaire provaram deles. Antes dos franceses, porém, os fundadores da Austrália, de passagem pelo Rio, em 1787, estiveram a sua procura: “O vinho durante a estação em que permanecemos na cidade só era encontrado nos mercados de retalhos. […] Entre os produtos aqui disponíveis encontram-se: o açúcar, o café, o rum, o vinho do Porto…”.
Referindo-se aos costumes paulistas, Vilhena assim os descreveu:
“Tomam muito pouco vinho às refeições. A bebida usual é água. Em ocasiões públicas ou quando se oferece uma festa a muitos convidados, ornamenta-se a mesa suntuosamente […] O vinho circula copiosamente, repetindo-se os brindes durante o banquete que dura em geral de duas a três horas seguido de doces, o orgulho da mesa”.
Na documentação do Santo Ofício, o capitoso vinho surge como coadjuvante nos prelúdios amorosos. Sobretudo os proibidos, aqueles praticados por sodomitas. João Freire, um jovem criado morador de Olinda, em 1595, confessou na mesa do santo Ofício, quando da Primeira Visitação em Pernambuco que indo algumas vezes à casa do sapateiro André Lessa, “por importunação e instigação do dito que o provocava, lhe mostrou seu membro viril contra sua vontade, deixando o sapateiro tomá-lo na mão e, certa vez convidou-o para jantar e comeram pão, pacovas e beberam vinho”. Em 1652, durante uma travessia transatlântica, o barbeiro André Mendes, não fez por menos: “estava cheio de vinho querendo beijar e convidando a muitos soldados para dormir junto”. E explicava sua receita infalível de sedução: “com uma peroleira de vinho e uma botija de aguardente fazia nos rapazes o que quisesse, porque o vinho e a aguardente fazem perder o juízo”.
Mary del Priore.
“História da Gente Brasileira: Colônia”, Editora LeYa, 2016.