31 de janeiro de 2016

Mar

Thomas Gainsborough
Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Miguel Torga (1907-1995)

Antologia

Edward Hopper
A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p’ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
– A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira (1886-1968)

30 de janeiro de 2016

Arima

William Ireland
Uma gaivota - dizes.
Sim, uma gaivota
passa distante, e arde.
O teu rosto é azul,
e contudo está cheio
de oiro da tarde.

Uma gaivota.
Alma do mar e tua,
abandona-se à luz.
E na boca nem eu sei
se me nasce o coração,
ou se é a lua.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Pedra

Jean-Léon Gérôme
A pedra
é uma criatura perfeita

igual a si mesma
percebe seus limites

é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra

seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita

seu ardor e frieza
são justos e dignos

sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor

– Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes.

Zbigniew Herbert (1924-1998)
Tradução: Sylvio Fraga Neto e Danuta Nóbrega

29 de janeiro de 2016

As duas palavras que são uma prece

Edmund Blair Leighton
Uma coisa sabes quando as dizes:
por toda a terra há gente a dizê-las contigo;
uma criança proferindo-as quando a apreensão a domina,
uma mulher recitando-as sobre um berço num hospital.
E se apanhares um táxi que vá por Tenderloin:
a uma luz vermelha, um homem com um gorro,
fios de lã desenredando-se ao longo do rosto, bate no vidro;
e diz, Por favor.
No momento em que ouves o que ele diz
a luz muda, o táxi afasta-se
e tu não voltas atrás, sabendo contudo
que alguém acabou de te suplicar tal como tu suplicas.
Por favor: duas palavras tão breves
que tanto se podem perder no ar
como flutuarem - como penas que são - até chegarem a Deus,
batendo e batendo, e finalmente
caindo na terra como chuva,
como pepitas de gelo, embebendo um ramo negro,
recolhendo-se nos esgotos, infiltrando-se no solo,
e tu caminhas com este tempo todos os dias.

Ellery Akers

28 de janeiro de 2016

Bach numa estação de Metro

Caravaggio
Como experiência
o Washington Post
pediu a um violinista de formação clássica -
usando ganga, tênis
e um boné de basebol -
que se instalasse junto ao recipiente do lixo
na hora de ponta à entrada do Metro
e tocasse Bach
com um Stradivarius.
A Partita nº2 em Dó Menor
emergiu das colunas
como um oceano nasce das ondas
e, soando, revelou à estação
porque nos devemos dar ao trabalho
de viver.
Um milhar de pessoas
foi fluindo como uma corrente. Sete delas
pararam por um minuto (mais ou menos)
e trinta e dois dólares pousaram
no estojo aberto do violino.
Uma empregada de café impelida
para a porta aberta
sempre que estava livre
disse mais tarde que Bach
a pacificou,
e todas as crianças,
todas sem exceção,
imergindo na música
como se esta fosse água,
puseram-se a ouvi-la até que tiveram que ser
resgatadas pelos pais
que tinham que ir a outro lugar qualquer.

David Lee Garrison

27 de janeiro de 2016

Música

Nicolas Poussin - Concert of Cupids
Há nela uma fulgência milagrosa,
cujas facetas sempre me encantaram.
Foi a única a falar-me, corajosa,
quando os outros, medrosos, se afastaram.

Depois que se desviou o último olhar,
no túmulo ao meu lado ela cantava –
como a primeira chuva que o chão lava,
ou mil flores num campo a conversar.

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Renato Suttana

Velho Motivo

Palma Vecchio - O beijo de Raquel e Jacob
SONETO de Jacob, pastor antigo,
—soneto de Rachel, serrana bela…
Oh quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras ela!

O que eu servira, para viver contigo,
—tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!
E vou sofrendo a minha pena amarga,
—pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!

Rachel não era dele e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia
aquela que me tem por seu senhor!

António Sardinha (1888-1925)

26 de janeiro de 2016

Musa

Fritz Zuber-Buhler
Quando à noite eu espero a sua vinda,
numa balança a minha vida pende.
Que é a honra, a liberdade, a juventude?
Fumo que de um cachimbo se desprende.

Veio, jogando o manto para trás,
e uma atenção cordial me concedeu.
“Foste – eu lhe disse – quem ditou a Dante
as páginas do Inferno?” E ela: “Fui eu.”

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Renato Suttana

A Flor de Lótus e sua Simbologia

Oksana Pravdina - Mandala
“A flor de lótus simboliza a pureza, a perfeição, a sabedoria, a paz, o sol, a prosperidade, a energia, a fertilidade, o nascimento, o renascimento, a sexualidade e a sensualidade.”
Criação, Beleza e Espiritualidade
"Venerada em muitos lugares, desde Índia, China, Japão e Egito, a flor de Lótus durante muito tempo simbolizou a criação, a fertilidade e, sobretudo, a pureza, uma vez que essa bela flor emerge das águas sujas, turvas e estagnadas. Além disso, representa a beleza e o distanciamento pois cresce sem se sujar nas águas que a envolvem (a raiz está na lama, o caule na água e a flor no sol). Na crença hindu, simboliza a beleza interior: "viver no mundo, sem se ligar com aquilo que o rodeia".
No Egito, essa flor atípica simboliza a "origem da manifestação", ou seja, o nascimento e o renascimento visto que ela abre e fecha consoante o movimento solar e, ademais, está relacionada com os deuses Nefertem e Re. Vale lembrar que o lótus azul era venerado pelos faraós do Egito por possuir características sagradas e mágicas associadas ao renascimento."
Budismo
"Não obstante, na Índia, a flor de Lótus simboliza o crescimento espiritual representado por aquela que surge da obscuridade para desabrochar em plena luz. Na mitologia hindu, o lótus dourado aparece na mão esquerda de Buda simbolizando a pureza e o esclarecimento.
Essa flor é um dos símbolos mais ilustrativos do budismo. Nessa religião, ela representa o coração fechado, o qual após desenvolver as virtudes de Buda, se abre. Assim, Buda é também representado sentado nessa flor, de modo que ela é considerada o seu trono.
Além de Buda, muito deuses da mitologia hindu se relacionam com essa flor, por exemplo, Brahma, o criador, que nasce do umbigo de Vishna emergindo num lótus de mil pétalas; ou Surya, o deus do sol, retratado com duas flores de Lótus simbolizando o esclarecimento."
Representação da Flor
"A tradicional flor de lótus é representada com oito pétalas que se relacionam com as oito direções do espaço, sendo, portanto, um símbolo da harmonia cósmica e, por isso, aparece com frequência nas mandalas. Por sua vez, na mitologia hindu, há uma representação do lótus com mil pétalas considerado o trono de buda, o pináculo da perfeição, simbolizando o esclarecimento espiritual e a totalidade. Da mesma maneira, Brahma nasce do umbigo de Vishnu sustentado por uma flor de lótus de mil pétalas."

25 de janeiro de 2016

Sete anos do pastor Jacob

Rafael Sanzio – Beijo de Raquel e Jacob
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

Profecia

Victor Bregeda
Porque imergi no futuro,
até onde o olho humano pode ver,
Vislumbrei a Visão do mundo,
e todo o encanto que podia ser;
Vi os céus cheios
de naus, corsários, velas de magia,
Pilotos do crepúsculo
rubro tombando em cargas de valia;
Ouvi os céus cheios de gritos,
e lá choveu um lívido orvalhar
Das vistosas esquadras
das nações no azul central a atacar;
Bem longe, o murmurar no mundo inteiro
do vento sul nesse ímpeto que esquenta,
Com os emblemas dos povos
mergulhando nos raios da tormenta;
Até que o tambor de guerra
não soasse e bandeiras ao reverso
No Parlamento do homem,
Federação de todo este universo.
Lá o senso comum da maioria
suporta um febril reino em sobressalto,
E a benévola terra
dormirá envolta em norma universal.

Alfred Lord Tennyson (1809-1892)
Tradução: José Lino Grünewald

24 de janeiro de 2016

Movimento

Diego Rivera
Se tu és a égua de âmbar
eu sou o caminho de sangue
Se tu és o primeiro nevão
eu sou quem acende a fogueira da madrugada
Se tu és a torre da noite
eu sou o cravo ardendo em tua fronte
Se tu és a maré matutina
eu sou o grito do primeiro pássaro
Se tu és a cesta de laranjas
eu sou o punhal de sol
Se tu és o altar de pedra
eu sou a mão sacrílega
Se tu és a terra deitada
eu sou a cana verde
Se tu és o salto do vento
eu sou o fogo oculto
Se tu és a boca da água
eu sou a boca do musgo
Se tu és o bosque das nuvens
eu sou o machado que as corta
Se tu és a cidade profunda
eu sou a chuva da consagração
Se tu és a montanha amarela
eu sou os braços vermelhos do líquen
Se tu és o sol que se levanta
eu sou o caminho de sangue.

Octavio Paz (1914-1998)
Tradução: Luis Pignatelli

Infiel

William Etty
O teu sorriso chora no meu peito
Gelam os lábios mordidos em brasa
No hálito há presságio de murchar de folha!
O teu olhar sepulta em caixão
E
Arremessa ruidosamente palavras sobre a tampa.
Esquecidas
Vão-se esboroando as mãos!
Livre
A bainha do teu vestido coqueteia
Meneante
Passando-lhe ao de leve por cima!

August Stramm (1874-1915)
Tradução: João Barrento

23 de janeiro de 2016

Metamorfoses - Versos de 1 a 31.

James Durden
Faz-me o estro dizer formas em novos corpos
mudadas. Deuses, já que as mudastes também,
inspirai-me a empresa e, da origem do mundo
ao meu tempo, guiai este canto perpétuo.
Antes do mar, da terra e céu que tudo cobre,
a natureza tinha, em todo o orbe, um só rosto
a que chamaram Caos, massa rude e indigesta;
nada havia, a não ser o peso inerte e díspares
sementes mal dispostas de coisas sem nexo.
Inda nenhum Titã iluminava o mundo,
nem Febe, no crescente, os chifres renovava,
nem a terra pendia no ar circunfuso
¹,
suspensa no seu peso, nem, por longas margens,
os seus braços havia espraiado Anfitrite
² .
E como ali houvesse terra e mar e ar,
instável era a terra, a onda inavegável
e o ar sem luz; a nada aderia uma forma,
e cada coisa obstava outras, pois num só corpo
o frio combatia o quente, o seco o úmido,
o mole o duro, e o peso o que não tinha peso.
Deus ou douta natura esta luta sanou,
pois do céu separou a terra, e desta as ondas,
e do ar espesso um céu límpido discerniu.
E depois que os tirou do disforme conjunto,
cada qual num lugar ligou, em paz concorde.
Do céu convexo, força ígnea e sem peso
surgiu e se alocou no mais alto da abóbada;
o ar, dela, se aproxima em leveza e lugar;
mais densa, a terra atrai os elementos grandes
e é premida por seu peso; a água circunfluida
³
ocupou o restante e cercou o orbe sólido.

Públio Ovídio Naso (43 a.C.-17)
Tradução: Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho

Circunfuso = Espalhado, em torno.
Anfitrite = Na mitologia grega a deusa rainha do mar, esposa do deus dos mares Poseidon.
Circunfluida = em torno, contorno.

Eu choro a morte do meu marido

Gu Kaizhi
Tu me deixaste, mas teu nome é imortal.
Triste, eu te serei sempre fiel.
Tu te sacrificaste por teus princípios.
Eu continuo a dar amor aos nossos filhos.
Tua desgraça pertence ao passado.
Agora, foi erguida uma estrela em tua memória.
De agora em diante, tu, morto e eu, viva,
Seguiremos dois caminhos diferentes.
Mas tua integridade e minha fidelidade
Vão sempre nutrir um ao outro.

Shang Jinglan (1596-1651)
Foi uma poeta da dinastia Ming.

22 de janeiro de 2016

Pitágoras

Sulamith Wulfing
Saberás ainda que os homens
livremente e por si próprios
escolhem os seus males.

Miseráveis que são, não sabem
nem ver nem entender os bens
à sua beira.
Poucos os que aprenderam a
libertar-se de seus males.

Tal é a sorte que perturba
os espíritos dos mortais
rolando em sentidos vários
acabrunhados por males sem fim.

Inata nos homens realmente
a aflitiva Discórdia os
acompanha e prejudica
sem que dela se apercebam.
Não a provoques antes foge
dela, cedendo.

Pitágoras de Samos (570-495 a.C.)
Tradução: Fiama Hasse Pais Brandão

Desalojamento

Hubert von Herkomer
Hoje amanheci triste. Nem sequer
a manhã, insensível, me comove.
Hoje amanheci comigo ao lado, triste,
feridamente triste,
como os desalojados.
Como um homem e uma mulher
de incontáveis invernos,
que obrigados se viram com ofertas
ruins a abandonar os seus deuses lares
(o sol de muitos anos
atrás das mesmas janelas;
lembranças como pássaros
que não envelhecem, ferem
os seus cantos ainda;
uma vida, de súbito, à intempérie).
Como os desalojados,
como mulher e homem
que despertassem surpreendidos, sós,
numa manhã mais de sol exagerado.

Marcos Tramón
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães

21 de janeiro de 2016

A Folha Viva

Winslow Homer
Mantêm-se o ramo vivo
da verdura. A folha
cai, repõe-se, a copa reverdece,
o seu volume sobe.
Nada é efêmero
sob o tom da luz. Tudo
retoma a folha, tem recorte,
o seu pecíolo verde ou outra forma.

Cai a folhagem, tinge todo o chão.
Ou, possuída a terra, ela persiste
e é perene a queda
de uma árvore,
depois o surto,
e tudo convergente, se mantém.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

A Pulga e a Tartaruga

Valeri Gorbachev
Um dia a velha pulga, gorducha,
a tartaruga vê
e por troça lhe pergunta:
“Dessa concha de osso,
quando te libertarás?
Pensas não sair jamais
dessa toca negra
onde estás prisioneira?
Por que suportas ainda
tão longa escravidão, semelhante desonra?
Olha a minha moradia
naquele belo palácio
de fúlgido esplendor...
Nós lá vivemos, naquele...
Isto é, eu vivo nele,
e o patrão é
um magnata estatal...”.
Responde o animal:
“Do meu destino não lamento.
Vivo numa pobre casa, é verdade,
mas livre e contente,
e nela sou patrão!”.

Stoian Mikhailovski (1856-1927)
Tradução: Carlos Freire

20 de janeiro de 2016

A Evolução da Forma

Isabelle Planté
Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos
dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti,
para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo; um punhado de pó
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torne o mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman.

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre Um; com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

Jalaludin Rumi (1207-1273)

Esta mão ainda viva

Esta mão ainda viva, quente, ao estender-se
com toda a sua paixão poderia vir, se estivesse fria
e prisioneira no silêncio glacial do túmulo,
assombrar os dias e os sonhos gélidos da noite,
e desejarias que o próprio coração arrefecido
fizesse de novo correr nas minhas veias o calor da vida
até se acalmar o teu espírito. Ela está perto, podes vê-la:
estendo-a para ti.

John Keats (1795-1821)
Tradução: Fernando Guimarães

19 de janeiro de 2016

Morro da Babilônia

Jerry Trueman
À noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinquenta por cento de cinema, e o resto
que veio de Luanda ou se perdeu na língua Geral).
Quando houve revolução, os soldados
espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.
Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.

(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012, p.19.)
No poema “Morro da Babilônia”, de Carlos Drummond de Andrade

a) a menção à cidade do Rio de Janeiro é feita de modo indireto, metonimicamente, pela referência ao Morro da Babilônia.

b) o sentimento do mundo é representado pela percepção particular sobre a cidade do Rio de Janeiro, aludida pela metáfora do Morro da Babilônia.

d) a referência ao Morro da Babilônia produz, no percurso figurativo do poema, um oxímoro
¹, a relação entre terror e gentileza no espaço urbano.

¹ oxímoro = obscura claridade, música silenciosa.

Armadura

Maxfield Parrish
Desenganos, traições, combates, sofrimentos,
Numa vida já longa acumulados, vão
— Como sobre um paul contínuos sedimentos,
Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.

E a cinza com o tempo atinge uma espessura
Que nem os mais cruéis desesperos abalam;
É como tenebrosa, impávida armadura
Ou couraça de bronze em que os golpes resvalam.

Impermeável da Inveja à peçonhenta bava
¹,
Nela a Calúnia embota os seus dentes ervados;
Não há braço que possa amolgá-la, nem clava
Que nesse duro arnês
² se não faça em bocados.

E no entanto, através dessas rijas camadas,
Ou rompendo por entre as juntas da armadura,
Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
Que o coração verteu dalguma chaga obscura...

António Feijó (1859-1917)
bava = que vive isolado de sua família e se entrega a penitências.
arnês = armadura de um guerreiro.

18 de janeiro de 2016

Estâncias para Música

Henri Matisse
Muita mulher tem beleza
nenhuma a tua magia;
e a tua voz tal riqueza,
que nem a da melodia
por sobre as águas do mar:
quando, num encantamento,
sonhando adormece o vento
E a onda para um momento
e desfalece a brilhar…

E a lua no céu fiando
a sua teia, a sorrir;
e o mar brandamente arfando
qual criancinha a dormir:
assim, dentro da minha alma,
eu me inclino, ao encontrar-te,
me suspendo, a escutar-te,
me curvo, para adorar-te:
com funda emoção, mas calma.

Lord Byron (1788-1824)
Tradução: Luiz Cardim

O Mal

Charles Marion Russell
Eu nunca imploro aos deuses superiores:
No meu orgulho sei que rirão de piedade;
Eles conhecem bem a pobre humanidade,
E a jaula onde está preso o cão de nossas dores.

Ninguém sai de si mesmo, e sai dos seus horrores;
Somos isto: não há mudar na eternidade:
Há para nós em tudo uma cumplicidade;
Levas contigo o mal sem fim, para onde fores.

O mal, obra que acusa um grande pensamento,
O mal, que prende o céu à terra, o mar ao vento,
O mal, do qual um deus foi exímio escultor;

Que é deus mesmo, – e será? eu dentro em mim pergunto, –
Que encosta o dia à noite, e o pranto ao rir põe junto,
O mal único, o mal, que é todo o mal, – é o amor.

Luís Delfino (1834-1910)