5 de novembro de 2016

Recordar

Stephan Bakalowicz
Se ao homem que recorda os feitos bons de outrora
existe algum prazer ao ver que é pio,
que não faltou à fé jurada nem do nome
usou dos deuses por perder os homens
num pacto, a ti, Catulo, é grande, vida afora,
em paga, a dita deste ingrato amor.
Pois quanto os homens podem bendizer ou bem
fazer está por ti já dito e feito.
E tudo terminou confiado a um peito ingrato.
Por que então te torturas tanto assim?
Por que não firmas o ânimo e, senhor de si,
e deuses contra, deixas de ser triste?
Difícil é deixar súbito um longo amor.
É difícil, mas tenta corno podes.
Só isto é sa1vação, isto tens de fazer.
Que o faças, se impossível ou possível.
Ó deuses, se é de vós ter pena ou se já a alguém
último auxílio destes na sua morte,
olhai-me triste e se urna vida levei pura,
arrancai-me esta peste e perdição,
que sub-reptícia qual torpor nos membros dentro
alegria expulsou do peito inteiro.
Eu já não quero de sua parte que me queira,
e – impossível – que venha a ter pudor.
Quero estar bem, deixar esta dor ruim. Deuses!
Isto me dai por minha piedade.

Caio Valério Catulo (84–54 a.C.)
Tradução: João Angelo Oliva Neto

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