9 de novembro de 2016

Poesia

Bill Makinson
Poesia, minha voz enrouquece
De juras sobre ti: estertor,
Não pose melíflua de cantor.
Vagão de terceira no verão,
Pareces. Subúrbio e não refrão.

Abafas como Iamskaia
¹: és maio,
Chevardin
² , o reduto noturno,
Onde nuvens exalam seus guais
³
e se vão, cada qual por seu turno.

E em dobro, pela trama dos trilhos, –
Arrabaldes não são estribilhos, –
Se rojam das estações à casa,
Não cantando, formas hebetadas.

Renovos que a chuva põe nos cachos
Até de manhã, num fio contínuo,
Pingam seus acrósticos do alto
Enquanto lançam bolhas de rimas.

Poesia, quando sob a torneira
Um truísmo é um balde de folha
Vazio, mas o jato se despeja.
Eis o branco da página: jorra!

Boris Pasternak (1890-1960)
Tradução Haroldo de Campos
Notas:
(1) Em muitas cidades russas, havia um bairro chamado Iamskaia Sloboda (arrabalde dos cocheiros), geralmente pobre e abafado;
(2) Chevardin é o nome da aldeia onde, em 24 de agosto de 1812, teve início a batalha de Borodinó, decisiva para o desfecho da campanha de Napoleão contra a Rússia;
(3) Guais = gemidos.

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