27 de novembro de 2016

Massa

Maurice Denis
Ao findar a batalha,
e morto o combatente, dirigiu-se lhe um homem
e lhe disse: - “Não morras; te amo tanto!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Acercaram-se dois e repetiram-lhe:
- “Não nos deixes! Coragem! Volta à vida!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Vieram a ele vinte, cem, mil, quinhentos mil, clamando:
- “Tanto amor, e não poder nada contra a morte!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Já milhões de pessoas o rodeavam,
com a mesma rogativa: - “Fica, irmão!”
Mas o cadáver continuou morrendo.

Rodearam-no, por fim, todos os homens
da Terra: e, vendo-os, o cadáver, triste, emocionado,
a pouco e pouco se incorpora,
abraça o primeiro homem; põe-se a andar...

César Vallejo (1893-1938)
Tradução: Aurélio Buarque de Holanda

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