13 de novembro de 2016

A jaula e as feras

Vincent van Gogh
Vivem centos de doidos nesse hospício
(Quem no diria, olhando cá de fora...?!)
E o portão dança já no velho quício
¹,
Dança e faz entrar mais a toda a hora...

Trazem todos um sonho, um crime, um vício,
E foram reis lá muito longe, outrora...
E em seus rostos de espanto ou de flagício
²
Não sei que ausência atroz se comemora!

Faz medo e angústia olhá-los bem nos olhos;
E, lá por trás de grades e ferrolhos,
Estoiram de ansiedade desmedida.

- Meu corpo, ó hospício de alienados!
Abre-te aos meus desejos enjaulados,
Deixa-os despedaçar a minha vida!

José Régio (1901-1969)
¹ = dobradiça.
² = delito.

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