24 de outubro de 2016

A véspera do pródigo

Angelo Bronzino
Eu, o que vigia abrigado na inocência,
sou o eu não partiu quando meu último sopro apagou a vela.
Mas, quem decifrou lentamente os fabulosos signos?
Oh, distante!
Quem buscava nas nuvens o espelho onde dorme a imagem de
secretos países?
Quem ouvia outras vozes a queixar-se o vento contra o cristal batido?
Quem inscreveu com fogo o seu nome nos troncos para que fosse
anúncio ardente nas praias?
Oh, mensageiros!
Outro é o que partiu.
Mas por seu rosto passo às vezes como se ainda se visse no balão
inquieto da infância que o tempo balança:
e às vezes chega a mim, atrás das frondes errantes, o fulgor de sua
mísera realeza. Não me julgueis agora.
Esperai-o comigo.
Sua morte há de alcançar-me tanto como sua vida.

Olga Orozco (1920-1999)
Tradução: José Bento

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