21 de outubro de 2016

A bela teta

Piero di Cosimo - Simonetta Vespucci
Teta perfeita, branca como um ovo,
Teta de cetim feita, cetim novo,
Teta da qual a rosa tem vergonha,
Teta melhor que tudo o que se sonha,
Teta dura, nem teta, mas enfim

Comparável a bola de marfim,
E no centro da qual somente esteja

Um rubi de morango ou de cereja
Que ninguém vê nem toca por enquanto,
Mas que aposto ser tal como eu o canto:

Teta de bico pois tão encarnado
Que parece por agora sossegado,
Quer ela vá correndo ou vá andando,
Quer ela vá partindo ou vá saltando:
Teta do lado esquerdo, tão matreira,
Sempre longe da sua companheira,
Teta que és testemunha e viva imagem
De compostura tal da personagem
Que só de ver-te assim como te vejo
Nasce dentro das mãos este desejo
De toda te palpar e possuir:
Mas é preciso eu próprio me impedir
De mais me aproximar, pois não duvido
Depois desse desejo outro surgido…
Ó teta nem modesta nem vistosa,
Teta madura, teta apetitosa,
Teta que noite e dia ouço gritar:
“Depressa me casai, quero casar!”

Com justiça, feliz se vai dizer
Aquele que de leite te há de encher,
Fazendo de uma teta de donzela
Teta de dona inteiramente bela.

Clément Marot (1496-1544)
Tradução: David Mourão-Ferreira

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