23 de setembro de 2016

Rothko

(A Andrés Sánchez Robayna)
Mark Rothko
As cores, não, tampouco a forma pura.
Rememorar da tinta. Sedimento
que se decanta, à luz, de seu pigmento,
além, além da tela e sua armadura.
Sombra alguma, nem linhas, nem textura,
nem a quase ilusão do movimento;
silêncio, nada mais: o sentimento
de já estar em presença: da Pintura,
suas franjas paralelas, cuja bruma
cruza o intacto da tela, colorida
embora de zarcão, vinho que esfuma;
cor púrpura, cinábrio, tez laranja...
O vermelho do sangue que se esbanja
selou sua exploração. Selou sua vida.

Severo Sarduy (1937-1993)
Tradução: Haroldo de Campos

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