22 de setembro de 2016

Chapéus Trocados

Vicente Romero Redondo
Tio desengraçado, a quem deu na veneta
meter na cabeça um chapéu de mulher,
embora sem graça, dá sempre prazer
o seu travestismo discreto e zureta,

que até nos constrange, e causa impaciência.
Pois não se discute costume, nem gosto.
Por isso é que as roupas do sexo oposto
inspiram essa espécie de experiência.

Ó tia anândrica, que lá na praia
resolve provar um boné de iatista
e dá um grito agudo, exibicionista,
até que os olhares de todos atraia,

a aba até o brinco – aproveite bem,
que a moda e as marés estão sempre mudando,
e esse boné que você está ostentando
talvez não se use no ano que vem.

E a quem parecer engraçado um cocar,
ou prato de uvas bancando sombreiro,
é recomendável que pense primeiro
que tais perversões podem bem agravar

loucuras que haja do lado de dentro.
E quando por fim desmorona a cartola,
expondo aos ventos mais frios a cachola,
que tal um barrete vermelho no centro?

Tio desengraçado, no seu chapéu-coco
maior que a cabeça, ou nos dois que você
pôs um sobre o outro, o que é que se vê?
Há estrelas, talvez, nesse seu domo oco?

Ó tia exemplar, com suas formas esguias,
seus olhos avernos e desassombrados
que lentas mudanças verão, ocultados
sob abas enormes, pesadas, sombrias?

Elizabeth Bishop (1911-1979)
Tradução: Paulo Henriques Brito

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