13 de agosto de 2016

Poema

Édouard Manet
Como a lua cheia surge ao cair da noite,
Assim seu rosto assoma entre cabelos cacheados.

Só por vê-la, lágrimas descem sobre minha face,
Como se o narciso derramasse orvalho pela rosa.

Se até o pensamento lhe fere a sutileza,
Poderia o olho rude percebê-la?

Sua fugaz maravilha confunde o raciocínio
E posiciona-se além do alcance da mirada.

Quando pretendi descrevê-la, ela fugiu.
Por que não o faria, se a descrição visava aprisioná-la?

A beleza pura é sempre fugidia,
Para que sua formosura não ofenda.

Se há alguém que, ao desejá-la, rebaixa seu desejo,
Sempre existirão outros, que não amam assim.

Ibn Arabi (1165–1240)
Tradução: José Tadeu Arantes

Nota Explicativa:
Aos 37 anos, e já bastante avançado no caminho da auto realização, Ibn Árabi recebeu, de uma fonte misteriosa, a instrução para deixar a Espanha e viajar pelo Oriente. Visitou, então, a Turquia, o Egito, a Síria, o Iraque e a Arábia. Na peregrinação à cidade santa de Meca, juntou-se a uma caravana de sufis persas, chefiada pelo pai da bela, inteligente e erudita Nizam, que é o tema deste poema. A poesia, ao mesmo tempo erótica e mística, que dedicou a essa jovem, na qual vislumbrou o próprio Divino sob a forma humana e pela qual se apaixonou, escandalizou os religiosos formalistas, sempre disponíveis para vigiar e punir. A história teve, felizmente, um desfecho favorável, pois, com seu magistral domínio da jurisprudência islâmica, Ibn Árabi venceu a ação que foi movida contra ele no tribunal religioso. Anos mais tarde, descreveu, em seu maior e mais importante livro, essa peregrinação, que foi uma viagem tanto exterior (de um lugar a outro) como interior (de um plano de consciência a outro). Futuhat al-Makkiyya é o título dessa obra magna. Ele costuma ser traduzido como “Revelações de Meca”, mas seria mais adequado dizer “Desvelamentos de Meca”. Uma edição crítica do livro, com nada menos do que 17 mil páginas, foi publicada há algum tempo no Egito.

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