16 de agosto de 2016

Ode à Cebola

Pierre-Auguste Renoir
Cebola
luminosa redoma,
pétala a pétala
se formou a tua formosura
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se tornou redondo o teu ventre de orvalho.

Debaixo da terra
aconteceu o milagre
e quando apareceu
o teu torpe talo verde,
e nasceram
as tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua desnuda transparência
e como para Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia
levantando os seus seios,
a terra
te fez assim,
cebola,
clara como um planeta,
e destinada
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água
sobre
a mesa
das gentes pobres.

Generosa
desfazes
o teu globo de frescura
na consumação
fervente da onda,
e o pedaço de cristal
no calor acendido do azeite
se transforma em ondulada pluma de ouro.

Também recordarei como fecunda
a tua influência o amor da salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
ao celebrar a tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.

Mas ao alcance
das mãos do povo,
regada com azeite,
salpicada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolta em delicado
papel, sais do solo,
eterna, intacta, pura
como semente de astro,
e ao cortar-te
a faca na cozinha
sobe a única lágrima
sem pena.
Fizeste-nos chorar sem nos afligires.

Eu celebrei tudo quanto existe, cebola,
mas para mim és
mais formosa que uma ave
de plumas ofuscantes,
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina,
baile imóvel
de anémona nevada
e vive a fragrância da terra
na tua natureza cristalina.

Pablo Neruda (1904-1973)

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