5 de agosto de 2016

Contagem do Tempo

“A palavra calendário origina-se do latim calenda, nome dado pelos romanos ao primeiro dia do mês, que era também o dia da cobrança de impostos”.
(CABRINI, Conceição [et alli]. História temática: tempos e culturas. São Paulo: Scipione, 2009. p. 52.)
Alphonse Mucha - Calendar
Os anos começaram a ser contados a partir do nascimento de Cristo, dividindo a história da humanidade em antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.). O que poucos sabem é como e quando se tomou essa decisão. Por volta dos anos 600 d.C. cogitou-se considerar a data do nascimento de Cristo como o ano zero.
O monge Dionísio, o Pequeno, que viveu no século VI, foi quem se preocupou e quem estabeleceu a data de nascimento do Redentor, fixada então em 25 de dezembro de 753 da fundação de Roma.
A Igreja acolheu a data de 25 de dezembro como o dia do nascimento de Jesus Cristo porque o dia de Natal se sobreporia, assim, às celebrações do solstício de inverno e à festa de Mitra, deus da luz, que os antigos festejavam justamente nesse dia. Assim, a Igreja cristianizou essas festividades pagãs, fornecendo-lhes simbolismos cristãos e uma nova linguagem cristã.
A fonte cronológica relativa ao ano de nascimento de Cristo é uma passagem do Evangelho de Lucas (2, 1-2):
Segundo essa passagem, naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro realizado quando Quirino era governador da Síria, com o alistamento de todos, cada um em sua própria cidade. Nessa época, consta que José saiu da região da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a região da Judéia, para cidade de Davi, chamada Belém, a fim de se inscrever no recenseamento com Maria, sua esposa, que estava grávida. Mateus (2, 1-2) acrescentou a estrela dos Magos à narrativa e, sobretudo, colocou o nascimento de Jesus no tempo do reino de Herodes, também mencionado por Lucas (I, 5), indiretamente.
A partir dessas fontes e depois de muitos cálculos, Dionísio pensou que poderia estabelecer o ano preciso da morte de Herodes – consta que Jesus nasceu no ano em que Herodes morreu. Mas se enganou, pois o soberano morreu certamente no ano 4 a.C. É ainda mais difícil estabelecer o tempo exato do recenseamento de Quirino, que aconteceu, de qualquer forma, entre os anos 7 e 6 a.C.
O sistema estabelecido por Dionísio foi adotado muito lentamente. Pode-se dizer que só se difundiu realmente no século IX d.C. (no tempo de Carlos Magno). Hoje, os historiadores concordam em considerar que Cristo nasceu cinco ou seis anos antes do que propõem os cálculos do monge; portanto, o nosso milênio terminou antes que nos déssemos conta.
Mesmo assim, a datação do nascimento de Cristo impôs-se em todo o mundo, independentemente da religião praticada. Para os muçulmanos, o ano de 622, teoricamente o primeiro de sua era, foi substituído pela contagem à maneira ocidental.
Portanto, todos os nossos “quando?” são ligados à convenção da Igreja e ao cálculo — ainda que errado — de um monge medieval.

A Contagem dos anos na Era Cristã

Por volta de 50 a.C., a República Romana, conduzida por Júlio César, estava se transformando em Império. Dentre as várias inovações administrativas introduzidas por César, uma foi a criação de um novo calendário, em 45 a.C., que ficou conhecido como calendário juliano.
Até esse ano, Roma adotava o ano de 360 dias, com 12 meses de trinta dias. [...] essa contagem apresentava um erro de cinco dias por ano; para corrigir esse erro, os romanos introduziam, de acordo com a necessidade, um mês extra no fim do ano. [...]
Aconselhado por astrônomos, Júlio César abandonou o mês de trinta dias, que ainda era um resquício do ciclo da Lua, e criou um novo calendário, totalmente baseado no Sol [...], no qual os anos tinham 365 dias, exceto um ano em cada quatro, que 366 dias. [...]
Se o ano de 365 dias fosse dividido em 12 meses iguais, cada mês teria 30,4 dias. Para evitar esse problema, Júlio César estabeleceu que os meses teriam alternadamente 31 e 30 dias, começando com 31.
Dessa forma, somando-se os 11 primeiros meses, chegava-se a 336 dias, restando 29 dias para completar o ano de 365 dias. Ficou então estabelecido que o último mês do ano teria 29 dias e, nos anos bissextos, 30 dias.
O sistema criado por Júlio César era fácil de utilizar e de memorizar: começava com um mês de 31 dias, depois vinha um de 30, um de 31, e assim alternadamente, até que o último tinha duração variável.
Infelizmente, alguns anos depois, essa solução foi estragada por interesses políticos. O problema surgiu com a prática de homenagear deuses e imperadores dando seus nomes aos meses do ano. O primeiro mês recebeu o nome do deus Marte (surgindo o mês de março), o quarto mês recebeu o nome da deusa Juno, e assim por diante. Ao próprio Júlio César coube o quinto mês, que até hoje se chama julho. Com a morte de Júlio César, assumiu o poder o imperador Augusto, que foi homenageado com o mês seguinte (agosto).
No entanto, algum bajulador notou que o mês de Júlio César tinha 31 dias, enquanto o mês de Augusto tinha somente 30. Fez-se, então, uma alteração no calendário: o mês de agosto ganhou um dia, roubado de fevereiro, que passou a ter 28 e 29 dias.
Isso trouxe um problema: uma sucessão de três meses de 31 dias - julho, agosto e setembro. Para evitar isso, alteraram-se todos os meses, de setembro a dezembro. [...]
Como os cônsules, eleitos com o mandato de um ano, tomavam posse em 1º de janeiro, essa data passou a marcar o início do ano, prática que se estende até hoje.

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