10 de agosto de 2016

As Tábuas

Anne-Louis
Sonhei que me encontrava num deserto e que enfarado de mim mesmo
começava a bater numa mulher.
Era um frio dos demônios; era necessário fazer algo,
fazer fogo, fazer um pouco de exercício;
porém, doía-me a cabeça, sentia-me fatigado,
só queria dormir, queria morrer.
Minha roupa estava empapada de sangue
e entre os meus dedos viam-se alguns cabelos
– os cabelos de minha pobre mãe –.
“Por que maltratas a tua mãe” me perguntava uma pedra,
uma pedra coberta de pó, “por que me maltratas”.
Eu não sabia de onde vinham estas vozes que me faziam estremecer;
olhava as unhas e as mordia,
tratava de pensar infrutuosamente em algo
porém só via em torno de mim um deserto
e via a imagem desse ídolo
meu deus que me olhava fazendo estas coisas.
Apareceram então uns pássaros
e ao mesmo tempo na escuridão descobri algumas rochas.
Num supremo esforço ousei distinguir as tábuas da lei:
“Nós somos as tábuas da lei”, diziam elas.
“Por que maltratas a tua mãe”
“Vês esses pássaros que vieram pousar sobre nós”
“Aí estão eles para registrar teus crimes.”
Porém, eu bocejava, aborreciam-me estas admoestações.
“Espantem esses pássaros”, disse em voz alta.
“Não”, respondeu uma pedra,
“eles representam teus diferentes pecados.”
“Eles estão aqui para olhar-te.”
Então me voltei de novo para minha dama
e comecei-lhe a bater mais firme do que antes.
Para manter-me desperto havia que fazer algo,
estava na obrigação de agir
sob pena de cair adormecido entre aquelas rochas,
aqueles pássaros.
Arranquei então uma caixa de fósforos de um dos meus bolsos
e decidi queimar o busto do deus;
tinha um frio espantoso, necessitava aquecer-me,
porém este fogo só durou alguns segundos.
Desesperado busquei de novo as tábuas
mas elas haviam desaparecido:
as rochas tampouco estavam ali.
Minha mãe me abandonara.
Toquei a minha fronte; porém não:
já não podia mais.

Nicanor Parra
Tradução: Carlos Nejar e Vinicius de Moraes.

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