7 de agosto de 2016

A Primavera

Nicholas Hilliard
Se sois, horas, da mesma natureza
Do tempo vão que passa e não se sente,
Como só no meu mal tendes firmeza
E tomais natureza diferente?
Como assim não fugis desta tristeza
E desta vida em tudo descontente,
Se mais leves fugis que o leve vento,
Horas breves do meu contentamento?

Quanto para saber-vos me faltava
Naquele breve espaço que vos vi!
Como do tempo então me descuidava,
Cuidei que todo fosse sempre assim.
Quanto fugia o bem e o mal durava
Pareceu-me depois que vos perdi.
Porque amor a meu mal tudo encaminha,
Nunca me pareceu quando vos tinha.

Ai duros, rigorosos desenganos,
A que tempo cortais minha esperança!
Saber que em tanta pena, em tantos danos
O mal só dura, o bem nunca descansa!
Horas que para o mal durais mil anos
E em meu gosto fazeis logo mudança,
Quão mal imaginara esta alma minha
Que vos visse mudada tão asinha!

Tudo em vós se trocou, tudo é mudado,
A vida, o gosto e o desejo dela,
O rosto , o parecer, o trajo, o gado,
E também se mudou a minha estrela.
Mudar-se tudo, enfim, me era forçado,
Que juízo não vale, força ou cautela
Pera sustentar sempre um sofrimento
Em tão compridos anos de tormento.

Francisco Rodrigues Lobo (1580-1621)

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