10 de julho de 2016

Incerto

Emile Bernard
Choro, choro por mim! Uma saudade
E um longo adeus abraçam-se comigo;
Triste espectro da Ausência, eu não consigo
Volver à minha torva humanidade!

Creio ser luz no sonho que me invade:
Acordo em sombras e, entre sombras, sigo…
Oh duro, crudelíssimo castigo
De quem busca nos sonhos a verdade!

Em certa hora triste, a Noite veio,
E, doida, me levou; ainda sinto
O seu beijo de treva e o meu enleio!

Desfeito em sombra, evoco o sol extinto:
Mas — ai de mim! — escuridões tateio,
Perdido no meu próprio labirinto!

Mário Beirão (1892-1965)

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