7 de julho de 2016

Amores que marcaram a História

Amores que marcaram a História.
“Pequena alma, terna e flutuante,
Hóspede e companheira de meu corpo,
Vais descer aos lugares
Pálidos, duros, nus,
Onde terás de renunciar aos jogos de outrora...”

P. Élio Adriano, Imp. (N. da T.)
Ordem
Casal
1
Imperador Adriano e Antínoo
A história de Adriano e Antínoo é repleta de mistérios e lendas que reforçaram a sua presença na memória do Ocidente e foi apropriada como importante referência histórica do imaginário de comunidades homossexuais. Isto porque este conto é um dos poucos que valoriza o amor incondicional entre dois homens, os quais se entregaram de corpo e alma numa relação, sem jamais esconderem suas orientações sexuais.
Públio Élio Adriano nasceu em Itálica, cidade bética, perto da atual Sevilha, a 24 de Janeiro do ano 76 da nossa era. Era patrício do futuro imperador Trajano, ainda parente do seu pai. Desde criança que se afeiçoou à cultura e à arte helênicas e, por isso, os seus companheiros de então apelidavam-no de o Grego.
O seu reinado caracterizou-se pela consolidação das fronteiras, pela organização das províncias e pelo incentivo dos serviços e das obras públicas, pela promoção das artes e da agricultura e pela compilação do Edito perpetuo, primeiro esboço do que seria o célebre direito romano. Entre as suas obras mais notáveis contam-se o mausoléu (núcleo do atual castelo de Sant’Angelo, em frente ao Vaticano), o templo de Vênus e o de Júpiter, no local que o templo de Salomão ocupara, em Jerusalém, que reconstruiu com o nome de Aelia Capitolina. O seu enorme gosto pela cultura clássica refletiu-se no seu empreendimento pela educação, pelas artes, pela filosofia e pela literatura. Apesar dos comentários dos seus adversários, nunca escondeu o seu escasso interesse pelas mulheres, o que o prejudicou politicamente, nem as suas preferências homossexuais, que o levaram a uma trágica experiência nos últimos anos da sua vida.
No ano 123, Adriano tinha quarenta e sete anos e tinha deixado crescer uma barba espessa e curta, que mudou a moda do rosto barbeado estabelecida por Júlio César entre os Romanos.
Nesse ano realizava uma viagem pelas províncias da Ásia Menor e, na cidade de Claudinópolis, conheceu um belo jovem grego chamado Antínoo. O imperador apaixonou-se perdidamente por aquele jovem que, nessa altura, teria entre doze e treze anos. Pouco se sabe da origem da família de Antínoo, exceto que tinha nascido na Bitínia (que, ao que parece, produzia os mais belos jovens da Antiguidade) e que desempenhava as funções de pajem na corte de Nicomedia. As crônicas também registram que, em 125, o imperador o levou consigo na sua viagem de regresso a Roma.
Adriano permaneceu em Roma durante os três anos seguintes, estada pouco usual, talvez provocada pelo ingresso do seu efebo na escola imperial. A sua única saída da cidade foi uma visita às Ilhas Britânicas, onde, em 127, erigiu uma muralha de 117 quilômetros, de costa a costa, para conter os aguerridos Caledônios da Escócia. Dada a pouca idade de Antínoo, é provável que a relação sexual entre ambos se tenha concretizado no ano 128, quando o jovem atingiu os dezessete anos e o imperador o levou consigo numa longa viagem pela Grécia, Ásia Menor e Norte da África. Diz-se que, ao chegar ao Egito, no ano 130, Adriano visitou uma adivinha que lhe vaticinou a morte. Como homem racional e letrado que era, desdenhou do mau augúrio; porém, Antínoo ficou deprimido e inquieto, angustiado pela nefasta profecia.
Na época, existia no mundo romano a crença de que o cumprimento de uma profecia de morte só podia ser evitada se outra pessoa, por amor à vítima, se imolasse em seu lugar. E foi isso precisamente o que decidiu fazer o efebo enamorado: oferecer-se aos deuses para salvar o seu amado.
Adriano tinha-o brindado com o seu afeto e proteção, tinha-o educado e requintado e tinha-o ensinado a desfrutar com plenitude dos prazeres sexuais. Que mais poderia oferecer-lhe, senão a própria vida? Uma noite, pegou num dos barcos do séquito imperial e deixou-se arrastar pela corrente entre as trevas do Nilo. Não voltaria vivo à suas margens.
Alguns autores recusam esta versão romântica da morte de Antínoo. Há quem afirme que foi violado e assassinado por um bando de piratas fluviais, outros supõem que a sua inexperiência náutica levou a que a barca se virasse e que foi engolido pelas águas. Mas a verdade é que o suicídio por amor é o único motivo que oferece certos indícios colaterais, como o desânimo do jovem nos dias anteriores ou o sentimento de culpa de Adriano, que o levou a divinizar Antínoo, fundando uma cidade em sua honra e homenageando-o em templos, monumentos e moedas com a sua efígie e o seu nome. Dois séculos mais tarde, Atanásio, patriarca de Alexandria, condenaria essas suntuosas honras, demonstrando mais uma vez a intolerância eclesiástica.
Fonte: Paul Tournier (1898-1986),
in Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006.
2
Romeu e Julieta
Georges Barbier
Provavelmente a história de amor mais famosa de todos os tempos, a tragédia escrita pelo inglês William Shakespeare conta a história de jovens que se apaixonaram perdidamente, mas tiveram a infelicidade de fazer parte de dois clãs inimigos, os Capuletos e os Montéquios, na comuna italiana de Verona. Para não viverem separados, o casal preferiu a morte.
Em Verona, existe o muro do amor, onde teria morado Julieta. Lá, os apaixonados deixam cartas e bilhetes com declarações.
3
Shah Jahan e Mumtaz Mahal
Bruno Ehrs - Taj Mahal
Conta-se que Shah Jahan, imperador do Império Mongol, apaixonou-se por Mumtaz Mahal na primeira vez em que se encontraram. Casaram e tiveram 14 filhos. Ela, porém, morreu após o parto do último filho. Shah Jahan ficou absolutamente inconsolável e ordenou a construção de um mausoléu em forma de palácio, onde sua amada pudesse descansar eternamente. Estava criado o lendário Taj Mahal, que é considerada a maior prova de amor do mundo.
4
Raquel e Jacó
William Dyce - Raquel e Jacó
A Igreja Católica não fala sobre o amor entre casais até narrar a história de Raquel e Jacó. Jacó, apaixonado por Raquel, a filha mais nova de Labão, prometeu a este os seus serviços por sete anos. Labão aceitou a proposta e prometeu dar a Jacó a mão de sua filha após o tempo acordado. No entanto, depois de sete anos, Labão deu a mão de Lea, sua filha mais velha. Ao ser contestado, o pai avisou que a mais velha deveria se casar primeiro. Logo, Jacó trabalhou por mais sete anos e casou-se, enfim, com sua amada. Camões fez um poema em homenagem ao casal que possui um verso famoso: "Para tão longo amor tão curta a vida!"
5
Cleópatra e Marco Antônio
Sir Lawrence Alma-Tadema - Antony and Cleopatra
A romântica, violenta e trágica história de amor de Cleópatra e Marco Antônio sempre fascinou os apaixonados, e atrai visitantes ao Egito em busca de detalhes de sua trajetória: do início da fulminante paixão dos dois logo após o assassinato de César, amante de Cleópatra à interferência do ambicioso Otávio (que queria destronar Marco Antônio e acabar com o romance), até a fatídica morte de Cleópatra, ao deixar-se picar por uma cobra venenosa, seguido pelo suicídio de Marco Antônio. Histórias de amor do Império Romano estão repletas de tragédias, dor e completa adoração por deuses e seres humanos. Talvez o caso mais emblemático tenha sido de Marco Antônio com Cleópatra, paixão assumida logo após o assassinato do general Júlio César.
Marco Antônio estava casado com Fúlvia até que, em Tarso, Cleópatra resolveu seguir ao seu encontro, junto com suas características sedutores principais: charme, arrogância e inteligência. Ela foi até o navio dele, que estava se preparando para uma recepção de quatro dias. Foi o bastante ao representante romano apaixonar-se pela rainha do Egito.
6
Mata Hari e Vadim Maslov
Ela era uma dançarina de cabaré holandesa (cujo verdadeiro nome era Margaretha Geertruida Zelle) e ele um oficial do exército russo, e encontraram-se pela primeira vez em Paris, em 1916. Durante a 1ª Guerra Mundial, Mata Hari deu início a seu trabalho de espionagem para os alemães. Quando ela se apaixona pelo jovem e belo Vadim Maslov, decide mudar de lado e oferecer seus serviços para os franceses. Ela acabou acusada pelo Serviço Secreto Francês de fornecer informações cruciais para os alemães, e foi presa, julgada e executada. O Fries Museum, em Leeuwarden (a uma hora e meia ao norte de Amsterdam), cidade natal de Mata Hari, conta com uma sala dedicada a ela, incluindo seus cadernos de anotações e outros objetos pessoais.
7
Victor Hugo e Juliette Drouet
Charles Voillemot - Portrait of Juliette Drouet
Victor Hugo é, depois de Shakespeare, o autor ocidental que gerou mais estudos literários, análises filológicas, edições críticas, biografias, traduções e adaptações de suas obras nos cinco continentes. O grande amor de Victor Hugo foi a atriz francesa Juliette Drouet, que ele conheceu quando tinha 30 anos. O mais famoso escritor francês do século XIX era casado havia dez anos com uma amiga de infância e já tinha quatro filhos quando começou seu romance com Juliette. O idílio durou até que ela morresse, cinquenta anos mais tarde, pouco antes do escritor.
Durante este período, Juliette foi uma esposa paralela dedicadíssima e apaixonada, que em cartas diárias demonstrava sua devoção ao “adorado” Hugo.
Tratando-se por “Juju” e “Toto”, levaram adiante cinco décadas de paixão com pleno conhecimento da mulher de Hugo, Adèle, que morreu em 1868 (quando o affaire de Juju e Toto já vingava havia mais de trinta anos). Em 1835, um emocionado Hugo escreveu à amada sobre seu amor incipiente: “Em 26 de fevereiro de 1802, nasci para a vida. Em 17 de fevereiro de 1833, nasci para a felicidade, nos teus braços. A primeira data é apenas a vida, a segunda é o amor. Amar é mais que viver”.
Foram pelo menos 10 mil as cartas que Juliette mandou mais que diariamente a Victor. Quase toda a correspondência dele para ela se perdeu, mas centenas de cartas da atriz para Toto sobreviveram e foram publicadas após a morte dos dois, tornando famosa a longa correspondência.
O ardor de Juliette nunca arrefeceu e as cartas são entremeadas de declarações intensas – às vezes até mesmo de desenhos que representam o casal. O bilhete reproduzido nesta página se destaca pelo apelo visual, pois aqui Juju escolheu gritar seu amor em letras garrafais.
Após ter datado a carta em sua caligrafia habitual – Guernsey, 25 de agosto de 1857 – terça-feira – 1h30 da tarde –, Juliette prossegue: “Eu te amo, meu querido pequeno homem, de um jeito ainda mais forte, ainda maior, maior no comprimento e maior no tamanho, até mesmo desta letra. Juju.”
Na época, Victor Hugo vivia um autoexílio na ilha de Guernsey, na costa da Inglaterra, e Juliette mantinha uma casa próxima à do casal.
Conservada numa coleção privada francesa por mais de um século, esta mensagem notável só veio à tona há dois anos, por ocasião de um leilão em Paris. Numa correspondência diária de mais de cinquenta anos, naquele dia Juliette encontrou uma maneira nova de expressar o amor quase alucinado que por tanto tempo dedicou a seu “pequeno grande homem”.
8
Salvador Dalí e Gala Éluard Dalí
Salvador Dalí bradava aos quatro ventos que sua paixão por Helena Diakomonova, ou apenas Gala, tinha acontecido dessa forma. O encontro aconteceu no verão de 1929, quando Gala e seu então marido, o poeta francês Paul Éluard, foram visitar o pintor espanhol. Dalí narrou o início desse amor: "No dia seguinte, eu fui buscar Gala e nós fomos passear nos rochedos de Cayals (...). 'Meu menino', disse ela, 'nós não nos separaremos mais'. Ela seria minha Gradiva, minha Vitória, minha mulher". A partir desse momento, Gala passou a fazer parte não apenas da vida de Dalí, como também de suas obras, servindo de modelo para as mais diversas personagens retratadas em suas pinturas. O pintor afirmava, ainda, que já conhecia a amada antes de serem apresentados, pois, segundo ele, as costas de Gala eram idênticas às de seus desenhos e pinturas anteriores ao encontro.
A morte de Gala, em 1982, tirou a vontade de viver do espanhol, que permaneceu recluso no Teatro-Museu Dalí, na cidade espanhola de Figueres, até falecer em 1989.
9
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir
Ambos foram umas das mentes mais brilhantes que já existiram. Com inúmeros livros e sabedorias que nos ensinam até hoje. Ela, sua companheira ao longo da vida, pioneira do feminismo. Ele, um mito filosófico, um verdadeiro gênio.
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir foram, talvez, o casal mais influente do século 20. Eles nunca se casaram, mas juraram devoção mútua um ao outro com total liberdade, uma tentativa de derrubar a hipocrisia sufocante que, por tanto tempo, tinha ditado a vida das pessoas. Sempre empurrando novas fronteiras, eles exploraram os seus pensamentos em romances, peças de teatro e obras filosóficas. Ele ganhou o maior prêmio literário do mundo, o Prêmio Nobel. No entanto, ele se recusou a aceitá-lo porque pensou que faria dele uma figura estabelecida e, portanto, silenciar sua mente inquiridora.
Suas vidas privadas eram totalmente experimentais. Simone de Beauvoir teve casos com homens e mulheres, enquanto Sartre, apesar de sua estatura atrofiada e vesgo, sempre foi cercado por musas adoradores, felizes por cuidar de seu gênio. Quando morreu, em 1980, mais de cinquenta mil pessoas saíram às ruas de Paris. Mas isso não foi o fim da história. Sua influência continua até hoje, nos livros e sabedoria duradoura.
Sartre, criador do existencialismo e Beavouir, primeira feminista, souberam usar suas brilhantes inteligências para viver um amor que parecia impossível. Para conseguir um equilíbrio amoroso, o casal estabeleceu publicamente as bases para o "casamento aberto".
Cada um podia ter suas múltiplas aventuras extraconjugais, mas permaneceram unidos até a morte de Sartre. Hoje isto pode até ser rotineiro, mas na época foi um escândalo. É um exemplo de como a cultura e a inteligência podem desmistificar a hipocrisia.

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