7 de junho de 2016

Ode anacreôntica VI

Sandro Botticelli
Já vem a primavera
Os prados matizando,
De verde murta e de hera
As selvas coroando;
E as aves entre as flores
Renovam docemente os seus amores.

Vénus em companhia
De mil ninfas formosas,
Pela selva sombria
Colhe lírios e rosas,
Com que longos cabelos
Destramente enastrando faz mais belos.

Os Risos, a Alegria,
Os Brincos a acompanham,
E sobre a fonte fria
Voando as asas banham;
Que logo sacudindo,
De branco orvalho a Deusa vão cobrindo.

Um deles ao parceiro
Dentro nas águas lança,
Que voando ligeiro
Dele a tomar vingança,
Este de astúcia cheio,
Da branca Deusa foge ao branco seio.

Mil em torno adejando
Das ninfas peregrinas,
Sobre elas vão lançando
Em chuvas as boninas,
E as faces um lhe toca,
E o mais descomedido a linda boca.

Amor alegre voa
Em repetidos giros;
Ferido o vento soa
Dos amorosos tiros;
Ardem em vivas fráguas
O bosque, o ar, as flores, Ninfas, águas.

Zéfiro suspirando
A linda Clóris chama,
Que travessa ocultando
Se vai por entre a rama,
Mas ao vê-lo impaciente
Entre seus braços corre velozmente.

Os Faunos namorados
As Mélias vão seguindo,
Que contra seus agrados
Brandas iras fingindo,
Se metem de ardilosas
Da selva pelas matas mais frondosas.

A doce liberdade
Do campo afasta ufana
A triste seriedade,
Dos prazeres tirana;
Que leva em companhia
A pesada e cruel melancolia.

O campo, pois, Oh Cloe,
Solícitos busquemos
Antes que o tempo voe,
Do tempo nos gozemos
Que uma parte da vida
Aos brincos, e aos amores é devida.

Dos álamos frondosos
À sombra reclinados,
Façamos venturosos
Nossos doces cuidados;
Antes que a idade breve
Nos roube os gostos, e o prazer nos leve.

António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799)

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