25 de junho de 2016

Em Paz

Baron Arild Rosenkrantz
Já bem perto do ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança mentida,
nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo, ao final de tão rude jornada,
que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;
que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas,
foi porque as adocei ou as fiz amargosas:
quando eu plantei roseiras, eu colhi sempre rosas.

...Decerto, aos meus ardores, vai suceder o inverno:
Mas tu não me disseste que maio fosse eterno!
Longas achei, confesso, minhas noites de penas;
Mas não me prometeste noites boas, apenas,
E em troca tive algumas santamente serenas…

Fui amado, afagou-me o Sol. Para quê mais?
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!

Amado Nervo (1870–1919)
Tradução: Aurélio Buarque de Holanda

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