15 de maio de 2016

Trinta e Três nomes de Deus

Tentativa de um diário sem datas e pronomes pessoais.
Louis-Jean-François Lagrenée
1
Mar pela manhã

2
Murmúrio da
nascente nas
rochas
sobre os muros de pedra

3
Vento de mar
a noite,
sobre uma ilha

4
Abelha

5
Voo triangular
dos cisnes

6
Cordeiro recém-nascido
formoso ariete
ovelha

7
O terno focinho
da vaca
o focinho selvagem
do touro

8
O focinho
paciente do
boi

9
O rubro fogo
na lareira

10
O camelo
coxo
que atravessa a
grande cidade atravancada
a caminho da morte

11
A erva
O odor da erva

12
‘ ‘’’ ‘‘’’’

13
A boa terra
A areia
e a cinza

14
A garça real que
esperou toda a
noite, quase gelada,
e pela aurora encontra
com que aplacar sua
fome

15
O pequeno peixe
que agoniza
nas goelas da
garça real

16 A mão,
que entra em
contato
com as coisas

17
A pele —
toda a superfície
do corpo

18
O olhar
e o que ele vê

19
As nove portas
da
percepção

20
O torso
humano

21
O som de uma
viola ou de uma
flauta indígena

22
Um trago
de bebida
fresca ou
cálida

23
O pão

24
As flores
que despontam
da terra
na primavera

25
Sono
em um leito

26
Um cego
que canta
e uma criança
enferma

27
Cavalo que
corre
em liberdade

28
A mulher —
os — cães

29
Os camelos
que se banham
com seus filhotes
no difícil oued

30
Sol nascente
sobre um lago
ainda meio
gelado

31
O relâmpago
silencioso
O trovão
fragoso

32
O silêncio
entre dois amigos

33
A voz que vem
de levante,
entra pelo ouvido
direito
e ensina um canto.

Marguerite Yourcenar (1903-1987)
Tradução: Mario Rui de Oliveira

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