14 de maio de 2016

Onde jamais viajei

Dorina Costras
Onde jamais viajei, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o silêncio deles;
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram
ou que não posso por perto demais tocar...

o teu mais leve olhar facilmente me descerra
embora como os dedos eu me tenha cerrado,
sempre me abres pétala por pétala como a primavera
abre (tocando-a jeitosa, misteriosamente) sua primeira rosa

ou, se te aprouvesse encerrar-me, eu
e minha vida nos fecharíamos em beleza, subitamente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente por todo lado a tombar;

nada do que nos é dado a perceber neste mundo se iguala
ao poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
me compele com a cor das suas pátrias,
que me cedem a morte e o sem fim a cada alento

(não sei o que vai em ti que se fecha
e se entreabre; apenas alguma coisa em mim entende
que a voz dos teus olhos é mais funda que as rosas todas)
e ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas

E.E.Cummings(1894-1962)
Tradução: Paulo Mendes Campos

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