3 de maio de 2016

O Divino

François Boucher
Nobre seja o homem,
Caridoso e bom!
Pois isso apenas
É que o distingue
De todos os seres
Que conhecemos.

Glória aos incógnitos
Mais altos seres
Que pressentimos!
Que o homem se lhe iguale!
Seu exemplo nos ensine
A crer neles!
Pois insensível
É a natureza:
O sol espalha luz
Sobre maus e bons,
E ao criminoso
Brilham como ao santo
A luz e as estrelas.

Vento e torrentes,
Trovão e saraiva
Rugem seu caminho
E agarram,
Velozes passando,
Um após outro.

Tal a sorte às cegas
Lança mãos à turba
E agarra os cabelos
Do menino inocente
Ou a fronte calva
Do velho culpado.

Por eternas leis,
Grandes e de bronze,
Temos todos nós
De fechar os círculos
Da nossa existência.

Mas somente o homem
Pode o impossível:
Só ele distingue,
Escolhe e julga;
E pode ao instante
Dar duração.

Só ele é que pode
Premiar o bom,
Castigar o mau,
Curar e salvar,
Unir com proveito
Tudo o que erra e divaga.

E nós veneramos
Os Imortais
Como se homens fossem,
Em grande fizessem
O que em pequeno o melhor de nós
Faz ou deseja.

Que o homem nobre Seja caridoso e bom! Incansável crie
O útil, o justo,
E nos seja exemplo
Dos seres pressentidos.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Paulo Quintela

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