13 de maio de 2016

Canção de Ariel

Johann Heinrich Füssli: Ariel
Em nuvem leve, ainda mais leve
Que o fugitivo floco
De espuma ou neve,
Passa Ariel a cantar: – “Gênios, eu vos invoco!
Vinde do bosque ou das colinas,
Com festões ou grinaldas
De alvas boninas;
Deixai do alpestre monte as verdejantes fadas
E as vertentes silenciosas!
Os vossos instrumentos,
– Almas maviosas,
Liras e harpas trazei, gênios que errais aos ventos!

A ilha ideal que se recame
Toda de rosas! Eia,
Pistilo e estame
Deixai, abelhas de ouro, e de canções enchei-a!
Vinde, libélulas de prata,
Que ides banhar-vos lestas
Lá na cascata,
E sais a bailar por campos e florestas!
Vinde, vós todos, e cercai-a,
A bela, que a cabeça
Pende e desmaia;
Vinde! é a voz afinar e uma canção depressa!

Vinde! e do sono entre os vapores,
Como pela espessura
A alma das flores,
Divague a alma gentil que esta solidão procura.
Vinde! Porém, que vos não veja
Aquele gênio alado
Que leve adeja
E às vezes passa aqui com a aljava de ouro ao lado!
Que vos não veja e vos não siga
Ele, que á fina e clara
Mão inimiga
O arco tem sempre e é morte a flecha que dispara.

Guardai-a bem, ficai-me a postos,
Gênios! E arda a alegria
Nos vossos rostos,
E um bailado dançai, antes que rompa o dia!”
Emma, assim, no ar ouvindo
Este canto, adormece,
Entressorrindo
E sonhando, à manhã que pálida aparece;
Assim, a lira de ouro e neve
Presa do leve braço,
Em nuvem leve
Passa Ariel a cantar, embalado no espaço.

Alberto de Oliveira (1857-1937)

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