20 de abril de 2016

Sede de Beleza

Alexandros de Antioquia - Vênus de Milo
Só, estou só: vem o verso amigo,
Como o esposo diligente ele acode
Ao reclamo da eriçada rola.
Tal como as neves desatadas que,
Em degelo, baixam em copiosos fios
Dos altos montes por selvas e vales –
Assim, também, por minhas oprimidas
Entranhas, um amor balsâmico e uma
Avidez celeste se derramam de formosura.
As estrelas – esposas do silêncio! –
Por igual, desde o vasto azul, vertem
Sobre a terra a sua luz benigna, como
Se perfumassem de uma alma virgem
A sombria e sangrenta humanidade,
E tal vago aroma das flores se levanta.

Dá-me o sublime e o perfeito! Dá-me
Um desenho de Ângelo; uma espada
Com punho de Cellini, mais formosa
Que os tetos de marfim ornado com
Que se apraz em lavrar a Natureza.
Dá-me o crânio augusto no qual arderam
O universo de Hamlet e a fúria
Tempestuosa do moro; a índia
Cortesã que às margens do ameno rio
Que banha os muros do velho Chichén
Enxugava o esbelto corpo lustroso e limpo
Assim como os seus próprios cabelos
À sombra de um plátano pomposo.
Dá-me meu céu azul..., dá-me a pura,
A inefável, a plácida, a eterna alma
De mármore que a famosa Milo deu
Ao soberbo Louvre, como sua nata e flor.

José Martí (1853-1895)
Eluciário:
Balsâmico: aromático, como o bálsamo;
Ângelo: Fra Angelico, pintor italiano (1400-1455);
Hamlet: protagonista de um dos principais dramas de Shakespeare;
Moro: alusão a Otelo, personagem da peça homônima de Shakespeare;
Chichén: antiga cidade maia localizada na Península de Yucatán;
Louvre: referência ao renomado museu francês;
Milo: a Vênus de Milo, famosa escultura grega.

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