2 de abril de 2016

Monólogo de Alzira

Félix Edouard Vallotton
Meu morto amante, enfim, pude ser falsa
À fé, que te jurei...- Não tem remédio,
E a Gusmão para sempre estou sujeita!
Esse mar, que entre os nossos hemisférios
Se levanta, separação baldada
Enfim para nós foi!...Sou sua!...os votos
Ouviu o templo enfim, e estão escritos
Já lá no céu os nossos juramentos.

Oh tu(que não me deixas) oh querida
Ensanguentada sombra, oh!-Sombra sempre
Presente a meus sentidos lastimados!
Caro amante, se podem minhas lágrimas,
A perturbação minha, os meus remorsos
Penetrar teu sepulcro, e à morada
Chegar dos mortos! - Se há um Deus, que possa
Fazer viver, depois de feito em cinza
Aquele espírito heroico, aquele terno
Coração, tão fiel, e tão mavioso;
Aquela alma, que até o derradeiro
Suspiro me quis bem - este consórcio
Me perdoa em que enfim consentir pude.

Sacrificar-me era forçoso às ordens

De um pai, que tenho, e ao bem de meus vassalos,
Cuja mãe sou; - a tantos desgraçados,
Ao pranto dos vencidos, ao sossego
De um mundo, onde (ai de mim!) já tu não vives.
Amor! - deixa que esta alma, que rasgar-se
Esta sentindo, siga em paz o horrível
Dever, ao qual os céus me condenaram!
Vê a necessidade; que estes laços
Cruéis permitem,- assas me tem custado.

Voltaire (1694-1778)

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