5 de abril de 2016

Meninos de Rua

Bartolomé Esteban Murillo
Negros na neve e na penumbra,
Junto ao respiro que os alumbra,
De joelhos, são

Cinco meninos – Cristo! – ao ar,
Vendo o Padeiro preparar
O louro pão.

Um braço forte e branco esconde
A massa num buraco donde
Vem um clarão.

O Padeiro é calmo e preciso;
Tem nos lábios gordo sorriso,
Velha canção.

Agachados, já a noite em meio,
Ao sopro quente como um seio
Ou um coração

Que vem do forno se elevando,
Ei-los, imóveis, escutando
Cozer o pão.

E quando, enfim, noite alta e feia,
Para alguma tardia ceia
Tira-se o pão,

E sob as traves enfumadas
Cantam as côdeas perfumadas
Tenra canção,

Nesse quente sopro de vida
A sua alminha embevecida
Sente-se alçar

Dentre os farrapos, leve, leve,
Pobres Jesus cheios de neve;
E a suspirar,

Colando os míseros rostinhos
À grade, entre finos gritinhos,
Por contemplar

O céu que do fundo os aquece,
Debruçam-se sobre ele em prece,
Com tanto ansiar

Que rasgam das calças o zuarte,
E as camisas, como estandarte,
Se estiram no ar.

Arthur Rimbaud (1854-1891)
Tradução: - Anderson Braga Horta

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