22 de abril de 2016

Bosque de Música

Edward Hornel: Música do Bosque
Meu ser flui em tua música, bosque adormecido no tempo,
rendido à nostalgia dos lagos do céu.
Como esquecer que sou oculta melodia
e tua adusta penumbra, voz dos mistérios?
Tenho interrogado os ares que beijam a sombra,
tenho ouvido no silêncio tristes fontes perdidas,
e tudo eleva meus sonhos a músicas celestes.
Vou com as prímulas que te visitam de noite,
que dão vida às flores em tuas sombras azuis
e me revelam o vago sofrer de teus segredos.
Teu letargo de pirilampo é lenta astronomia
que gira em meu sussurro de folhagem no vento
e dá asas aos suspiros das almas que escondes.
Morreu aqui o caçador, ao pé das orquídeas,
o caçador nostálgico por tua magia embriagado?
Oh, bosque! tu que sabes viver de solidões,
para onde vai na noite o profundo suspirar?
O sopro da morte enluta tuas ramagens
e no pranto do mundo as lâmpadas se apagam.
Mas tua paz é vigília. Redimes a vida
extasiada nos cantos, em claros mananciais.
Em tua vigília aprendo a ver o infinito,
em tuas horas ascendo ao âmbito de Deus.
Este vale tranquilo, nas idades amado,
que em sua tristeza ouve o ar de tuas harpas,
fornece seus lírios ao céu em mística esperança.
O céu e mim é angústia e eu, rumor do céu,
como és tu, na noite, sombra de sinfonias,
como és, até a alvorada, eco suave de luz.

Vicente Gerbasi (1913-1992)
Tradução: J. A. Rodrigues

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