29 de março de 2016

O Vate

John Martin - Bardo
Vate! Vate! que és tu? – Nos seus extremos
Fadou-te Deus um coração de amores,
Fadou-te uma alma acesa borbulhando
Ardidos pensamentos, como a lava
Que o gigante Vesúvio arroja às nuvens.

Vate! Vate! que és tu? – Foste ao princípio
Sacerdote e profeta;
Eram nos céus teus cantos uma prece,
Na terra um vaticínio.
E ele cantava então: – Jeová me disse,
Majestoso e terrível.

“Vês tu Jerusalém como orgulhosa
Campeã entre as nações, como no Líbano
Um cedro a cuja sombra a hissope cresce?
Breve a minha ira transformada em raios
Sobre ela cairá;
Um fero vencedor dentro em seus muros
Tributária a fará;
E quando escravo seus filhos, sobre pedra
Pedra não ficará.”

E os réprobos de saco se vestiam;
Em pó, em cinza envoltos;
E colando co’a terra os torpes lábios,
E açoitando co’as mãos o peito imbele,
Senhor! Senhor! – clamavam.

E o vate entanto o pálido semblante
Meditabundo sobre as mãos firmava,
Suplicando ao Senhor do interno d’alma.
Foram santos então. – Homero o mundo
Criou segunda vez, – o inferno o Dante, –
Milton o paraíso, – foram grandes!

E hoje!... em nosso exílio erramos tristes,
Mimosa esp’rança ao infeliz legando,
Maldizendo a soberba, o crime, os vícios;
E o infeliz se consola, e o grande treme.
Damos ao infante aqui do pão que temos,
E o manto além ao mísero raquítico;
Somos hoje Cristãos.

Gonçalves Dias (1823-1864)

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