18 de março de 2016

O Fogo e a Poesia (excerto)

Stefania Silk
Na água fervente o sol reflete a mão do zênite
I
Amo o amor
A terça e não a quarta-feira
Amo o amor dos estados desunidos
O amor de uns duzentos e cinquenta anos
Sob a influência nociva do judaísmo sobre a vida monástica
Das aves de açúcar de feno de gelo de alume ou de bolso
Amo o amor de face sangrenta com duas imensas portas ao vazio
O amor como apareceu em duzentos e cinquenta
entregas durante cinco anos
O amor de economia arruinada
Como o país mais expansionista
Sobre milhares de seres desnudos tratados como bestas
Para adotar essas simples armas de amor
Onde o crime pernoita e bebe água clara
Do sangue mais quente do dia

II

Amo o amor de ramagem densa
selvagem como uma medusa
o amor-hecatombe
esfera diurna em que a primavera total
se balança derramando sangue
o amor de anéis de chuva
de rochas transparentes
de montanhas que voam e se esfumam
e se convertem em minúsculos seixos
o amor como uma punhalada
como um naufrágio
a perda total a fala do alento
o reino da sombra espessa
com os olhos salientes e assassinos
a saliva compridíssima
a raiva de perder-te
o frenético despertar no meio da noite
sob a tempestade que nos desnuda
e o raio distante transformando as árvores
em lenhos de cabelos que pronunciam teu nome
os dias e as horas de nudez eterna.

César Moro (1903-1956)

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