3 de março de 2016

Noite Escura

Giotto di Bondone
Canções da alma que rejubila
por ter chegado ao alto estado da perfeição,
que é a união com Deus,
pelo caminho da negação espiritual

Em uma noite escura,
com ânsias, em amores inflamada,
oh ditosa ventura!,
saí sem ser notada,
estando minha casa sossegada.

Às escuras, segura,
pela secreta escada, disfarçada,
oh ditosa ventura!,
às escuras e emboscada,
estando minha casa sossegada.

Nessa noite ditosa,
secretamente, que ninguém me via,
de nada curiosa,
sem outra luz nem guia
senão a que no coração me ardia.

Só esta me guiava
mais segura que a luz do meio-dia,
aonde me esperava
quem eu já bem sabia,
em parte onde ninguém aparecia.

Oh noite, que guiaste!
Oh noite, amável mais que a alvorada!
Oh noite que juntaste
Amado com amada,
amada em seu Amado transformada!
Em meu peito florido,
que inteiro só para ele se guardava,
ficou adormecido,
e eu o afagava, e o leque de cedros brisa dava.

A viração da ameia,
enquanto eu seus cabelos espargia,
com sua mão que enleia
o meu colo feria,
e meus sentidos todos suspendia.

Fiquei e olvidei-me,
O rosto reclinei sobre o Amado;
cessou tudo, e deixei-me,
deixando o meu cuidado
por entre as açucenas olvidado.

São João da Cruz (1542-1591)

Nenhum comentário: