7 de março de 2016

Negritude

Karen Dupré
Aqueles que não inventaram a pólvora nem a bússola;
Aqueles que nunca souberam domar o vapor nem a eletricidade.
Aqueles que não exploraram nem os mares nem o céu.
Porém aqueles sem os quais a terra não seria terra.

Minha negritude não é uma pedra, sua surdez se arremete como o clamor do dia.
Minha negritude não é uma mancha d’água estancada sobre o olho morto da terra.
Celeiro onde se conserva e amadurece o que a terra mais tem de terra.
Minha negritude não é nem uma torre nem uma catedral.
Ela se crava na carne rubra do solo.
Ela se crava na carne ardente do céu.
Ela perfura a prostração opaca de sua paciência tensa.

Posto que para encerrar-me nesta única raça,
sabes, contudo, meu amor tirânico,
sabes que não é por ódio às outras raças
que me faço lutador desta raça única,
pois o que quero
é pela fome universal
pela sede universal.
Obrigá-la, livre afinal,
a produzir do interior de sua intimidade
a suculência dos frutos.

Aimé Césaire (1913-2008)

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