14 de março de 2016

À poesia

Georgios Roilos – Os Poetas
Vens menos cada vez,
foges de mim,
ou é que estamos entrando em teu silêncio
– o pedregal, a luz –
e já temos pouco que dizer-nos?
Porém esse pouco,
nunca o diremos?
Porém esse pouco, o que é?
Será o alimento dos anjos,
o que lhe falta ao sol,
a morte?
Não digas nada tu. Cada palavra
de tua boca é demasiado bela.
Não posso resisti-la já,
ainda que todo meu ser queira comê-la,
e dessa fome vivo ainda. Diz o
nada que estou acostumado a ver
no pálido fulgor da seca,
na brasa do desejo, ali
onde o amargo mar que adoro começa.
Diz tua mescla com tudo, em que tenho gozado.
A memória
guarda trens inteiros, incendiados,
silvando pelo escuro. Não me servem.
Manhã de ontem, mais se me parece
uma vela ao meio-dia: nela escrevo
letras para o aniversário
de minha expulsão do texto que agora contemplo,
incompreensível. Tu eras minha mãe, então?
Tu, que agora vens, como a alvorada,
cheia de lágrimas? Oh, matéria,
templo! Haver nascido é não poder entrar em ti.
Deixa-me ver-te pelo lado da história,
que busca também um paraíso,
pois teu nome é justiça, noite
daquele menino.
O que está a ocorrer agora que os músicos
acabaram de tocar aquela terrível dança cubana?
Minha vida volta a ser o areal de osso
de onde sai do livro, desditosamente, fechado. E tu,
serás minha filha?
E tu, serás minha pátria que não terminarei de ver?
Dirás o que disseste naquela noite,
quando a granja começava a ser o paraíso
entrando no futuro dos laranjais,
sob o riso das estrelas?
O pouco, é já o tesouro?
O pouco que nos falta, é já o imenso?
Quanto tempo do teu ventre expulso
apenas pesa como uma ave no silêncio.
Dá-me tua mão. Ajuda-me a chegar.

Cintio Vitier (1921-2009)

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