31 de março de 2016

Soneto de Intimidade

Edward John Poynter
Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

Vinícius de Moraes (1913-1980)

Canção

Edmund Blair Leighton
Você é como ouro
como um grão meio maduro
que se funde ao ouro novamente,
tão nívea quanto a branca chuva
a agitar intensamente
as flores entreabertas
dos grandes tufos de flores
adensados nas copas negras
de um ramo de macieira ilíria.

Pode o mel destilar tal fragrância
tanto quanto o seu brilhante cabelo –
pois sua face é tão bela quanto a chuva,
porém como a chuva que irrompe livre
sobre o favo de mel branco,
ela empresta brilho à alva cera,
para que o cabelo em sua testa
lance luz a uma sombra.

H.D. − Hilda Doolittle (1886-1961)
Tradução: J. A. Rodrigues

30 de março de 2016

Poema

Jan Mostaert
Tu és o Vivente
sem que momento algum te determine
sem um tempo
sem um sopro ou uma alma
pois Tu és a alma da alma
Tua vida
não se compara à de um homem
tão semelhante ao nada

Quem souber teu segredo
gozará eternas delícias.

Salomão Ibn Gabirol (1021-1058)
Tradução: José Tolentino Mendonça

Fogos

Frederick William Burton
Recordamo-nos dos nossos sonhos:
não nos recordamos dos nossos sonos.

Apenas duas vezes penetrei nesses fundos
atravessados por correntes
onde os nossos sonhos
não são mais do que embarcações
de realidades submersas.

No outro dia,
bêbado de felicidade
como se fica bêbado de ar
no final de uma longa corrida,
atirei-me para a cama,

como um nadador
que se atira de costas,
os braços cruzados:
mergulhei num mar azul.

Encostado ao abismo
como uma nadadora que nada com prancha,
sustentada pela boia de oxigênio
dos meus pulmões cheios de ar,
emergia desse mar grego
como uma ilha recém-nascida.

Esta noite,
bêbada de desgosto,
deixo-me cair sobre a cama
com os gestos de uma afogada
que se abandona:
cedo ao sono como à asfixia.

As correntes de recordações persistem
através do embrutecimento noturno,
levam-me para uma espécie de lago Asfáltico.

Não há forma
de mergulhar nessa água saturada de sais,
amarga como a secreção das pálpebras.

Flutuo como a múmia sobre o seu betume,
na apreensão de um acordar
que será no máximo uma sobrevivência.

O fluxo,
depois o refluxo do sono
fazem-me rebolar contra minha vontade
nessa praia de cambraia.

A cada momento,
os meus joelhos batem um no outro
à tua lembrança.

O frio acorda-me,
como se me tivesse deitado
ao lado de um morto.

Marguerite Yourcenar (1903-1987)
Tradução: Maria da Graça Morais Sarmento

29 de março de 2016

O Vate

John Martin - Bardo
Vate! Vate! que és tu? – Nos seus extremos
Fadou-te Deus um coração de amores,
Fadou-te uma alma acesa borbulhando
Ardidos pensamentos, como a lava
Que o gigante Vesúvio arroja às nuvens.

Vate! Vate! que és tu? – Foste ao princípio
Sacerdote e profeta;
Eram nos céus teus cantos uma prece,
Na terra um vaticínio.
E ele cantava então: – Jeová me disse,
Majestoso e terrível.

“Vês tu Jerusalém como orgulhosa
Campeã entre as nações, como no Líbano
Um cedro a cuja sombra a hissope cresce?
Breve a minha ira transformada em raios
Sobre ela cairá;
Um fero vencedor dentro em seus muros
Tributária a fará;
E quando escravo seus filhos, sobre pedra
Pedra não ficará.”

E os réprobos de saco se vestiam;
Em pó, em cinza envoltos;
E colando co’a terra os torpes lábios,
E açoitando co’as mãos o peito imbele,
Senhor! Senhor! – clamavam.

E o vate entanto o pálido semblante
Meditabundo sobre as mãos firmava,
Suplicando ao Senhor do interno d’alma.
Foram santos então. – Homero o mundo
Criou segunda vez, – o inferno o Dante, –
Milton o paraíso, – foram grandes!

E hoje!... em nosso exílio erramos tristes,
Mimosa esp’rança ao infeliz legando,
Maldizendo a soberba, o crime, os vícios;
E o infeliz se consola, e o grande treme.
Damos ao infante aqui do pão que temos,
E o manto além ao mísero raquítico;
Somos hoje Cristãos.

Gonçalves Dias (1823-1864)

O Belo se Transforma

Danielle Richard
Quem atravessa uma campina outonal, em toda parte,
Encontra as rendas da rainha Ana: – lírios
Sobre a água: magia e arte
Que ao caminhante fazem transformar
A relva seca em lago, como tua sombra mínima
Aplaina minha alma de azul luzerna.

O belo se transforma como a floresta
Que um camaleão altera a ela adaptando a pele;
Como o louva-a-deus que se assesta
Numa folha verde e nela se invagina
Tanto que mais enfolhece a folha e prova
Que o verdor é maior do que se imagina.

Tuas mãos seguram rosas como dizendo, eloquentes,
Que as rosas não são só tuas; o belo se transforma
Tão delicadamente
Procurando a partilha
Das coisas, da alma das coisas (para achá-las de novo)
Que, por momentos, aquilo que se toca, foge – de volta
à Maravilha. .

Richard Wilbur
Tradução: Jorge Wanderley

28 de março de 2016

Rondel

François Boucher
Esgotou-se a fonte de oiro dos dias,
Os tons da tarde, azuis e outonais:
Morreram doces flautas pastorais
Os tons azuis da tarde, e outonais
Esgotou-se a fonte de oiro dos dias.

Georg Trakl (1887-1914)
Tradução: João Barrento

Na Velhice

Claude Lorrain
Como tudo, outra vez, devém sereno!
Tal qual em minha infância era vulgar,
Mansos regatos vão nos vales correndo
Dentro da solidão crepuscular;
Mal se ouve, ao longe, o canto de um pastor,
Tinem sinos, ecoando nas quebradas
De todas as aldeias em redor,
Prazer e mágoa, ei-los afundados
Nos vales ainda luzem vagamente;
Só, para além da mata em soledade,
Nos píncaros do monte, brilha o poente
Tal como o próprio alvor da Eternidade.

Joseph Freiherr Eichendorff (1788-1837)
Tradução: A. Herculano de Carvalho

27 de março de 2016

Fuga

Edward Cucuel
Quando as raposas comerem as últimas uvas douradas,
E o último antílope branco for morto,
Deixarei de lutar e fugirei
Até uma pequena casa que haverei de construir.

Antes, porém, me encolherei até o tamanho de uma fada,
Com um sussurro que ninguém entenda,
Fazendo luas cegas de todos os vossos olhos,
E caminhos lamacentos de todas as vossas mãos.

E podereis me buscar às apalpadelas
Em cavidades sob a raiz do mangue,
Ou onde, na chuva com aroma de maçãs,
Os prateados ninhos da vespa pendem como fruta.

Elinor Wylie (1885-1928)
Tradução: J. A. Rodrigues

26 de março de 2016

Da Brevidade Enganosa da Vida

Camille Pissarro
Menos solicitou célere seta
destinado sinal, que morde aguda;
agonal carro pela areia muda
não coroou com mais silêncio meta,

que pressurosa corre, que secreta,
em seu fim, nossa idade. A quem se iluda,
fera que seja de razão desnuda,
cada Sol repetido é um cometa.

Reconhece-o Cartago, e tu o ignoras?
Perigo corres, Lício, se porfias
em seguir sombras e abraçar enganos.

Mal te perdoarão a ti as horas:
as horas que limando estão os dias,
os dias que roendo estão os anos.

Luis de Góngora (1561-1627)
Tradução: Anderson Braga Horta

Amor constante para além da morte

George Frederic Watts - Love And Life
Pode fechar-me os olhos a derradeira
sombra que de mim leva o branco dia,
e livrar de tudo o que prendia
a alma ansiosa, a hora que se abeira;

mas não deixará na margem da ribeira
a memória dos sítios onde ardia:
minha chama nada na água fria
e a dura lei enfrenta altaneira.

Alma de que todo um deus foi prisão,
veias onde tanto fogo foi gerado,
medulas em gloriosa combustão:

o corpo deixará, não seu cuidado;
cinzas hão de ser, mas com coração;
serão pó, sim, mas pó apaixonado.

Francisco de Quevedo (1580-1645)
Tradução: António Simões

O Grifo da Morte

a Lúcio Rangel
Vladimir Volegov
Milhões de rosas
Para esta grave
Melancolia,
Milhões de rosas,
Milhões de castigos...

Milhões de castigos,
Imperfeita grávida,
Quem foi? foi o vento
Quem fez-te imperfeita,
Milhões de aratacas!

A toca fendeu
Para esta grave
Melancolia,
Milhões de castigos,
Milhões de aratacas...

Salta o bicho roxo,
Depois ficou ruim,
Depois ficou roxo,
Depois ficou ruim,
Depois ficou roxo
Ruim-roxo, ruim-roxo
Milhões de bandeiras!

Os camisas pretas,
Os camisas pardas,
Os camisas roxas,
Ruim-roxo, ruim-roxo,
Milhões de bandeiras!
Milhões de castigos!
Quem foi! foi a rosa
Dos ventos da amarga
Desesperança...

Ei vem a morte
- ruim-roxo...-
Consoladora...
Milhões de rosas,
Milhões de castigos...

Mário de Andrade (1893 -1945)

25 de março de 2016

Mar Calmo

Albert Laurens
Tranquilo, o mar não canta nem ondeia.
O nauta, imerso noutro mar de mágoas,
Os olhos tristes e úmidos passeia
Pela tranquila quietação das águas.

A onda, que dorme quieta, não espuma;
O astro, que sonha plácido, não canta,
E em todo o vasto mar, em parte alguma
A mais pequena vaga se levanta.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Tradução: Francisca Júlia

Dias

Pietro Barucci
Filhas do Tempo, os hipocríticos Dias,
Abafados e mudos como dervixes descalços,
E marchando um após outro em interminável fila,
Trazem diademas e adornos em suas mãos.
A cada qual oferecem presentes à vontade,
Pão, reinos, estrelas e o céu que as sustém.
Eu, em meu entristecido jardim, apreciei a pompa,
Esqueci os meus desejos matinais, às pressas
Tomei algumas ervas e maçãs, e o Dia,
Virando-se, partiu em silêncio. Tarde demais,
Percebi o desdém sob o seu solene laço.

Ralph Waldo Emerson (1803-1882)

24 de março de 2016

Tranquila até o degelo

Varvara Harmon
Seu nome diz de como
era com ela.

A verdade é que ela não falava
no inverno.
Todo mundo aprendeu a não
fazer-lhe perguntas no inverno,
uma vez que isso se sabia sobre ela.

No primeiro inverno em que isso aconteceu
nos fixamos em sua boca para ver
se algo estava congelado. Sua língua
talvez, ou alguma coisa lá dentro.

Mas depois do degelo ela voltou a falar
e nos disse que era bom para ela dessa maneira.

Então, em cada primavera esperávamos por isso.

Jacob Nibenegenasábe
Tradução: J. A. Rodrigues

23 de março de 2016

Em face dos últimos acontecimentos

Christian Schloe
Na minha mente é que as rosas desabrocham
E esplendem
E aí quedam

-- ai de mim! --

Num instante de tempo muito mais acelerado
Do que a esbaforida eternidade de um dia
Das rosas do poeta Malherbe.

Waly Salomão (1943-2003)

Desaparecimentos

Christophe Kiciak
É uma parede. E a parede é a morte

Ilegível
Rascunho de mal-estar, na imagem

e pós-imagem da vida –

e os muitos que aqui estão
embora nunca nascidos,
e aqueles que falariam

para se darem à luz.

Ele saberá o falar deste lugar.
E saberá manter a boca fechada.

Porque é isto a nostalgia: um homem.

Paul Auster
Tradução: Rui Lage

22 de março de 2016

O Poema

Dorina Costras
Entre o verbo
e o silêncio
a incisão
profunda.
Sem anestesia.

Domício Proença Filho

Primeiro vem o tempo de achar...

Edmund Dulac
Primeiro vem o tempo de achar, depois o
de seguir. Depois desses, outros tempos, até
que venha um tempo só, e é o logo e
solitário tempo do perdido. Mas para isto
é que a memória vale: aí, nessa distância
esta paisagem não parecerá mais uma visão
desconhecida, terá apenas um ar familiar
e antigo, que nos lembra
aquilo que existiu, e foi nosso sem que
soubéssemos que era nosso. Será então o
tempo de entender.

Lúcio Cardoso (1912-1968)

21 de março de 2016

A Pouco e Pouco

François Gérard
Há entre o coração e a pele cumplicidades para cujo entendimento apenas corpos como o dele às vezes contribuem.
Olhando-o nos olhos não é fácil destrinçar do alcantilado coração a cama onde dormíamos, ao mais pequeno sopro o sol parece evaporar-se.
Por esse coração, ainda que escarpado, era, no entanto, fácil alcançar a pele, o mar à força de bater na rocha ia ficando a pouco e pouco em carne viva.
Luís Miguel Nava (1957-1995)

O Planeta Terra

Pierre Bonnard
O planeta terra
deveria chamar-se planeta água.

Na terra há mais água que corpo,
no corpo há mais corpo que alma,
na terra há mais peixes que aves,
nas aves mais plumas que asas.

No verso há mais sangue que tinta,
na tinta mais sombra que nada,
no nada há mais algo que alga
e esse algo se move e reluz
e nasce a palavra.

Gloria Fuertes (1917-1998)

20 de março de 2016

Sei de uma hora

René Magritte
Sei de uma hora
em que todos os relógios me fuzilam
e eu caio em tantos segredos
que nem sei
se são meus.

Gi T.Sousa

O corpo não espera

Gustav Klimt
O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

Jorge de Sena (1919-1978)

19 de março de 2016

A Ponte de Ferro

Helen Lush
Existe ainda por certo ao fim de uma longa rua
Onde andava eu criança um pântano estagnado
Retângulo pesado de morte ao céu negro.

Desde então a poesia
Separou de outras águas suas águas,
Beleza alguma, ou cor a vão reter,
Por ferro ela angustiasse e por noite.

Nutre um longo
Pesar de margem morta, uma ponte de ferro
Lançada à outra margem mais noturna ainda
É sua só memória e só real amor.

Yves Bonnefoy
Tradução: Mario Laranjeira

Dizem alguns: Dizem outros!

Paul Klee
Dizem alguns: Minha terra!
Dizem outros: Meu carinho!
E este: Minhas lembranças!
E aquele: Oh, meus amigos!
Todos suspiram, todos,
por algum bem perdido.
Eu só não digo nada.
Eu só nunca suspiro.
Que o meu corpo de terra
e o meu cansado espírito,
aonde quer que eu vá
vão comigo.

Rosalía de Castro (1837-1885)
Tradução: Ernesto Guerra da Cal