19 de fevereiro de 2016

Satélite

Ray Hendershot
Fim de tarde.
No céu plúmbeo
˚
A lua baça˚
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e enamorados,
Mas tão somente
Satélite.

Ah! Lua deste fim de tarde,
Desmissionária de atribuições românticas;
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
gosto de ti, assim:
Coisa em si,
– Satélite.

Manuel Bandeira (1886-1968)

˚ ˚ No contexto do poema as palavras plúmbeo e baça devem ser entendidas,
respectivamente, como: cinzento e fosca.

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