5 de fevereiro de 2016

Retrato

Edgar Degas
Das palavras nascem o poema e a solidão.
O verbo é punhal traiçoeiro e rosa sangrenta.
Uma sílaba contém o amor e a outra o exílio.
Boca, por que hás de falar e sempre em vão?

Calcinada flor, desfaz-se em pó a retórica.
Que olhos abismados soletram a gramática?
Dançam os vocábulos o baile dos equívocos
em torno do home atônito, filho da treva.

Um destino se esconde no verso e a vida é drama.
Rito de ódio e canto de embalar irrompem das antologias.
O pecado e o crime foram gerados diante do pronome.

Rei e servo, santo e demônio, o lábio escolhe o tempo.
Alguém me absolverá quando todos me condenarem.
Estou marcado de culpas e sou um homem.

Mário da Silva Brito

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