27 de fevereiro de 2016

O velho, o rapaz, e o burro

George de La Tour
O mundo ralha de tudo,
Tenha ou não tenha razão,
Quero contar uma história
Em prova desta asserção.

Partia um velho campônio
Do seu monte ao povoado;
Levava um neto que tinha,
No seu burrico montado.

Encontra uns homens que dizem:
“Olha aquela que tal é!
Montado o rapaz, que é forte,
E o velho, trôpego, a pé!

— Tapemos a boca ao mundo,
O velho disse; — rapaz,
Desce do burro, que eu monto,
E vem caminhando atrás.”

Monta-se, mas dizer ouve,
“Que patetice tão rata!
O tamanhão, de barrinha,
E o pobre pequeno à pata!

— Eu me apeio, diz, prudente,
O velho de boa fé;
Vá o burro sem carrego,
E vamos ambos a pé.”

Apeiam-se, e outros lhes dizem:
“Toleirões, calcando a lama!
De que lhes serve o burrinho?
Dormem com ele na cama?

— Rapaz, diz o bom do velho,
Se de irmos a pé murmuram,
Ambos no burro montemos,
A ver se inda nos censuram.”

Montam, mas ouvem de um lado:
“Apeiem-se almas de breu,
Querem matar o burrinho?
Aposto que não é seu!

— Vamos ao chão, diz o velho,
Já não sei que hei de fazer!
O mundo está de tal sorte,
Que se não pode entender.

É mau se monto no burro,
Se o rapaz monta, mau é;
Se ambos montamos é mau,
E é mau se vamos a pé!

De tudo me têm ralhado;
Agora que mais me resta?
Peguemos no burro às costas,
Façamos inda mais esta!

Pegam no burro; o bom velho
Pelas mãos o ergue do chão,
Pega-lhe o rapaz nas pernas,
E assim caminhando vão.

“Olhem dois loucos varridos!
Ouvem com grande sussurro, —
Fazendo mundo às avessas,
Tornados burros do burro!”

O velho então para, e exclama:
“Do que observo me confundo!
Por mais que a gente se mate,
Nunca tapa a boca do mundo.

Rapaz, vamos como dantes,
Sirvam-nos estas lições:
É mais que tolo quem dá
Ao mundo satisfações.”

Jean de La Fontaine (1621-1695)
Tradução: Filinto Elísio (1734-1819)

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