6 de fevereiro de 2016

Em memória de Sigmund Freud

Foto de Freud
Quando há tantas pessoas a quem devemos lamentar,
quando se tornou assim tão pública a aflição e expôs
à critica de toda uma época
nossa frágil consciência, nossa angústia,

de quem iremos falar? Se todos os dias morrem
entre nós os que nos faziam algum bem, embora
nunca o bastante, sabiam, mas
contavam, vivendo, aumentá-lo um pouco.

Assim era este médico: aos oitenta desejava
refletir sobre a nossa vida, cuja indisciplina
tanto porvir plausível, jovem,
quer domar com ameaças ou lisonjas,

mas seu desejo foi negado: ele fechou os olhos
sobre o último quadro, a todos nós comum, de problemas
como parentes congregados
perplexos e ciumentos de morrermos.

À volta dele, até o último alento, se postaram
aqueles − fauna da noite − a quem havia estudado,
e sombras inda à espera de entrar
no claro âmbito do seu entendimento,

foram-se alhures com seu desaponto quando ele,
afastado do interesse de toda sua vida
voltou de novo à terra, em Londres,
importante judeu morto no exílio.

Só o Ódio é que ficou feliz, na esperança de aumentar
sua clinica então e sua sórdida clientela
que pensa curar-se com matar
e cobrir depois de cinzas os jardins.

Eles estão vivos ainda, mas num mundo que ele
mudou com olhar para trás sem falsos pesares;
tudo quanto fez foi, como os velhos,
lembrar e, como as crianças, ser honesto.

Nunca jamais foi esperto: limitava-se a dizer
ao Presente infeliz que recitasse o Passado qual
uma lição de poesia até
mais cedo ou mais tarde hesitar no verso onde,

havia muito, as acusações tinham começado,
e repentinamente descobrir quem o julgara,
como a vida fora rica e tola,
e, com a vida perdoada e mais humilde,

poder aproximar-se do Futuro como amigo
sem um guarda-roupa inteiro de desculpas, sem uma
máscara de retidão ou gesto
de embaraçosa e excessiva intimidade.

Não admira que as antigas culturas presunçosas
na técnica de deslocamento dele antevissem
quedas de reis, colapsos dos
seus lucrativos padrões de frustração:

se ele tivesse êxito, a Vida Generalizada
tornar-se-ia impossível, o monolito do Estado
seria quebrado e impedida
a colaboração dos vingadores.

Claro que invocavam a Deus, mas ele prosseguia em seu
caminho para baixo, até a perdida gente, como Dante,
até a vasa onde os ofensos
levam a vida vil dos rejeitados,

e nos mostrava o que eram o mal, não, como pensávamos,
atos a serem punidos, mas nossa falta de fé,
nosso modo desonesto de negar a concupiscência do opressor.

Se traços da atitude autocrática, do paternal
rigor por que tinha suspicácia, ainda se apegavam
às suas palavras e feições,
eram só um colorido protetor

de quem viveu tempo demais entre gente inimiga:
se estava amiúde errado e eram algumas vezes absurdo,
já não é mais uma pessoa
para nós, mas um clima de opinião

dentro do qual vivemos nossas diferentes vidas:
como o tempo ele só pode ajudar ou atrapalhar;
o soberbo continua a sê-lo,
acha porém mais difícil, o tirano,

tenta enganá-lo, mas não se importa muito com ele:
sem alarde ele afeta o nosso desenvolvimento
até os exaustos, mesmo no
ducado mais remoto e miserável,

sentirem em seus ossos a mudança e animarem-se,
até a criança inditosa, no seu pequeno Estado,
algum lar sem liberdade,
colmeia cujo mel é medo e angústia,

sentir-se mais calma agora e certa de uma saída
qualquer, enquanto, na grama da nossa negligência,
tantos objetos esquecidos
pelo seu brilho não encorajado,

nos são devolvidos e de novo tornam-se preciosos;
brinquedos que achávamos ter de deixar quando grandes,
barulhinhos de que não ousávamos
rir, caretas que fazíamos a furto.

Mas ele não deseja mais do que isso. Ser livre
é com frequência estar sozinho. Ele cuidava de unir
metades desiguais rompidas
por nossa boa intenção de sermos justos;

de devolver aos maiores a agudeza e vontade
que os menores possuem e costumam somente usar
em tolas disputas, dar de volta
ao filho a opulência do sentir materno:

ele cuidava acima de tudo era de lembrar-nos
que nos deixássemos arrebatar pela noite, não
apenas pelo senso de pasmo
que por si só nos dá, mas também

por que precisa o nosso amor. Os grandes olhos tristes
de suas doces criaturas rogam mudamente
que as convidemos a seguir-nos;
são banidos que aspiram ao futuro
que está em nossas mãos, eles também se alegrariam
se lhes permitissem servir, como ele, à iluminação,
e suportar nosso grito: “Judas!”
como ele suportou e os que o servirem.

Uma voz racional calou-se. Sobre a sua tumba,
a família do Impulso pranteia um ente querido.
Eros está triste, o construtor
de cidades; chora a anárquica Afrodite.

W. H. Auden (1907-1973)
(AUDEN, 1986, p. 95, 97, 99 e 101)
Tradução: José Paulo Paes

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