8 de janeiro de 2016

O Sol é Grande

Joseph-Marie Vien
O sol é grande, caem com a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria,
esta água que de alto cai acordar-me
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudáveis,
qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam de amores.

Tudo é seco e mudo, e, de mesura,
também mudando eu me fiz de outras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura.

Francisco Sá de Miranda (1481-1558)

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