31 de dezembro de 2015

Por amar demais esta vida

Michael Garmash
Por amar demais esta vida,
Sem nada a esperar ou temer,
Eis aqui a graça devida
A seja lá que deus houver
Por vida alguma ser eterna;
Por morto algum sair da terra;
E até porque o rio que erra
Um dia alcança um mar qualquer.

Algernon Charles Swinburne (1837-1909)
Tradução: Arthur Nogueira

Casa Silenciosa

Claude Monet
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo
O leitor tornava-se no livro; e a noite de verão.

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página,

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espírito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

Wallace Stevens (1879-1955)
Tradução: David Mourão-Ferreira

30 de dezembro de 2015

Manhã do mundo

Jean Cocteau
Manhã do mundo, que não amanheces!
Tantos poetas a cantar na sombra,
E nenhuma alvorada se anuncia!
Somos nós maus profetas no degredo,
Ou és tu, sol da vida, que tens medo
De iluminar a nossa profecia?

Miguel Torga (1907-1995)

Ó doce e espontânea Terra

Stan Wisniewski
Ó doce e espontânea Terra,
quantas vezes os afetuosos e
lascivos dedos dos filósofos
te beliscaram e apalparam,
o polegar travesso da ciência
instigou tua beleza.
Quantas vezes as religiões te
dispuseram entre os descarnados joelhos,
apertando-te e
açoitando-te para que
concebesses deuses.
(mas fiel ao leito
incomparável da morte, tua amante rítmica,
tu só lhes
respondes com
a primavera).

E.E.Cummings (1894-1962)

29 de dezembro de 2015

Apelo

Ludolf Backhuysen
Abri na noite as grandes águas
Criadas no tempo de chorar.
Levantei os mortos do sonho
Que trouxestes para viajar.
Fechai os olhos, despedi-vos,
Atirai os mortos ao mar!

Por amor às vossas estrelas,
Chamai ventos de solidão.
Em voz alta, dizei responsos,
Descarregai o coração!
Aos mortos que descem nas águas,
Mandai amor, pedi perdão!

Fazei-vos marinheiros límpidos,
Isentos do bem e do mal.
Dizei que, à procura dos deuses,
Com um rumo sobrenatural,
Necessitais da despedida
De toda lembrança mortal.

Ide, com o esbelto movimento,
A graça da libertação,
À proa das naves solenes
Que os deuses vos transportarão.

Mas não fiteis a densa vaga
Que se arquear em redor de vós!
– O rosto dos mortos flutua
para sempre. E é um longo cometa
a aérea franja da sua voz.

Cecília Meireles (1901-1964)

Televisão

Emma Thomson
Ligo-a como se fosse uma torneira,
nem frio nem quente, só tépido infotenimento,
e dela jorram as provas cintilantes
de conflitos, misérias, concupiscência,
desatrelados pouco a pouco, em remissões
de publicidade ansiosa que antecipa
para nosso bem a melhor vida dependente
de uma compra, de alguma aquisição indispensável.

Um carro lustroso dá curvas na chuva murmurante,
uma praia de alvura óssea acolhe peles bronzeadas,
um toalete acalma as rugas de uma bela enrugada,
um unguento consola a dor sedentária,
dentes falsos resplandecem, a cerveja provoca alegria,
e cabelos pintados arremessam a cor pelo ecrã:
erupções de luz bebidas pelo meu cérebro,
que depressa se cansa, até ficar sequioso outra vez.

John Updike (1932-2009)
Tradução: Ana Luisa Amaral

28 de dezembro de 2015

Ainda sabemos cantar

Jean Antoine Watteau
Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.

Eugénio de Andrade (1923-2005)

Feliz

Pierre Auguste Renoir
Fita de areia sobre o acerado
mercúrio do rio. O sorriso
difuso suspenso da tarde.
Alcançando-se, a epiderme
dos dedos longos.

Eras feliz. Dizias,
o sol morno sobre os cabelos.
Feliz como nos retratos,
como na tarde longínqua
do sorriso. Como o rio
tranquilo.

Existiu e não é.
Os retratos amarelecem no fundo da gaveta.

Rui Knopfli (1932-1997)

27 de dezembro de 2015

Vozes dos Animais

Edvard Hicks – Arca de Noé
Palram pega e papagaio
E cacareja a galinha;
Os ternos pombos arrulham;
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca; berra o touro;
Grasna a rã; ruge o leão;
O gato mia; uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo;
Os elefantes dão urros;
A tímida ovelha bala;
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa
(Bichinho muito matreiro);
Nos ramos cantam as aves;
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar;
Fazem às vezes gorjeios,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos e as doninhas,
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita;
Zune o mosquito enfadonho;
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre; grasna o pato;
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças;
Pia, pia o pintainho;
Cucurica e canta o galo;
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros;
O cordeirinho, batidos;
O macaquinho dá guinchos;
A criancinha, vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais.
Nos versos lidos acima,
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principais.

Pedro Diniz (1839-1896)

26 de dezembro de 2015

Cidade

Jean-Baptiste Greuze
Foguetes pipocam o céu quando em quando
Há uma moça magra que entrou no cinema
Vestida pela última fita
Conversas no jardim onde crescem bancos
Sapos
Olha
A iluminação é de hulha branca
Mamães estão chamando
A orquestra rabecoa na mata.

Oswald de Andrade (1890-1954)

Há três pontos de vista no mundo:

Há três pontos de vista no mundo:
o de um ser humano o de um narrador e
o de sirius que é o único que sabe tudo
enquanto o narrador sabe um pouco
de tudo e o ser humano o
suficiente sobre como é
amar alguém até ao ponto de o próprio tempo
suspender a respiração ou choramingar e rasgar
o céu e aterra até que eles se confundam
e tudo isto sendo o que é talvez o
...................................... (fim)

Per Aage Brandt
Tradução: Maria João Reynaud

25 de dezembro de 2015

O Salvador deve ter sido

Aldemir Martins
O Salvador deve ter sido
Um dócil Cavalheiro –
Para vir assim distante num tão frio Dia
Aos seus modestos Semelhantes –

A Estrada para Belém
Desde quando Ele e eu éramos crianças
Foi nivelada, não fosse por isso seria
Um bilhão de acidentadas Milhas –

Emily Dickinson (1830-1886)

Natal entre Árvores

Albert Chevallier Tayler
Naquela tarde sem nuvens,
quis a Madona das Andorinhas
– com seus gestos de ar e vidro
e já um aroma de futuras violetas
em torno aos cabelos –

quis a Madona das Andorinhas
que plantássemos uma árvore
no chão de nossa casa:
e quando a semente caiu ao solo
os cabelos da Madona
faiscaram e cobriram-se de pétalas.

Hoje em nossa casa há três árvores;
três árvores ou sete mágoas?
sete mágoas ou quinhentas alegrias?

Crescem as árvores,
e com as árvores se esvai o nosso tempo,
e as árvores também são fuga
– e conversam com o ar, e contemplam as nuvens,
e procuram os ventos
– e já não são coisa nossa,
como no dia em que foram projeto,
inquietação, desejo de plantar.

Ao meu lado, porém,
continua a Madona, a Madona das Violetas,
a mão de que brotaram árvores,
o olhar que é um voo de andorinhas:
Madona, Madona,
há tempestades no horizonte:
como proteger as nossas árvores?

Que Deus ampare, Madona,
as árvores que, sendo efêmeros,
plantamos;
e que Deus nos cubra com Seu manto
– pois realmente somos um –
quando já não pudermos proteger, Madona,
entre violetas e andorinhas,
nossas árvores tão verdes.

Péricles E. S. Ramos (1919-1992)

24 de dezembro de 2015

Véspera de Natal, sozinho

Jamie Frier
Véspera de Natal, sozinho
em um quarto de motel
ao longo da costa
perto do Pacífico –
o escutas?

eles tentaram fazer deste lugar algo
espanhol, colocaram
tapeçarias e lâmpadas,
o banheiro está limpo e há
pequenas barras de sabonete
rosa.

ninguém nos encontrará
aqui:
as piranhas, as damas ou
os adoradores de
ídolos.

de regresso à cidade
estão eles bêbados e em pânico
violando sinais vermelhos
estourando suas cabeças
em honra ao aniversário de
Cristo que bacana!

em breve terei terminado este quinto
de rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e
tomarei banho, retornarei
para casa, comerei um sanduíche a uma da tarde,
estarei em meu quarto por volta das
duas,
estirado na cama,
à espera de que o telefone toque,
para não responder,
meu feriado é
uma evasão, mas
minha consciência
não a posso enganar.

Charles Bukovski (1920-1994)

Arvorezinha

Viggo Johansen - Silent Night
Arvorezinha
silente arvorezinha de Natal
és tão pequena
que mais pareces uma flor

quem te encontrou no verde bosque
e triste ficaste porque dele te levaram?
olha vou te consolar
porque tens um perfume tão doce

vou beijar tua fresca casca
e te abraçarei bem apertado
tal como tua mãe o faria,
basta que não tenhas medo

atenta para os ornamentos
que dormem o ano inteiro numa caixa escura
sonhando em sair de lá para poderem brilhar,
as bolas os adereços em dourado e vermelho os filetes macios,

levanta teus bracinhos
que eu te os darei todos para segurar
cada dedo há de ter o seu anel
e não haverá um único local triste ou escuro

então quando estiveres bem vestida
ficarás na janela para que todos possam te ver
e como vão te olhar!
oh mas como estarás orgulhosa

e minha irmãzinha e eu nos daremos as mãos
e olhando a nossa bela árvore
vamos cantar e dançar
“Noel Noel”.

E.E.Cummings(1894-1962)

23 de dezembro de 2015

Árvore de Natal

Georgina de Albuquerque
Tarde! Estou muito triste, triste, assim
De uma tristeza imóvel e varia...
E uma ronda de crianças esfuzia
Na aquarela chinesa do jardim...

Aos poucos a farândola leviana,
Chega-se a mim, cerca-me ousadamente:
Inquietas larvazinhas de alma humana,
Misteriosos destinos em semente
Vêm parar a meus pés depois – meigas violetas,
Sob a sombra de uma árvore doente.

Não tenho nada para dar-lhes, sou
Como um pinheiro contemplativo,
Cujos ramos dolentes não têm frutos
Que há muito um vento cruel os arrancou...

Mas elas pedem qualquer coisa e eu me comovo.
Eu tenho tanta pena das crianças!
Elas são todo o mundo a começar de novo
Para as mesmas incertas caminhadas,
Para o mistério das encruzilhadas;
São toda a Humanidade que renasce,
Ingênua, simples e maravilhada,
Como a primeira vez que apareceu.

E, então (isso é dos santos e dos sábios),
Penduro na tristeza dos meus lábios
Coisas alegres que não são minhas:
Fábulas mansas, contos de fadas,
Histórias de anjos e rainhas
E uma porção de coisas encantadas,
Que vou distribuindo pelo bando...

E à tarde que se vai lentamente apagando,
Na aquarela chinesa do jardim,
Semeando alegrias e esperanças –
Minha tristeza é assim uma piedosa e linda
Árvore de Natal entre as crianças...

Raul de Leoni (1895-1926)

22 de dezembro de 2015

Nascituro

Fra Filippo Lippi
Que direi eu ao nascituro?
Dar-lhe-ei um pouco do escuro
sentimento que vem da vida?
Ou direi antes da impressentida

estrela que existe no fundo
do mais amargo sofrimento?
Dar-lhe-ei um pouco do sentimento
escuro, de que é feito o mundo?

Ou direi antes da aflitiva
certeza – humílima certeza –
de que a maior, divina beleza,
não consola esta coisa viva,

esta pobre, inquieta argila,
que é o homem, com o seu destino?
Ou direi antes ao pequenino
que dorme na antecâmara tranquila

palavras de uma primavera
que os deuses reservam para o que vem?
Que direi eu ao que está sem
pecado ou culpa, ao que não era

senão na minha esperança, e agora
claro e preciso se anuncia?
Dar-lhe-ei um pouco do meu dia
ou viverei de sua aurora?

Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)

21 de dezembro de 2015

Anunciação

Luca Giordano
A salvação de quem a deseja está perto;
Quem anda pelas tetras que este mundo comporta,
Quem não pode pecar – e os pecados suporta,
Quem não pode morrer – e a morte é seu fim certo,
Deixa, Virgem fiel, que Todos se acalentem
Na prisão de teu ventre; e lá, embora não
Possam pecar, e nem lhes dês a carne, vão
Tê-la, para que a força da morte experimentem.
Nem criado era o tempo nas esferas, Senhora,
E estavas já na ideia de Deus, teu Filho, e Irmão;
Ele, a quem concebeste, te concebera, e agora,
Criadora do Criador, de teu Pai és a mãe.
Luz na treva, enclausuras em pequeno guardado
A imensidade toda no ventre abençoado.

John Donne (1572-1631)
Tradução: Afonso Félix de Sousa

20 de dezembro de 2015

Uma Saudação de Natal

Paul Gauguin
(De uma constelação do Norte para uma do Sul, 1889-1890)
Bem-vindo, irmão brasileiro – teu amplo lugar está pronto; uma mão amorosa – um sorriso do norte – um pronto e caloroso aceno, cheio de sol!
(Deixa o futuro cuidar de si, onde revele seus problemas e empecilhos; nossos, nossos o anseio presente, a meta democrática, a aceitação e a fé); hoje, para ti se estende o nosso braço, se volta a nossa cabeça – para ti se volta o nosso olho expectante, tu livre de embaraços, tu, que és claro, refulgente! tu, aprendendo bem a lição verdadeira da luz de uma nação em pleno céu (brilhando mais do que a Cruz, mais do que a Coroa), as alturas de ser esplêndida humanidade!
Walt Whitman (1819-1892)
Tradução: Renato Suttana

19 de dezembro de 2015

Como armar um Presépio

Frederic Montenard
▸ Pegar uma paisagem qualquer
▸ cortar todas as árvores e transformá-las em papel de
imprensa
▸ enviar para o matadouro mais próximo todos os
animais
▸ retirar da terra o petróleo ferro urânio que possa
eventualmente conter e fabricar carros tanques aviões
mísseis nucleares cujos morticínios hão de ser noticiados
com destaque
▸ despejar os detritos industriais nos rios e lagos
exterminar com herbicida ou napalm os últimos traços
de vegetação
▸ evacuar a população sobrevivente para as fábricas e
cortiços da cidade
▸ depois de reduzir assim a paisagem à medida do homem
erguer um estábulo com restos de madeira cobri-lo de
chapas enferrujadas e esperar
▸ esperar que algum boi doente algum burro fugido
algum carneiro sem dono venha nele esconder-se
▸ esperar que venha ajoelhar-se diante dele algum velho
pastor que ainda acredite no milagre
▸ esperar esperar
▸ quem sabe um dia não nasce ali uma criança e a vida
recomeça?

José Paulo Paes (1926-1998)

18 de dezembro de 2015

O poema como instável

Morteza Katouzian
Estado, ou matéria, que questiona
através do poema,
vivemos
uma vida que nos pertence,
ou ela é que nos vive,
dependentes
do que e como ela
dedilha e tange em nós?
E entendendo
que o singular, quase nosso
único meio de nos reconhecer,
fica no que transcorre
entre o nascer e o crescer, sermos
sãos e doentes, morrermos,
não será vital, igualmente,
o ilusório do fixo, nos movermos
em continuidade com o fixo, o poema
como veículo, fechado e concluído,
para entesourar um presente
sem atrás nem além,
o poema, finjamo-lo,
acossador do inapreensível,
obsessivo registro
de quando a rosa se abre,
quando
uma estrela cai pulverizada,
quando
a relva que pisamos
torna a se endireitar?

Ao compreender isso
o fazedor de poemas o é, torna-se
uma fazedor de poemas,
e compreendendo-o
apoia seu afirmar-se
pelos poemas que faz,
e o vislumbre
de que se não fosse assim seus cantos
expressariam dele só o discorde,
e nenhuma unidade, nem sequer
mostrando-o como o gozoso, cintilante
predicado de seus cantos.

Alberto Girri (1919-1991)
Tradução: Sérgio Alcides

UNESP 2016 - 2ª fase

Salvador Dali - Slave Market with the Disappearing Bust of Voltaire
Não é preciso uma grande arte, uma eloquência muito rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-se uns aos outros. Vou mais longe: afirmo que é preciso considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê! O turco, meu irmão? O chinês? O judeu? O siamês? Sim, certamente; porventura não somos todos filhos do mesmo Pai e criaturas do mesmo Deus? Penso que poderia surpreender a obstinação de alguns líderes religiosos se lhes falasse:
“Escutem-me, pois o Deus de todos esses mundos me falou: há novecentos milhões de pequenas formigas como nós sobre a terra, mas apenas o meu formigueiro é bem-visto por Deus; todos os outros lhe causam horror desde a eternidade; meu formigueiro será o único afortunado, e todos os outros serão desafortunados”. Eles me agarrariam então e me perguntariam quem foi o louco que disse essa besteira. Eu seria obrigado a responder-lhes: “Foram vocês mesmos”. Procuraria em seguida acalmá-los, mas seria bem difícil.
(Voltaire. Tratado sobre a tolerância
[originalmente publicado em 1763], 2015. Adaptado.)
O principal movimento filosófico francês do século XVIII, do qual Voltaire é um dos principais representantes, é o Iluminismo; Voltaire trata especificamente das liberdades individuais, entendidas como direitos inalienáveis dos indivíduos, o que acarreta, invariavelmente, na igualdade entre os indivíduos e na tolerância religiosa, aspectos fundamentais presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

17 de dezembro de 2015

O Brasil

Pedro MC - Botafogo Beach
Pára! Uma terra nova ao teu olhar fulgura!
Detém-te! Aqui, de encontro a verdejantes plagas,
Em carícias se muda a inclemência das vagas...
Este é o reino da Luz, do Amor e da Fartura!

Treme-te a voz afeita às blasfêmias e às pragas,
Ó nauta! Olha-a, de pé, virgem morena e pura,
Que aos teus beijos entrega, em plena formosura,
— Os dois seios que, ardendo em desejos, afagas...

Beija-a! O sol tropical deu-lhe à pele doirada
O barulho do ninho, o perfume da rosa,
A frescura do rio, o esplendor da alvorada...

Beija-a! é a mais bela flor da Natureza inteira!
E farta-te de amor nessa carne cheirosa,
Ó desvirginador da Terra Brasileira!

Olavo Bilac (1865-1918)

Lamarca e a guerrilha rural

Capitão Carlos Lamarca dando instruções ao VPR
“Três anos de revolta
no Araguaia
A luta na selva,
lavouras abandonadas,
homens, mulheres e crianças
trucidados nos castanhais.
Vilas bombardeadas
e rios envenenados
- o napalm na floresta.
Foi preciso perseguir cada posseiro,
cada castanheiro e cada agricultor
para conter a guerrilha”.

Carlos Amorim