30 de novembro de 2015

Fuvest 2016:

Jacques-Louis David – Caricatura do governo Inglês 1794
A imagem pode ser corretamente lida como uma critica a monarquia inglesa, vista, no contexto da expansão revolucionaria francesa, como opressora da sociedade inglesa.

Atrás das Almas Mortas

Thomas Moran
Para onde Oh América
é que guias o teu
glorioso automóvel,
a que acidentes te inclinas
rodovia abaixo,
nos profundos canyons
das Montanhas do Oeste,
acelerando ao sol-se-pondo
sobre o Golden Gate
no rastro de que rusga
atiras o teu jazz
sobre o oceano Pacífico!

Allen Ginsberg (1926-1997)
Tradução: Reuben da Cunha Rocha

Causalidade

Gyokudo Kawai
Se não se lhe exaltar o mérito,
O povo alhear-se-á da rivalidade e da contenda.
Não valorizando as coisas preciosas,
Manter-se-ão os homens alheios à cobiça e ao roubo.
Não expor considerações sobre o desejável,
Poderá conduzir as pessoas a manter-se alheias à confusão.
Assim, o sábio domina enfraquecendo no homem o desejo
E assegurando-lhe a subsistência.
Enfraquecendo as suas ambições,
E robustecendo-lhes a firmeza de caráter.
Desse modo chega-se a possibilitar
Que prescindam do conhecimento e do desejo.
Se ensinarem os espíritos sagazes a ousar agir sem esforço,
E praticarem a não afirmação em meio à ação,
A ordem poderá ser restabelecida.

Lao Tzu (604 a.C. - 531 a.C.)
Tradução: Amadeu Duarte

29 de novembro de 2015

A Água e o Fogo

Gyokudo Kawai
O mar e o canto dos pescadores
Ao vento pertencem na Terra do Sul
Réplica do dia ao luar da meia-noite
tão terno e delicado
Por obra e graça da água
— Água, domínio da mulher.

Mas há ainda as outras mulheres
Que não são pertença da água
Mas da agonia do vento do Noroeste
esculpindo o perfil do planalto
Fazem parte do fogo seco
Cujo tributo são cinzas.

Wang Shu
Tradução: Fernanda Dias

Grodek ☼

Albert Bierstadt
Ao entardecer as armas da morte
Ressoam nas florestas outonais, as planícies douradas
E os lagos azuis, por cima, o sol rola, sombrio;
A noite abraça os guerreiros moribundos,
O lamento selvagem de suas bocas quebradas.
Mas o sossego concentra nuvens vermelhas
Entre os salgueiros, onde mora um deus feroz,
O sangue derramado, a frescura lunar;
Todos os caminhos acabam em podridão.
Sob as ramagens douradas da noite e das estrelas
A sombra da irmã cambaleia, através
Do silencioso arvoredo, para saudar os espíritos dos heróis,
As cabeças ensanguentadas;
E, silenciosas, as escuras flautas do outono ressoam no juncal.
Ó orgulhosa tristeza! E vós altares de bronze,
A chama quente do espírito alimenta hoje uma grande
Dor – os netos não nascidos.

Georg Trakl (1887-1914)
Tradução: Luís Costa

(☼) Grodek = Ucrania.

28 de novembro de 2015

Transcender

George Inness
Os espaços, um a um, devíamos
Com jovialidade percorrer,
Sem nos deixar prender a nenhum deles
Qual a uma pátria.

O Espírito Universal não quer atar-nos
Nem nos quer encerrar, mas sim
Elevar-nos degrau a degrau, nos ampliando o ser.

- Hermann Hesse, Trecho de "O Jogo das Contas de Vidro".
Tradução: Lavínica Abranches Viotti e Flávio Vieira

Peço a Paz

Arthur Hughes
Peço a paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço a paz
silenciosamente
a paz a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos atos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz e o
silêncio.

- Casimiro de Brito

27 de novembro de 2015

Segunda invocação às Musas

Hendrik van Balen - Apollo and the nine muses.
Ó musas, me dizei, moradoras do Olimpo,
divinas, todo-presentes, todo-sapientes
(nós, nada mais sabendo, só a fama ouvimos)
quais eram, hegemônicos, guiando os Danâos,
os príncipes e os chefes. O total de nomes
da multidão, nem tendo dez bocas, dez línguas,
voz inquebrável, peito brônzeo, eu saberia
dizer, se as Musas, filhas de Zeus porta-escudo,
olímpicas, não derem à memória ajuda,
renomeando-me os nomes. Só direi o número
das naves e os navarcas que assediaram Tróia.

Homero (928-898 a.C)
Tradução: Haroldo de Campos

A Paz

Adriaen van Utrecht - Banquet
Grandes coisas a paz concede aos homens
riqueza e cantos como flores,
de expressões de mel.

A paz sobre os altares trabalhados,
queima no louro fogo em honra aos deuses
coxas de bois e de carneiros
de longos pelos,
e leva os jovens aos ginásios,
às flautas e aos banquetes.
No férreo punho dos escudos
a aranha cor de fogo estende a teia,
e a lança aguda e a espada de dois fios
submete-as a ferrugem.
As trombetas de bronze já não soam;
já não foge das pálpebras o sono
- tão doce como o mel -
que de manhã conforta o coração.

Pela cidade espalham-se os festins amáveis:
e brilham como chamas
as canções de amor.

Baquílides (520-450 a.C.)
Tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

26 de novembro de 2015

Green

John William Waterhouse
Aqui estão frutos, flores, folhas, que eu vos trouxe,
E um coração que só por vós sabe pulsar.
Não o despedaceis com vossa mão tão doce,
E possa o humilde dom ser grato ao vosso olhar.

Ainda tenho no rosto o orvalho que a alvorada
Vem regelar em mim com sua viração.
Que esta minha fadiga, a vossos pés prostrada,
Sonhe os instantes bons que a reconfortarão.

Deixai rolar no seio moço a fronte lenta
Em que ainda ecoam vossos beijos musicais;
Deixai-a sossegar da bendita tormenta,
E que eu durma um instante, enquanto repousais.

Paul Verlaine (1844-1896)
Tradução: Guilherme de Almeida

Preciso de verdade e de aspirina

Vlad Pronkin
Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)

25 de novembro de 2015

À Noite

Edward Robert Hughes
Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um réquiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebra descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

Francisca Júlia (1871-1920)

Abelhas Paradisíacas

Lucas Cranach the Elder
Cruzei o mar inteiro até aqui,
Mas vi de novo a onda entre teus braços
Onde encosta e forte – juntos, ali,
Dissolvidos num céu de alvos traços –

Jardins erguiam – olho afora – mareados
Achei.
Sim, sem cisão, os nossos dias
Vão sob o sol. Cruzamos céus bem claros
Duros, vivos de tua apologia,
Junto à pomba, e abelhas Paradisíacas.

Hart Crane (1899-1932)
Tradução: Anderson Lucarezi

24 de novembro de 2015

Meus Olhos Tão Suaves

Hans Zatzka
Não renuncie à sua solidão
Tão rapidamente.
Deixe-a cortar mais fundo.

Deixe-a fermentar e amadurecer
Como poucos ingredientes humanos
Ou mesmo divinos conseguem.

Algo ausente no meu coração esta noite
Tornou meus olhos tão suaves,
Minha voz
Tão terna,

Minha necessidade de Deus
Tão absolutamente
Clara.

Al-Din Muhammad Hafiz (1325-1390)
Tradução: Alexandra Nikasios

(De)missão

Diego Rivera
Demitir-se da esperança
como uma carta sem endereço
impossível de entregar e
não dirigida a ninguém

Como um peso
Como aquele bloco de mármore
que sempre me fugia
até que eu percebi que não
fazia sentido o esforço
de o empurrar continuamente
para a minha boa consciência

Uma esperança incurável
por fim dolorosamente
insuportável
um corpo estranho enquistado
encrostado e endurecido
monstruosidade
que me não pertence e a que
não quero pertencer

A mais difícil missão é:
saber demitir-se
Aqueles que começam pela esperança
já aprenderam a sua lição.

Günter Kunert
Tradução: João Barrento e Y. K. C

23 de novembro de 2015

A Pergunta

Diego Rivera
Esperar o quê
os mortos calam-se ou são silenciados
só nas filas para lojas vazias
se verifica crescimento contínuo:
A agitação não traz
senão benção
fraternidade em papel de jornal
para embrulhar

Nenhuma hora regressa
e cada novo dia executa
o anterior com maior esforço:

Uma história curta e brutal
cheia de longas promessas
que já não conseguem abafar
as tuas perguntas.

Günter Kunert
Tradução: Ana Tönnies

Música de Câmara

Harold Harvey
Vai e acerca-te a ela mais cortês,
Proclama
Que eu chego, ó vento de perfume, eterno
Epitalâmico.
Voa por terras negras
E corre sobre o mar sem fim,
Que mar e terras não irão nos apartar
A meu amor e a mim.

Por tua cortesia, eu peço,
Vento: voa,
Adentra o jardinzinho,
Vai cantar junto à
Janela: Amor está em seu sol a pino;
A brisa nupcial bafeja leve,
E breve o teu amor vai ter contigo,
Breve, Oh breve.

James Joyce (1882-1941)
Tradução: Alípio Correia de Franca Neto

22 de novembro de 2015

Despedida de Amigo

Hiroshige Man
Adeus, meu amigo, adeus,
querido amigo, que trago no coração.
A separação predestinada
para mais tarde promete novo encontro.

Adeus, meu amigo, sem aperto de mão nem palavras.
Não lamentes e não haja dor nem pena, -
nesta vida morrer não é nada de novo,
mas também nada de novo é viver.

Serguéi Iessénine (1895-1925)
Tradução: Manuel Seabra

O louco aprende a ser sábio

Cynthia Decker
O louco aprende a ser sábio à sua própria custa. Pois há duas coisas, sobretudo, que impendem o homem de chegar a conhecer bem as coisas: a vergonha, que ofusca sua alma, e o temor, que lhe mostra o perigo e o desvia de empreender grandes ações.
Ora, a loucura nos livra maravilhosamente dessas duas coisas. Poucos percebem a quantidade de outras vantagens que obtêm os que renunciam para sempre à vergonha e ao temor.
Há talvez os que prefiram a prudência que consiste em fazer a ideia justa das coisas; mas escutai-me, por favor. Vereis o quanto as pessoas estão afastadas dessa virtude, mesmo quanto creem possui-la por inteiro.
Erasmo de Rotterdam (1466-1536), in “Elogio da Loucura”.
Tradução: Paulo Neves

21 de novembro de 2015

Abnegação

Henri-Joseph Harpignies
O Céu é eterno e a Terra permanente.
Qual será o segredo da sua durabilidade?
Deve ser por não viverem para si mesmos que prevalecem.
Assim também o sábio prefere considerar-se por último
Permanecendo, desse modo, adiante.
Não leva em consideração a sua pessoa
E desse modo prevalece são e salvo.
Não será devido ao desinteresse que nutre por si mesmo
Que os seus propósitos se realizam?

Lao-Tsé (1324 a.C. - 1408 a.C.)

Epipsychidion

Svetlana Solovyova
Anjo celeste, tu, excessivamente belo para seres humano,
ocultando sob uma forma luminosa de Mulher
tudo aquilo que é em ti insustentável
vindo do amor, da imortalidade e da luz!
Suave bênção para os que foram amaldiçoados!
Velado esplendor sobre esse universo sombrio!
Tu, lua além das nuvens! Tu, forma viva
entre os mortos! Tu, estrela sobre as tempestades!
Maravilha, e beleza, e terror! Tu,
harmonia de arte que anima a natureza! Tu, espelho
onde, como no esplendor do Sol,
todas as formas aparecem gloriosas ao teu olhar!
Sim, mesmo nas obscuras palavras que te escondem
agora, brilha um relâmpago desconhecido.
Peço-te: vem apagar deste triste poema
tudo o que nele é erro e só mortalidade.

Percy Bysshe Shelley (1792-1822)
Tradução: Fernando Guimarães

20 de novembro de 2015

Soneto 17

Arnold Böcklin
Quem crerá em meu verso no futuro,
Se for tomado por teu completo abandono?
E Deus sabe que tua vida se transformou em tumba,
Sem deixar entrever sequer a metade de teu ser.
Se eu pudesse descrever a beleza dos teus olhos,
E enumerar infinitamente todos os teus dons,
O futuro diria, este poeta mente,
Tanta graça divina jamais existiu em um ser.
Podem os papéis amarelados em que escrevo
Serem desprezados como os velhos falastrões,
E tuas verdades poriam fim à ira deste poeta,
E prolongariam o som de uma antiga canção:
Mas, se um filho teu vivesse, então,
Viveria duas vezes – nele e em meu canto.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Thereza Christina Roque da Motta

Hypatia

Alfred Seifert - Hypatia
“Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e sua base era em Alexandria”. Apesar das grandes chances de florescer, ela decaiu. Sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. Seu nome era Hipátia. Hipátia (370-415), filha de Theron, era uma cientista, matemática, astrônoma, líder da escola de filosofia neoplatônica e diretora da Biblioteca de Alexandria. Cirilo, o arcebispo de Alexandria, a odiava por ela ser um símbolo da ciência e da cultura que, para a igreja, representavam o paganismo. Ela continuou seu trabalho apesar das ameaças até que, no ano de 415, foi cercada pelos monges e paroquianos de Cirilo, despida e esfolada até a morte com cacos de cerâmica. Seus restos foram queimados, suas obras destruídas e Cirilo foi canonizado.

19 de novembro de 2015

Mundo Cruel

Vincent van Gogh
Esquisito uns querendo mudar os outros outros
Mais ainda buscando se tornar o que não são
Presos na sua ideia que lá lá a lá se faz
Pode não, cria corvos corvos se fazem

Como lidar com tanta diferença, como?
Estigmatizar não resolve, é mais fácil
Mas resolver não resolve! Educar
Misturar miscigenar namorar esse é o ponto,

Ponto que se confunde no transigir
Com mão forte dose certa Eta!
Mas se fosse fácil não te chamava
Cria corvos corvos criam ninhos...

Glauco Soares

18 de novembro de 2015

Mofadores

Ohara Koson
Zombai, zombai, Voltaire, Rousseau!
Zombai, zombai: tudo, porém, em vão!
Vós atirais a areia contra o vento,
E o vento a sopra na sua direção.

E cada areia torna-se uma gema
Refletida nos raios divinais;
Sopradas, cegam o olho do zombador,
Mas nas trilhas de Israel cintilam mais.

Tanto os átomos de Demócrito
Quanto as partículas de Newton são
Areias onde, junto ao Mar Vermelho,
Fulgem as tendas de Israel com tal clarão.

William Blake (1757-1827)
Tradução: Paulo Vizioli

Quando pela primeira vez...

Marianne von Werefkin
Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira
dei alguns passos atrás instintivamente
sobre os calcanhares
procurando o local exato de
onde pudesse explorar sua profundidade.

Foi diferente com as pessoas:
Construí-as,
amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.
Nenhuma chegou tão alto quanto o teto azul.
Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico
por cima delas,
por vez do telhado
no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.

Luljeta Lleshanaku
Tradução: William McGregor Paxton