31 de outubro de 2015

Voz do Sangue

Kalidou Kassé
Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas africas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

::::::::: Agostinho Neto (1922-1979) ::::::
Nesse poema, o líder angolano Agostinho Neto, na década de 1940, evoca o pan-africanismo com o objetivo de conclamar as populações negras de diferentes países a apoiar as lutas por igualdade e independência, em meados do século XX, contexto dos processos de descolonização da África.

Mundos Extintos

“São tão remotas as estrelas que, apesar da
vertiginosa velocidade da luz, elas se apagam,
e continuam a brilhar durante séculos”.
John William Waterhouse
Morrem os mundos... Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da altura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...

Mas, para nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias...
Pelos séculos em fora a luz fulgura

Traçando-lhes as órbitas vazias.
Meus ideais! extinta claridade –
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos
Da minh’alma a revolta imensidade...

E sois ainda todos os enganos
E toda a luz, e toda a mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos...(*)

Euclides da Cunha (1866-1909)
Nota:
(*) O poema é datado de 1886 e o poeta nasceu em 1866,
momento em que, portanto, tem vinte anos.

30 de outubro de 2015

E. G. de la S.

René Burri - Che Guevara
Durante uns tempos milhares usaram o seu pequeno boné
e multidões desfilaram com retratos seus
em grande formato, gritando bem alto o seu nome.
Agora, aqueles cortejos pela City quase parecem irreais,
como o país e a classe que o viram nascer.
Longe dos matadouros e das barracas e dos bordéis
ia-se desfazendo a casa do pai, junto ao rio.
O dinheiro fora-se, mas a piscina ficou. Um rapazinho tímido,
alérgico, muitas vezes quase a sufocar. Em luta com o seu corpo,
fumando charutos, fez-se homem.

(o que isso seja, não é história para aqui).

Debaixo do travesseiro: Júlio Verne. O seu primeiro ataque,
a sua primeira fuga para a realidade: “Tristes Trópicos”.
Mas os leprosos, debaixo da varanda podre no Amazonas,
não entendiam o que ele dizia, e continuavam a morrer. Só então
ele descobriu o inimigo que lhe seria fiel até ao fim,

e o inimigo do inimigo. Depois das primeiras vitórias, começou a ver
como coisa muito nova o Novo Homem, uma velha ideia. A economia, porém,
não dava ouvidos aos seus discursos. O spaghetti continuava a faltar.
A pasta dentífrica também tinha acabado — e de que é feita a pasta dentífrica?
As notas de banco que assinava não tinham valor.

O açúcar pegava-se à camisa. Máquinas, pagas a peso de ouro,
enferrujavam nos cais. La Rampa andava cheia de boatos.
Lambidela de botas em Moscovo, novos créditos. O povo ia para a fila,
não oferecia segurança, contava anedotas esfomeadas. Por toda a parte bufos,
intrigas que nunca conseguiu entender. Um eterno estrangeiro.

Quis pregar moral aos Russos. O amigo dos homens
clamava pelo ódio que há de transformar o homem
numa máquina de morte, violenta, certeira e fria.
No fundo, uma mimosa: a sua leitura preferida eram poemas
(sabia Baudelaire de cor).
Fraco e delicado, os serviços secretos chamavam-lhe um figo.

E assim se refugiou nas armas, para ficar onde tudo era claro
e inequívoco, o inimigo e a traição: na selva.
Mas ele próprio parecia estar perto do fim.
Rosto cheio, sem barba, as fontes grisalhas,
óculos de lentes grossas, como um caixeiro-viajante, de “canadiana“, assim
disfarçado, em Nancahuazú, saiu para a sua última missão.

Não falava Quechua nem Guarani. O silêncio dos índios
era absoluto, como se viéssemos de um outro mundo. Insetos
lianas, mato rasteiro. Os camponeses como pedras. Cólicas,
ataques de tosse, edemas. Doses maciças de cortisona, adrenalina.
A última injeção, já ofegante: Ave Maria puríssima!

E logo a lenda se espalhou como espuma. Somos já super-homens, invencíveis.

(Sempre esta fatal ironia, de que os camaradas se não apercebem.)

Um farrapo humano, um ídolo.
Nós ter-lhe-íamos dado um lugar, anunciavam os mais progressistas
de entre os seus inimigos mortais. Em vez disso, puseram
em exposição o seu cadáver com as mãos decepadas. Uma aventura mística, e
uma paixão que lembra irresistivelmente a imagem de Cristo:
isto escreveram os seus adeptos. Ele: Les honneurs, ça m’emmerde.
Não foi há muito tempo, e já esquecido. Só os historiadores
se instalam como as traças no pano do seu uniforme.

Buracos na guerra popular. De resto, na metrópole, só já
uma boutique fala dele, com o nome que lhe roubou.
Na Kensington High Street acende-se o brilho dos pauzinhos de incenso;
sentados junto da caixa registradora, os últimos hippies, entediados,
irreais, como fósseis, e abúlicos, e quase imortais.

O texto interrompe-se, e tranquilamente continuam a afluir as respostas.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: João Barrento

29 de outubro de 2015

Mistério

Cornelius Krieghoff
Ah o crepúsculo, o cair da noite,
o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do "Sentimento de um Ocidental"!
Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Umedece interiormente o instante lento e longínquo!
Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar...

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)
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Assim Falava Zaratustra

Rafael Sanzio - Zoroastro
Pretendente à verdade? Tu? — escarneciam —
Não! Apenas um poeta!
Um animal, e astuto, rapinante, furtivo,
Que tem de mentir,
Que tem, ciente e voluntariamente, de mentir:
Cobiçando a presa,
Mascarado de várias cores,
Máscara para si próprio,
Para si próprio presa…
Isto, o pretendente à verdade?
Não! Apenas louco! Apenas poeta!
Proferindo só discursos confusos,
Gritando desordenadamente por detrás de máscaras de bobo,
Andando por cima de mentirosas pontes de palavras,
Por cima de arco-íris multicolores,
Entre falsos céus e falsas terras,
Vagueando, pairando por aí…
Apenas louco! Apenas poeta!

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
Tradução: Paulo Osório de Castro

28 de outubro de 2015

Flor

Henri Matisse
A flor receia a morte?
Toca-a? Cheira-a?
Devolve o seu perfume
à ondulação profunda?

Vira-se para a luz.

A morte é a flor
quando se abre.

Jeannette Lozano
Tradução: Inês Dias

A Arte no Século XXI: A Humanização das Tecnologias

Pintura de Picasso atualizada com gadgets do século 21
Segundo Domingues "a produção artística sintonizada com os avanços tecnológicos, revelando os aspectos humanos das tecnologias" nos proporcionam novas maneiras de ver e entender a arte, fator determinante na vida do homem contemporâneo.
Uma das maiores revoluções da humanidade nos últimos 20 anos se deu por intermédio dos computadores. A informática saiu das empresas (e de seus grandes, pesados e lentos mainframes de vários andares de tamanho) e entrou na vida cotidiana, invadindo os lares e nos últimos anos sofrendo mais uma metamorfose – inserindo-se de forma portátil na sociedade (com handhelds, celulares, MP3 Players, por exemplo).
Entretanto, também tivemos outras revoluções. Uma delas – provavelmente tão importante quanto a informática ou mais – é de cunho social, e é tão complexa que não pode ser definida em poucas palavras. Talvez pudéssemos arriscar uma simplificação dizendo que a principal característica da sociedade do novo milênio é a diversidade – seja ela de caráter sexual, social, político ou religioso. Radicalismos sempre existiram e sempre existirão, mas em toda a história da humanidade não se tem registro de um período tão rico em diferenças, na diversidade de opções de todos os tipos para todos os caminhos.
Isso nos levará a uma enxurrada de conceitos cada vez mais discutidos hoje (que vão de ideias novas como copyleft e manipulação de células-tronco a temas mais antigos com nova roupagem, como marketing pessoal e a ideia de “agregar valor” às coisas, por exemplo), mas ainda pouco estudados devido ao seu caráter de novidade. Vivemos em tempos fluidos: conceitos surgem e desaparecem, e a rapidez com que isso ocorre hoje nos leva a achar que não há nenhum critério nisso. Será mesmo que não?
Todo caminho tem um começo: não é tão difícil assim entender como chegamos até aqui. Esta última aula tem como objetivo iniciar um mapeamento desse território da nova arte do século XXI – mas não fecha caminhos, apenas propõe novas investigações.

27 de outubro de 2015

Primavera

John William Waterhouse
Despertam docemente as brisas.
Sopram serenas, noite e dia,
por toda a parte a sussurrar.
Aroma tenro, nova melodia.
Agora, pobre coração, reanima-te:
Agora tudo, tudo mudará.

Faz-se o mundo mais belo cada dia.
Se o momento presente é tão feliz
o amanhã que surpresas não trará!
Floresce ao longe o vale mais sombrio.
Agora, pobre coração, esquece a mágoa
Agora, tudo, tudo mudará.

Johann Ludwig Uhland (1787-1862)
Tradução: Henriqueta Lisboa

Campo largo, Campo maior

Marianne Millar - Dancin 'Til Dawn
A Francisco Pereira da Silva
Fascinam-me os levantes da alvorada.
No alpendre da casa adormecida
a rede traz o dia e o despedaça
na garganta dos galos-de-campina.

As árvores se esbatem na neblina.
Chifres riscam os ventos da chapada.
Choram bois no curral. Vaqueiros leves
pulam no dorso dos cavalos bravos.

Pisadas pelo gado e pelas gentes
miúdas flores do chão morrendo cheiram,
no pedregulho ruivo ressuscitam.

Riachos vão brotando por aí.
E na mão da menina uma cutia
se junta arisca a um nambu que chora.

Odylo Costa Filho (1914-1979)

26 de outubro de 2015

Classe Média dos Azuis

Janet Hill
Nós não temos nada a reclamar.
Nós temos o que fazer.
Nós estamos servidos.
Nós estamos comendo.

A grama cresce,
A curva do PIB,
A unha,
As épocas passadas.

As ruas estão vazias.
As planilhas de balanço perfeitas.
As sirenes se calam.
Aquilo passa.

As pessoas falecidas fizeram seu testamento.
A chuva diminuiu.
A guerra ainda não está declarada.
Aquilo não tem pressa.

Nós comemos a grama.
Nós comemos o PIB.

Nós comemos as unhas.
Nós comemos as épocas passadas.

Nós não temos nada a ocultar.
Nós não temos nada a perder.
Nós não temos nada a dizer.
Nós temos.
A corda do relógio está ajustada.
As condições estão bem definidas.
A louça está lavada.
A última condução está passando.

Ela está vazia.
Nós não temos nada a reclamar.
Nós estamos esperando o que afinal?

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: Markus J. Weininger e Rosvitha Friesen Blume

Os Grandes Deuses...

Fra Angelico
Os grandes deuses ora dormem,
Envoltos numa nuvem cinza;
Escuto como roncam forte,
A tempestade se aproxima.

Que tempo atroz! A tempestade
Quer destroçar a embarcação -
No vento e no escarcéu quem há de
Pôr sela, arreio e bridão?

Não tenho culpa se a procela
Empurra os barcos para o fundo,
Então me enrosco nas cobertas
E, como um deus, enfim eu durmo.

Heinrich Heine (1797-1856)
Tradução: André Vallias

25 de outubro de 2015

FICAR, À SOMBRA

Dmitry Borisov
Ficar, à sombra
da cicatriz no ar.

Não-estar-a-favor-de-ninguém-e-de-nada.
Desconhecido,
para ti
apenas.

Com tudo o que tem espaço aí,
mesmo sem
linguagem.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: Marco Antonio Casanova

Trechos de "O Homem Revoltado"

Henri Serrur
“Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes”.

“Cada qual procura fazer de sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor dure e sabemos que ele não dura; se até mesmo, por milagre, ele tivesse que durar toda uma vida, estaria ainda incompleto. Talvez, nesta insaciável necessidade de durar, compreenderíamos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar Na falta de uma felicidade inesgotável, um longo sofrimento constituiria ao menos um destino. Mas não é assim, e nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade”.
Albert Camus (1913-1960)
em: O Homem Revoltado.
Tradução: Valerie Rumjanek
6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. P. 298-302.

24 de outubro de 2015

Eixos

Modelo da Terra por Copérnico
Ver é estoutra aflição, expiada
Na dor de ser visto: o dito,
O visto, contidos na recusa
De falar, e de uma só voz a semente,
Sepultada no acaso de uma pedra.
Nunca as minhas mentiras me pertenceram.

Paul Auster
Tradução: Rui Lage

Viagem ao Oeste

Loren Adams:
Houve um tempo de descobertas −
Para os promontórios que assomam além da
Primeira luz, a ressaca do mar e o
Pio das gaivotas: para a curva da
Costa norte em segredo.

Passado é esse tempo.
As últimas terras foram povoadas.
Os oceanos são agora conhecidos.

Señora: uma vez que todos os mapas têm sido elaborados
Um homem estaria melhor morto do que à procura de novos continentes.

Seria preferível que um homem jamais houvesse nascido
A encontrar flores sobre o oceano aberto
Distanciadas de ilhas onde não existem ilhas,

Ou à meia-noite, sem qualquer terra à vista,
Cheiro no ar a alterar o olor do alecrim.

Nenhuma ventura supera esse infortúnio –

Erguer-se acima da noite celeste,
Certa como o sol e o mar, uma recém-descoberta terra,
Escarpada a partir de um oceano de onde seja impossível avistá-la.

Archibald MacLeish (1892-1982)
Tradução: J. A. Rodrigues

23 de outubro de 2015

Prazeres

Albert Anker
O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialética
Tomar ducha, nadar
Velha música
Sapatos cômodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertolt Brecht (1898-1956)
Tradução: Paulo Quintela

Fragmento: Da Natureza das Coisas

Sir Frank Bernard Dicksee
Ó infelizes mentes dos homens, ó corações cegos!
Em que tenebrosa existência
e em quantos perigos se passa
esta breve vida! Então não veem que a natureza
nada reclama para si, com impetuosos gritos,
senão que a dor fique afastada
do corpo e que se usufrua
de uma mente livre de cuidados e do medo,
com um sentimento de prazer?
Portanto, vemos que poucas coisas são absolutamente necessárias
à natureza do corpo: todas as que eliminam a dor
e também as que possam proporcionar muitos deleites.

Tito Lucrécio Caro (99 a.C. – 55 a.C.)
Tradução: Luís Manuel Gaspar Cerqueira
Da Natureza das Coisas [De rerum natura]

22 de outubro de 2015

Salmo Perdido

John August Swanson – Salmo 85
Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade.
Um deus moderno, deus de guerra e, não, de paz.

Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.

O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.

Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.

Dante Milano (1899-1991)

Insônia

Edward Hopper
A lua no espelho da cômoda
está a mil milhas, ou mais
(e se olha, talvez com orgulho,
porém não sorri jamais)
muito além do sono, eu diria,
ou então só dorme de dia.

Se o Mundo a abandonasse,
ela o mandava pro inferno,
e num lago ou num espelho
faria seu lar eterno.
— Envolve em gaze e joga
tudo que te faz sofrer no

poço desse mundo inverso
onde o esquerdo é que é o direito,
onde as sombras são os corpos,
e à noite ninguém se deita,
e o céu é raso como o oceano
é profundo, e tu me amas.

Elizabeth Bishop (1911-1979)
Tradução: Paulo Henriques Brito

21 de outubro de 2015

Disciplina Augusta

Henri Lebasque
Não tenho filhos e não o lamento. Sem dúvida, nas horas de fadiga e de fraqueza, em que nos renegamos a nós próprios, acusei-me por vezes de não ter procriado um filho que me continuasse. Mas esse desgosto tão vão baseia-se em duas hipóteses igualmente duvidosas: a de que um filho forçosamente nos prolonga e a de que este estranho amontoado de bem e de mal, esta massa de particularidades ínfimas e bizarras que constitui uma pessoa mereça ser prolongado. Utilizei o melhor que pude as minhas virtudes; tirei partido dos meus vícios; mas não tenho especial empenho em legar-me a alguém.
Marguerite Yourcenar (1903-1987)
Tradução: Maria Lamas

Imaginação Humana

Toulouse Lautrec
A imaginação humana é imensamente mais pobre do que a realidade. Se pensamos no futuro, vemo-lo sempre desenvolver-se segundo um sistema monótono. Não pensamos que o passado é um multicolor caos de gerações. Isto pode também servir para nos consolar dos terrores causados pela «barbárie técnica e totalitária» do futuro. Nos cem anos mais próximos poderá produzir-se uma sequência de, pelo menos, três momentos, e o espírito humano poderá, sucessivamente, viver na rua, na prisão e nos jornais.
O mesmo se pode dizer do futuro pessoal.
Cesare Pavese (1908-1950)
Tradução: Alfredo Amorim

20 de outubro de 2015

Mar sem Caminhos

Amedeo Modigliani
Feliz aquele que um dia, depois de ter sulcado
os mares do planeta e de ter conhecido
a terra desolada, a noite dos homens,
cansado se dirige para uma pátria pobre
que é herança e conquista:

Uma pátria no seu peito, onde o amor e o ódio
ancoraram com lendas e habitaram o mundo,
e foram para sempre o centro das sãs obras
e dos seus pensamentos: uma pulsação ignorada,
ainda que firme e profunda.

E agora que o sabe, medita e já não sofre.

Vicente Valero
Tradução: Joaquim Manuel Magalhães

Os Efeitos da Televisão

Graham Round
“É urgente reconhecermos os espaços de encontro que podem nos salvar de ser uma multidão massificada assistindo isoladamente à televisão. O paradoxal é que essa tela nos dá a sensação de estarmos ligados ao mundo inteiro, quando na verdade ela nos rouba a possibilidade de convivermos de forma humana e, o que é igualmente grave, nos predispõe à abulia. Tenho dito em muitas entrevistas, em tom de ironia, que “a televisão é o ópio do povo”, alterando a famosa frase de Marx. Mas de fato acho que estamos ficando entorpecidos diante da tela, e mesmo quando não encontramos nada do que procuramos, continuamos lá, incapazes de nos levantar e ir fazer algo de bom. Ela nos tira a vontade de trabalhar em algum artesanato, de ler um livro, de fazer um conserto na casa enquanto se escuta música ou se toma um mate. Ou de ir ao bar com um amigo, bater um papo com alguém da família. É um tédio, um fastio a que nos acostumamos “por falta de coisa melhor”. Ficar monotonamente sentado diante da televisão anestesia a sensibilidade, torna a mente lerda, prejudica a alma”.
Ernesto Sabato (1911-2011)

19 de outubro de 2015

Gelo, Éden

Malika Favre
Num País Perdido andou
a lua pelo juncal,
e o que conosco gelou
vê e arde como um sol.

Vê, tem olhos como os mais,
dois mundos claros de esperança.
Noite, noite, pantanais,
vê, tem olhos, a criança.

Vê, vê, nós estamos a vê-lo,
vejo-te a ti, tu a mim.
Ressuscitará o gelo
antes da hora do fim.

Paul Celan (1920-1970)
Tradução: João Barrento

Salomé

Pierre Bonnaud - Salome
(...) Por que não me olhas, Iocanaan¹? Teus olhos, que eram terríveis, tão cheios de ódio e escárnio, estão fechados agora. Por que estão fechados? Abre-os! Ergue as pálpebras, Iocanaan! Por que não me olhas? Estás com medo de mim, Iocanaan, e por isso não me olhas? E a tua língua, que era como uma serpente vermelha expelindo veneno, não se move mais, nada diz agora, Iocanaan, aquela víbora vermelha que cuspilhava veneno contra mim? É estranho, não? Como é que a víbora vermelha já não se move?... Consideraste-me ninguém, Iocanaan. Desprezaste-me. Pronunciaste ignóbeis palavras contra mim. Trataste-me como uma meretriz, uma dissoluta, a mim, Salomé, filha de Herodíade, princesa da Judéia! Bem, Iocanaan, eu estou viva; mas tu estás morto e tua cabeça me pertence (...)
Oscar Wilde (1854-1900)

¹Iocanaan = João Batista

18 de outubro de 2015

Fantasma

Kathy Ostman-Magnusen
Ele se ergue de seus hóspedes, abruptamente parte,
Por causa da memória de outros que, longas luas atrás,
Haviam com ele ceado, e se aflige
Porque essas novas pessoas, ele deve saber,
Podem não ter amado seus fantasmas, seu morto desconhecido.
Há novos sorrisos, novas respostas para seus gracejos;
Mas há intervalos nos quais, ao enunciar
O mesmo que sua mesa de jantar afirma, ele ouve lábios defuntos...
Os mortos têm meios de se fundir aos usos
Da vida que deixam para trás, os mortos até podem
Levantar-se quando o jantar está pronto. Mas um deles se nega
A ir embora e o fita com olhos inertes
Penetrando-o mais agudamente do que uma chuva é capaz de o fazer,
Deixando-lhe somente o movimento, apenas a fala.

Witter Bynner (1881-1968)