30 de setembro de 2015

Pela Noite Concedias-me O Favor

Henri Matisse
Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria «Abençoada sejas!»
Sabendo como pretensiosa era a bênção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.

Arseni Tarkóvski (1907-1989)
Tradução: Paulo da Costa Domingos

Mistério

Claude Monet
Os montes têm segredos escondidos. Sobretudo das bases emitem vibrações dos Leões da Grande Mãe. Da descida aos vales misteriosos (peixes) de uma erva extremamente escura e macia. Um leão familiar como no soneto de Antero. Uma mulher muito bela sob o seu véu, templos a borbotar de palmeiras nos terreiros. E nós…
E observo a luz que se dilata sob as nuvens perspicazes. Ou se contrai na contraluz do monte que brilha o sol poente. A atmosfera que se escapa fresca de onde estou. Assim me posso renovar.
Alexandre Vargas

29 de setembro de 2015

Venho do Mar

Ivan Konstantinovich Aivazovsky
Venho do mar
Venho dos montes
Sê amiga do meu repouso

Se apeteço ser rei
Ter um barco e um cão
E dos meus amigos ser amigo

Sê benigna
Se me amas.

António da Costa (1824-1892)

Resumo

Vincent van Gogh
Vivemos de não ser... De ser morremos.
Somos projeto em tudo enquanto somos.
Projeto de esperança no desejo;
e, quando possuímos o esperado,
projeto de evasão, sede de abandono.
No jovem trigal, o verde é sempre
ansiedade da espiga. Acaba em ouro.
Mas onde começa tudo quando acaba?

Vivemos de inventar o que não somos.

Em contrapartida, este magnífico absoluto
do que já não sofre desgaste,
do que já não podem
modificar nem o tempo nem o olvido,
esta sólida porção
de vida inalterável que é a morte
como nos subscreve e nos define
e nos revela e nos expõe em tudo!

Vivemos somente de crer no que fomos.
Sempre seremos póstumos.

Jaime Torres Bodet (1902-1974)

28 de setembro de 2015

Piedade Corações Duros

Jaynes Gallery
Piedade, piedade corações duros
Piedade para o pássaro migrador
Que perdeu uma asa em pleno voo.
Piedade para o cigano órfão
Que jogou às cartas
Sela e cavalo
E se suicidou na prisão.
Piedade para o jovem Ninguém
Morto na China
Ou em outro qualquer lugar
Clima raça condição.
Piedade para o que morre de pé
No seu quarto de aluguel.
Piedade para o que cai
Piedade para o que se deixa cair.
Piedade, piedade corações duros
Vós que estais sempre sentados
E sabeis pelos jornais
A morte dos outros.

Raffaele Carrieri (1905-1984)
Tradução: Albano Martins

Ulisses

Peter Paul Rubens
Na minha juventude naveguei
ao longo das costas da Dalmácia. À flor das ondas
cobertas de algas, viscosas, belas
como esmeraldas ao sol, emergiam ilhotas,
onde raramente um pássaro pousava
à espreita da presa. Quando a maré
alta e a noite as submergiam, velas
a sotavento guinavam mais ao largo,
para escapar à cilada. Hoje o meu reino
é essa terra de ninguém. O porto
acende as suas luzes para outros; a mim
impele-me ainda para o largo o espírito indomável
e o doloroso amor da vida.

Umberto Saba (1883-1957)
Tradução: Albano Martins

27 de setembro de 2015

Ar de Noturno

Edward Hopper
Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho ?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !
Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Federico Garcia Lorca (1898-1936)
Tradução: William Agel de Melo

26 de setembro de 2015

A Paixão

Walter Crane
Messias anunciado e do Céu predileto!
Tu que és Filho de Deus e Rei do mundo todo,
Filho da minha crença e meu primeiro afeto,
Sofres dos maus, assim, o repelente apodo?

Tens o Teu coração de bondade repleto
De perdões e de fé, de audácias e denodo;
E eu vejo assim na terra, o Teu divino aspecto
Maculado de sangue e coberto de lodo!...

Será possível, Deus! Pai da suprema graça!
Que assim deixes passar pela dura agonia
Porque Meu Filho, o Teu, por entre os homens passa!?...

E nisto, a Virgem-Mãe, cujo olhar irradia,
Tem nos olhos a dor e a dúvida a traspassa!...
— Era o segundo olhar dos olhos de Maria!... —

Emílio de Meneses (1866-1918)

Interior

Pierre Bonnard
Poeta dos trópicos, tua sala de jantar
é simples e modesta como um tranquilo pomar;

no aquário transparente, cheio de água limosa,
nadam peixes vermelhos, dourados e cor de rosa;

entra pelas verdes venezianas uma poeira luminosa,
uma poeira de sol, trêmula e silenciosa,

uma poeira de luz que aumenta a solidão.

Abre a tua janela de par em par. Lá fora, sob o céu de verão,
Todas as árvores estão cantando! Cada folha
é um pássaro, cada folha é uma cigarra, cada folha é um som...
O ar das chácaras cheira a capim melado,
a ervas pisadas, a baunilha, a mato quente e abafado.

Poeta dos trópicos,
dá-me no teu copo de vidro colorido um gole d’água.
(Como é linda a paisagem no cristal de um copo d’água!)

Ronald de Carvalho (1893-1935)

25 de setembro de 2015

Sonho

Tamara de Lempicka
Ardem os campos
o lago bebe brasas
chove cinza na aldeia
sem estrelas a noite dilui-se
nenhuma pedra fala
em silêncio levanta-se o vento

escapei
recordo que esqueci.

Eva Christina Zeller
Tradução: Maria Teresa dias Furtado

Posto de Gasolina

Jim Pearson: Texaco
Ah, mas como ele é sujo!
– esse posto de gasolina,
impregnado de óleo,
até ficar de um negrume
transluzente, assustador.
Cuidado com esse fósforo!

O pai usa um macacão
sujo, impregnado de óleo,
que o aperta nas axilas,
e o ajudam vários filhos
respondões, rápidos, sujos
(o posto é de uma família),
de graxa, todos imundos.

Será que moram no posto?
Atrás das bombas se vê
uma varanda de cimento,
com mobília de palhinha
amassada e suja de graxa;
no sofá, um cachorro
bem sujo se refestela.

Há revistas em quadrinhos –
o único toque de cor
bem definida – largadas
sobre o caminho de mesa
que enfeita um banquinho (o qual
combina com os outros móveis),
e uma begônia hirsuta.

Por que essa planta deslocada?
Por que o banquinho? Por quê,
por que o caminho de mesa?
(Bordado em ponto de cruz
com margaridas, creio eu,
e um pesado crochê cinzento.)

Alguém bordou esse pano.
Alguém põe água na planta,
ou óleo, sei lá. Alguém
dispõe as latas de modo
a fazê-las sussurrar:
ESSO-SO-SO-SO
pros automóveis nervosos.
Alguém nos ama, a nós todos.
Elizabeth Bishop (1911-1979)
Tradução: Paulo Henriques Britto

24 de setembro de 2015

As Minhas Sombras

Ao José d 'Albuquerque Alvares Pikho
Edward Hopper - Cinema
Ó sombras que durante a noite me falais,
Quando penso e não sei porque a este mundo vim!
ó vós, que a minha Noite imensa povoais,
Qual o corpo que vos projeta junto a mira?...

Donde dimana a luz estranha que vos cria?
Quem sois vós, quem sois vós, ó sombras bem amadas.
Donde um grande esplendor que ofusca se irradia
Como dura horizonte a luz das madrugadas?

Ó Sombras que morreis na claridade ansiosa
Do meu nevoento olhar distante, que desmaia.
Como vem falecer uma onda harmoniosa
No meu ouvido, que é uma longínqua praia...

Quem sois vós, quem sois vós, vagas sombras perdidas
Que me livrais do Sol, do meu grande inimigo?
Quem sois vós, quem sois vós, fantasmas doutras vidas
Que me falais se eu ando, à noite, só comigo?

Ó Sombras com quem vou, à noite, conversar,
Vós vindes até a mim para eu vos conhecer!
Sereis da minha dor um pálido luar.
Um reflexo do que arde em mim, sem ela saber?...

Soa como os doidos, como os vermes que só amam
A noite, que o meu vago Ideal tanto parece!
Quantas vozes, meu Deus, que de dia não chamam,
E quanto dia só à noite é que amanhece!
A noite 6 para mim uma estranha alvorada,
Nuvem, filha da Luz, que é um grande mar sem fundo...
E, se deixa esta Terra em trevas sepultada.
Que dia, que esplendor não é para outro mundo!

Noite, tu és a luz do mundo que eu habito...
Indefinido mundo, assim como um clarão.
Que, num amor, percorre esse azul infinito
Que existe para além da nossa Aspiração.

Onde tudo termina é que ele principia;
O espaço é um seu limite, a luz, o som, a cor...
É vago como a alma etérea da harmonia
Que se exala do seio imaterial da Dor...

Sombras, vós sois o Sol do mundo misterioso,
Onde minh'alma vive a sua eternidade;
E embora seja, para os outros, nebuloso,
É esse Sol a verdadeira Claridade!

Sois o infinito Amor, o puro olhar de Deus,
ó Sombras que durante a noite me apareceis!
Vós sois a Luz que existe além da luz dos céus
E donde todas vós, estrelas, descendeis...

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

23 de setembro de 2015

O Poeta tem o dom de Mobilizar

Emilia Kowalczyk
Ao contrário, não existe um só elemento da poesia que seja copiado do exterior. Nenhuma das suas criações recorre a um instrumento, ou à mão do homem; olhos e ouvidos nada podem detectar, pois a audição pura e simples das palavras não consegue esgotar os efeitos dessa arte secreta. É uma arte toda interior; e se os demais artistas cumulam os nossos sentidos de impressões exteriores assaz agradáveis, o poeta, esse enriquece de ideias novas, feéricas e deleitosas o santuário íntimo da nossa alma. O poeta tem o dom de mobilizar, a seu belo prazer, as forças secretas que nos habitam, e revelar-nos, através da palavra, todo um mundo grandioso e desconhecido. Como que surgidos de profundas cavernas, perpassam-nos pelo espírito os séculos passados e os séculos vindouros, a humanidade inteira, os sítios mais maravilhosos e os mais extraordinários acontecimentos, tudo quanto é susceptível de nos arrancar à banalidade do presente. Escutamos uma linguagem desconhecida e, contudo, percebemos o que quer dizer. Verdadeiro poder mágico emana das palavras dos poetas; mesmo as palavras banais adquirem na sua boca, uma estranha sonoridade, conseguem cativar os que as escutam, com todo o embriagador encanto.
- Com o que acabam de dizer, a minha curiosidade tornou-se uma ardente impaciência- disse Heinrich. - Suplico-vos que me conteis tudo o que souberdes acerca dos trovadores que ouvistes. Sinto um desejo insaciável de saber tudo quanto se relacione com esses seres de eleição. Tive, de repente, a impressão de já ter ouvido falar deles, mas não sei quando, talvez nos tempos da infância: não consigo lembrar-me de nada, de nada, absolutamente. No entanto, o que me dizeis parece-me perfeitamente claro e familiar-já não falando no real prazer que me dão com as vossas belas descrições...
Novalis - Freiherr von Hardenberg (1772-1801)

22 de setembro de 2015

Rosa

Jules Alexis Muerier
Rosa, em teu trono, pra os da Antiguidade
era um cálice com um bordo simples.
Mas para nós és a flor plena, inumerável,
o objeto inesgotável.

Pareces na opulência trajo sobre trajo
a envolver um corpo de nada mais que brilho;
mas cada pétala tua é a um tempo só
fuga e negação de toda a roupagem.

De há séculos teu perfume nos proclama
os seus nomes de maior doçura;
de súbito, paira no ar como uma glória.

No entanto, não sabemos nomear, adivinhamos...
E para ele passa a lembrança
que pedimos às horas invocáveis.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Paulo Quintela

Como Secar as Palavras

Catrin Welz-Stein
Como secar as palavras
se elas entornam de minhas mãos
indiferentes ao meu gesto controlador?
E como controlar as lágrimas, como fazê-lo?
se elas insistem em brotar como filetes de água
se anunciando cachoeiras ridículas, prestes a
desaguar rio acima?
Como ressecar os sentimentos
que umedecem a minha alma e parecem brotar
de novo
do pano de chão com que as esfrego, cônscio
da inutilidade do ato?
Difícil é o ofício, disse o poeta.
Mas viver, meu Deus!, também
como é difícil!

Hermínio Bello de Carvalho

21 de setembro de 2015

Não fales do visível e do invisível

Robert Vonnoh
Não fales do visível e do invisível,
da luz que em cada dia recria o mundo
do ouro das papoilas
do sangue dos trigais.

Mostra o direito e o avesso
com uma única palavra:
a opacidade da tua fala.

o poema detém
esta escrita
não escrita
Antoni Clapés
Tradução: Egito Gonçalves

Consciência moral na educação cristã

Caspar David Friedrich
“Na verdade, Kant dizia que, juntamente com o céu estrelado, a consciência moral era uma das duas coisas que o deixavam maravilhado; mas a maravilha não só não é uma explicação, mas pode até derivar de uma ilusão e gerar, por sua vez, outras ilusões. O que nós chamamos de consciência moral, sobretudo em função da grande (para não dizer exclusiva) influência que teve a educação cristã na formação do homem europeu, é algo relacionado com a formação e o crescimento da consciência do estado de sofrimento, de indigência, de penúria, de miséria, ou, mais geralmente, de infelicidade, em que se encontra o homem no mundo, bem como ao sentimento da insuportabilidade de tal estado.”
Norberto Bobbio (1909-2004)

20 de setembro de 2015

Espaço

Irene Sheri
Ainda há espaço
para um poema

Ainda é o poema
um espaço

Onde se pode respirar

Rose Ausländer (1901-1988)
Tradução: Antonio Cícero

A Carlos Drummond de Andrade

Huile de Diane Leonard
Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

19 de setembro de 2015

Dorso de Anjo

Leonardo da Vinci
Em sonhos rua que encanta
e uma trombeta irreal
mentiras são que levanta
um anjo celestial.

Que seja sonho ou não seja,
logo a mentira se afunda,
se a gente de cima o veja,
que todo o anjo é corcunda.

Pelo menos é-o a sombra
na parede do meu quarto.

Jean Cocteau (1889-1963)
Tradução: Jorge de Sena

Olhando a Primavera

Gustav Klimt
O país em ruínas
Rios e colinas permanecem
Cidades na Primavera
Árvores e folhas renascem.

Tempos assim
Tiram lágrimas das flores.
Separado do seu par
Treme o coração da ave.

Os fogos da guerra
Já juntaram três luas.
As novas de casa
Valem agora uma fortuna.

Uma velha cabeça grisalha,
A cada infortúnio dilacerada.
E o cabelo que rareia
Já nem o alfinete o segura.

Du Fu (712-770 d.C.)
Tradução: Gil de Carvalho

18 de setembro de 2015

Metamorfoses, Livro XII, 393-428.

Gagik Maoukian
“… Nem a tua formosura, Cílaro, te salvaguardou do combate (se na verdade, admitimos que tal natureza tem formosura). A barba despontava e era da cor do ouro, e da cor do ouro os seus cabelos caíam dos ombros até meio das omoplatas; no rosto, um vigor encantador; a nuca, os ombros, as mãos, o peito e tudo aquilo que nele humano era, assemelhava-se às estátuas aplaudidas de um escultor. A sua parte equina era irrepreensível, não inferior à humana: dá-lhe pescoço e cabeça, e seria digno de Castor. Tão apropriado à sela é o seu dorso, tão robusto e musculoso é o peito. É todo negro, mais negro que negro pez, mas alva é a cauda, e de cor alva as patas. Muitas da sua raça suspiraram por ele, mas só Hilomene o arrebatou: fêmea mais deslumbrante entre aqueles seres meio amimais jamais habitou nas profundezas das florestas. Foi a única que conquistou Cílaro, com carícias, com amor e declarações de amor. E procura também arranjar-se, tanto quanto o corpo o permite: ora alisa os cabelos com o pente, ora se atavia com grinaldas de rosmaninho, ora de violetas e de rosas, outras vezes trazendo brancos lírios; duas vezes ao dia lava o rosto no ribeiro que desliza do cimo da floresta de Págasas, duas vezes mergulha o corpo no rio. E, pendentes do ombro ou do flanco esquerdo, não usa peles, senão as que lhe assentam bem, e de animais selecionados. O amor neles era igual. Deambulavam pelas serranias juntos, juntos entravam nas grutas. Também então entraram juntos no palácio do Lapita, e juntos enfrentaram a feroz batalha.
Quem lançou não se sabe, mas eis que um dardo é disparado da esquerda e crava-se em ti, Cílaro, pouco abaixo onde o peito sucede ao pescoço. Ao extraírem o dardo, o coração, atingido por pequena ferida, vai-se esfriando junto com o corpo todo. De imediato, Hilomene toma nos braços o corpo moribundo, e, pressionando com a mão, tenta acalmar a ferida, e encosta os lábios aos lábios dele, e procura travar a alma que foge. Mas quando o vê morto, com palavras que o clamor impediu de chegar aos meus ouvidos, deixou-se cair sobre o dardo que nele estava cravado, e morreu abraçada ao marido.”...
Públio Ovídio Naso (43 a.C.-17)
Tradução: Paulo Farmhouse Alberto

17 de setembro de 2015

Tempo Diferente

Victor Tsyganov
O sol da minha cabeça é de todas as cores.
É ele que ilumina as casas
de palha
onde vivem os senhores saídos das crateras
e as belas mulheres que em cada dia nascem
e em cada tarde morrem
como os mosquitos.
Mosquito de todas as cores
que vens tu fazer aqui?
O sol este sol é para cães
e o calor sacode as montanhas
enquanto as montanhas nadam
sobre um mar pleno de luzes
onde o calor e o peso da vida
não existem
onde eu não meteria nem a ponta do meu pé.

Benjamin Péret (1899-1959)
Tradução: Nicolau Saião

A Desonra dos Poetas

John Liston Byam Shaw
[…] O poeta luta contra toda a espécie de opressão: em primeiro lugar a do homem pelo homem e a opressão do seu pensamento pelos dogmas religiosos, filosóficos ou sociais. Ele luta para que o homem atinja definitivamente um conhecimento perfectível de si próprio e do Universo.
Não se conclua disto que o poeta deseja pôr a sua poesia ao serviço de uma ação política, mesmo revolucionária. Mas a sua qualidade de poeta faz dele um revolucionário que deve combater em todos os terrenos: no da poesia pelos meios que a esta são idôneos e no terreno da ação social sem jamais confundir os dois campos de ação, sob pena de estabelecer a confusão que importa dissipar e, por conseguinte, de deixar de ser poeta, isto é, revolucionário.
Benjamin Péret (1899-1959)
Tradução: Natália Correia

16 de setembro de 2015

O Sábio Dichter

Aert de Gelder
Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.
Mas o mortal e monstruoso espanto
Como o suportas? — Canto.
E o que nome não tem, tu podes tanto
Que o possas nomear, poeta? — Canto.
De onde te vem o direito ao Vero, enquanto
Usas de máscaras, roupagens? — Canto.
E o que é violento e o que é silente encanto,
Astros e temporais, como te sabem? — Canto.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: Jorge de Sena