31 de agosto de 2015

Política

“Em nosso tempo, o destino do homem
encontra seu significado em termos políticos”.

(Thomas Mann)
Steven J. Levin
Como posso eu, com aquela moça ali parada,
Fixar minha atenção
Na política Romana,
Russa ou Espanhola?
No entanto, há aqui um homem viajado que sabe
Do que fala,
E ali há um político
Que tem lido e pensado,
E talvez o que eles dizem seja verdade
Sobre a guerra e seus alarmes,
Mas, oh, fosse eu jovem novamente
E a tomaria em meus braços!

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: J. A. Rodrigues

A Clemência

Giovanni Antonio Pellegrini
A qualidade da clemência é que ela não seja forçada;
Cai como a doce chuva do céu sobre o chão que está debaixo dele;
É duas vezes bendita; bendiz ao que a concede e ao que a recebe.
É o que há de mais poderoso naquele que é todo-poderoso;
Assenta-se melhor do que a coroa no monarca sentado ao trono;
O cetro bem pode mostrar a força do poder temporal;
O atributo da majestade e do respeito que faz os reis temerem e tremerem.
Porém, a clemência está acima da autoridade;
Tem seu trono nos corações dos reis,
É um atributo do próprio Deus
E o poder terrestre se aproxima tanto quanto possível do poder de Deus,
Quando a clemência tempera a justiça... Rogamos para solicitar clemência
A este mesmo rogo, mediante o qual a solicitamos,
A todos ensina que devemos mostrar-nos clementes para com nós mesmos.
William Shakespeare (1564-1616)
em " O Mercador de Veneza".

30 de agosto de 2015

Da Mesma Massa

Sir John Everett Millais
“Seja qual for a forma que a vida humana assuma, os seus elementos são sempre os mesmos. Portanto, naquilo que é essencial, ela é a mesma em toda a parte, seja numa cabana, na corte, no mosteiro ou no exército. Por mais variados que sejam os seus eventos, as suas aventuras, as suas felicidades e as suas desgraças, dá-se com a vida, no entanto, o mesmo que com os produtos do pasteleiro. As figuras são numerosas e variam quanto à forma e cor; todavia, tudo é feito da mesma massa, e aquilo que acontece a um é muito mais parecido com aquilo que ocorreu a outro do que este possa pensar ao ouvir a narrativa. Os acontecimentos da vida assemelham-se às imagens do caleidoscópio, no qual a cada volta vemos algo diferente, mas em verdade temos sempre o mesmo diante dos olhos.”
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
Aforismos para a Sabedoria de Vida.

Para um Livro de Leituras Escolares

Sir Edward John Poynter
Não leias odes, meu filho, lê antes horários:
são mais exatos. desenrola as cartas marítimas
antes que seja tarde, toma cuidado, não cantes.
o dia vem vindo em que hão de outra vez pregar as listas
nas portas e marcar a fogo no peito os que digam
não. aprende a passar despercebido, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de bilhete de identidade, de cara.
treina-te nas pequenas traições, na mesquinha
fuga quotidiana, úteis as encíclicas
mas para acender o lume, e os manifestos
são bons para embrulhar a manteiga e o sal
dos indefesos, a cólera e a paciência são precisas
para assoprar-se nos pulmões do poder
o pó fino e mortal, moído por
aqueles que aprenderam muito

e são meticulosos por ti.

Hans Magnus Enzensberger
Tradução: Jorge de Sena

29 de agosto de 2015

Aviso de Mobilização

Edward Killingworth Johnson
Passaram pelo meu nome e eu era um número
- menos que a folha seca de um herbário.
Colheram-no com mãos de zelo e gelo;
escreveram-no, sem mágoa, num postal.

Convite a que morresse. .. mas por quê?
Convite a que matasse. .. mas por quem?
Ó vago amanuense, ó apressado
e súbito verdugo, que te ocultas
numa rubrica rápida, ilegível,
que dirás tu do meu e de outros nomes,
que dirás tu de mim e de outros mais,
no Dia do Juízo já tão próximo
- que dirás tu de nós, se nem tremeu,
na rápida rubrica, a tua mão?

Bem sei que a tua mão só executa;
mas para além do ombro a ti pertences.
Bem puderas chorar, ter hesitado. . .
- A mancha de uma lágrima bastara
para dar um sentido a esta morte
a que a tua indiferença nos convoca!

David Mourão-Ferreira (1927-1996)

À Noite Acostumado

Michele Catti
Já fui à noite inteiramente acostumado.
Eu já saí na chuva – e regressei na chuva.
Já segui tendo as luzes da cidade ao largo.

Eu já contemplei a mais triste dentre as ruas.
Já deixei para trás as rondas do vigia
E baixei o olhar, sem declaração alguma.

Parei, calei o som que ao caminhar fazia
Quando na distância de repente irrompeu
Um grito surdo que por sobre as casas vinha,

Mas não a me chamar ou me dizer adeus;
Ainda mais imóvel e mal-assombrado,
Dizia um luminar relógio contra os céus

Que o tempo nem estava certo nem errado.
Já fui à noite inteiramente acostumado.

Robert Frost (1874-1963)
Tradução: Rodrigo Madeira

28 de agosto de 2015

A Curva dos teus Olhos

Pablo Picasso
A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço noturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Éluard (1895-1952)
Tradução: Antonio Ramos Rosa

Digam

Ton Schulten
Digam !
Lá porque estão acesas as estrelas,
será porque elas são necessárias a alguém?
Será porque alguém há a desejar que existam?
Será porque alguém chama a esses escarros, pérolas?
E, vencendo
a poeirenta borrasca do meio-dia,
alguém corre p'ra Deus,
temendo chegar tarde,
chora,
beija-lhe a mão nodosa,
implora -
que lhe falta uma estrela! -
jura
que, sem estrelas, não pode suportar este martírio.
E depois,
lá vai com a sua angústia,
mostrando paz na cara.
Perguntando a qualquer:
"Agora, estás melhor, não é assim?
Já não tens medo?
Não?"
Digam !
Lá porque estão acesas
as estrelas -
será porque elas são necessárias a alguém?
será porque é - indispensável,
que cada noite
por cima dos telhados
uma só estrela, ao menos, se ponha a reluzir?

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
Tradução: Carlos Grifo

27 de agosto de 2015

Companheira do Cesteiro

Marc Chagall
Amava-te.
Amava o teu rosto de nascente sulcado pela tempestade
e o emblema do teu domínio cingindo o meu beijo.
Há quem se entregue
a uma imaginação completamente redonda.
A mim basta-me ir.

Do desespero, meu amor,
trouxe o cestinho mais pequeno
que se pôde entrelaçar em vime.

René Char (1907-1988)
Tradução: Margarida Vale de Gato

O Corpo Canta

Jelnov Nikolay
O corpo canta;
o sangue ulula;
a terra fala;
o mar murmura;
o céu se cala
e o homem escuta.

Miguel de Unamuno (1864-1936)
Tradução: Antonio Cicero

26 de agosto de 2015

Porlamar

Albert Bierstadt
Baixo às profundas
abissais da palavra:
colho-a como um ovo
entre as algas, como
uma pera na geladeira,
como um peixe roubado
à voracidade de outro,
como um pato abatido
no pântano, como areia
fina, na barra, a fugir
entre meus dedos.
Como-a
com uma pitada de sal.
Se de veias, sangro-a;
pétrea, sob o cinzel,
dirá o que direi, nua,
gelada e engalanada,
confiante e confidente.

Busco-a a madrugar,
mastim, de tocaia,
como se colhesse amoras
temendo as silvas.

Fernando Ferreira de Loanda (1924-2002)

Unidade

Ismael Nery
Deitando os olhos sobre a perspectiva
das coisas, surpreendo em cada qual
uma simples imagem fugitiva
da infinita harmonia universal.

Uma revelação vaga e parcial
de tudo existe em cada coisa viva:
na corrente do bem ou na do mal
tudo tem uma vida evocativa.

Nada é inútil; dos homens aos insetos
vão-se estendendo todos os aspectos
que a ideia da existência pode ter;

e o que deslumbra o olhar é perceber
em todos esses seres incompletos
a completa noção de um mesmo ser...

Raul de Leoni (1895-1926)

25 de agosto de 2015

Línguas

Marten van Valckenborch
Não há arreios em uma língua
Por onde os homens possam segurá-la
E marcá-la com sinais para sua recordação.
É um rio, essa língua,
A cada mil anos
Abrindo um novo rumo
Mudando seu caminho para o oceano.
São eflúvios de uma montanha
Descendo para os vales
E de nação em nação
Cruzando fronteiras e se misturando.
As línguas morrem como os rios.
As palavras que hoje envolvem sua boca
E são partidas em forma de pensamento
Entre seus dentes e lábios que falam
Agora e hoje
Serão hieróglifos desbotados
Daqui a dez mil anos.
Cante – e cantando – lembre-se
Sua canção morre e se transforma
E não estará mais aqui amanhã
Não mais que o vento
Soprando há dez mil anos atrás.

Carl Sandburg (1878-1967)
Tradução: Bruno Piffardini

O Espaço e o Tempo

Alayna Borowy
Espaço e tempo se desavieram
num dos grotões do cosmos.

“Estou cansado de viver jungindo ao tempo,
proclama arrogante o espaço,
como irmãos gêmeos siameses,
o momento confundido com o traço.
Com absoluta independência
quero imergir-me nas micropartículas do átomo
ou sublimar-me no infinito campo de forças
estelares!”

E sereno o tempo respondeu:
“Como te enganas!
Há muito tempo, enquanto te encurvavas
para ajustar-te às coisas grandes ou pequenas,
eu fugia delas
buscando a duração intrínseca do ser
ou me arriscando em sonhos transcendentes!”

E o eco repetiu o diálogo
no espaço e no tempo.

Miguel Reale (1910-2006)

23 de agosto de 2015

O Poço dos Medeiros

Paul Signac
Não quero a poesia, o capricho
do poema: quero
reaver a manhã que virou lixo
................. quero a voz
a tua a minha
aberta no ar como fruta na casa
fora da casa
................. ......... a voz dizendo coisas banais
entre risos e ralhos
na vertigem do dia;
................................. não a poesia
o poema o discurso limpo
onde a morte não grita
............................................ A mentira
não me alimenta:
...................alimentam-me
as águas
............. ainda que sujas rasas
afogadas
................... do velho poço
......................... hoje entulhado
................................onde outrora sorrimos.
Ferreira Gullar

Emiliano Monae, Alexandrino, 628-655 d.C.

Peter Paul Rubens
Com palavras, com feições do rosto, e com maneiras
uma excelente armadura me farei,
e, assim, enfrentarei os homens maus,
sem ter medo ou fraqueza.

Vão querer prejudicar-me. Mas, de todos os que
se aproximarem de mim, ninguém saberá
onde estão minhas feridas, meus pontos vulneráveis,
sob as mentiras que me encobrirão.

Palavras de presunção de Emiliano Monae.
Porventura pode um dia fazer essa armadura?
Em todo caso, não se serviu dela por muito tempo.
Aos vinte e sete anos morreu na Sicília.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
Tradução: Isis Borges da Fonseca

Dirigindo e Bebendo

Meir Pichhadze
Já é agosto e eu não
leio um livro há seis meses
a não ser por um troço chamado A Retirada de Moscou
de Caulaincourt.
Ainda assim, estou feliz
andando de carro com meu irmão
e bebendo um pint de Old Crow.
Não estamos indo a lugar nenhum,
só estamos indo.
Se eu fechasse os olhos por um minuto
estaria perdido, contudo
eu poderia facilmente deitar e dormir pra sempre
na beira desta estrada.
Meu irmão me cutuca.
Para que algo aconteça, está por um triz
.

Raymond Carver (1938-1988)
Tradução: Cide Piquet

Conhecimento e Mito

François Boucher
“(...) Assim, a magia e a mitologia ocupam a imensa região exterior do desconhecido, englobando o pequeno campo do conhecimento concreto comum. O sobrenatural está em todas as partes, dentro ou além do natural; e o conhecimento do sobrenatural que o homem acredita possuir, não sendo da experiência direta comum, parece ser um conhecimento de ordem diferente e superior. É uma revelação acessível apenas ao homem inspirado ou (como diziam os gregos) ‘divino’ — o mágico e o sacerdote, o poeta e o vidente”.
F M Cornford (1874-1943)
Antes e Depois de Sócrates
O mito não distingue o plano natural do sobrenatural, sendo o conhecimento do sobrenatural superior.

22 de agosto de 2015

A Dor e o Medo

Walter Leistikow
Quando sozinho, noite morta, rezo,
E a minha voz dos medos me defende,
E a tudo, à terra e ao céu, me sinto preso.
Vejo que a dor é a força que nos prende.

Enlouquecido de alma, canto e rezo.
Aflige-me o silêncio. Quem no entende?
A sombra me sufoca. É negro peso;
E, em fumo, do meu corpo se desprende.

Ó noite triste, noite que apavora,
Golpeada de estrelas, a sorrir...
Desnorteado, o vento clama e chora !

E quem sou eu? Quem sou? Na noite escura.
— O medo à morte certa que há de vir
E a dor de ser humana criatura.

Teixeira de Pascoais (1877-1952)

O Veredicto

Paulo Sérgio Zerbato
E a pétrea palavra caiu
sobre o meu peito ainda vivo.
Pouco importa: estava pronta.
Dou um jeito de aguentar.

Hoje, tenho muito o que fazer:
devo matar a memória até o fim.
Minha alma vai ter de virar pedra.
Terei de reaprender a viver.

Senão... o ardente ruído do verão
é como uma festa debaixo da janela.
Há muito tempo eu esperava
por este dia brilhante, esta casa vazia.

Anna Akhmátova (1889-1966)
Tradução: Lauro Machado Coelho

21 de agosto de 2015

Tábula rasa

Nicolas Poussin
“Todas as ideias derivam da sensação ou reflexão. Suponhamos que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem quaisquer ideias; como ela será suprida? (...) De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra, da - Experiência -. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento”.
John Locke (1632-1704)
Ensaio acerca do entendimento humano.

Nada leves, nem queiras ter

Jacob de Baker - Avareza
Nada leves, nem queiras ter
Mais do que as pombas, as minhocas
Ou o cachorro do vizinho.
Pensa só na insanidade
Que é ter:
Primeiro, pesa nos sentidos
E freia a imaginação;
Depois, o medo de perder.
Mais que tudo, a bobagem
Profunda de achar que tens:
Que vínculo é esse, absurdo,
Entre um ser vivo e um
Objeto inanimado?
Tens, por acaso, a tarde, o vento?
Este trecho de terra? Por quê?
Quando falas, ele responde?
Por que terás mais esse anel
Do que o ar, ou o Pão de Açúcar?
Medita um pouco no absurdo
Dessa fantasia que é ter,
Depois pensa que sequer tens
A ti, já que não te dominas.
Começa então a viver
A imensidão desta vida.

Roberto Marinho de Azevedo (1940-2003)

20 de agosto de 2015

Arte

Alexander Louis Leloir
Nas felizes horas plácidas sonhamos
Com tantos bravos esquemas informes.
Então uma forma a tomar, que vida vibrante cria,
Aquilo a que coisas distintas devem juntar-se e procriar:
Uma chama a queimar – uma brisa a refrescar;
Triste procrastinação – jubilantes energias;
Humildade – ainda que orgulhosa e tola;
Instinto e instrução – amor e ódio;
Eis que devem multiplicar-se: audácia e reverência,
E fundir-se ao coração místico de Jacó
Para duelar com um anjo – a Arte.

Herman Melville (1819-1891)
Tradução: Jonatan Rafael da Silva

Sociedade Civil

Charles Marion Russell
“Os homens sendo, como tem sido dito, todos por Natureza livres, iguais e independentes, ninguém pode ser alijado deste Estado e submetido ao Poder Político de outrem, sem seu próprio consentimento. A maneira única em virtude da qual uma pessoa renuncia à Liberdade Natural e se reveste dos laços da sociedade civi e consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela. Qualquer número de homens pode fazê-lo, porque não prejudica a liberdade dos demais; ficam como estavam na liberdade do estado de natureza. Quando qualquer número de homens consentiu desse modo em constituir uma comunidade ou governo, ficam, de fato, a ela incorporados e formam um corpo político no qual a maioria tem o direito de agir e resolver por todos”.
John Locke (1632-1704)

19 de agosto de 2015

19 de agosto - Dia do Historiador

História

Nikolaos Gysis - Allegory of History
A História, que vem a ser?
mera lembrança esgarçada
algo entre ser e não-ser:
noite névoa nuvem nada.
Entre as palavras que a gravam
e os desacertos dos homens
tudo o que há no mundo some:
Babilônia Tebas Acra.
Que o mais impecável verso
breve afunda feito o resto
(embora mais lentamente
que o bronze, porque mais leve)
sabe o poeta e não o ignora
ao querê-lo eterno agora.

Antonio Cicero