30 de junho de 2015

O Lago

Albert Bierstadt
Espelho cristalino
lânguido espraiar
suave exaltação de espuma
branda mão macio afago
sereno e tranquilo lago

Ilha azul líquida festa
úmido lábio a refrescar
o verde fulvo da giesta
dolente corpo arredondado
Sereno e tranquilo lago.

André Moa
José Guilherme Macedo Fernandes (1939-2011)

Para Ti

Pablo Picasso
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida.

Mia Couto

29 de junho de 2015

Cais

Paul Gauguin
Tênue é o cais
no Inverno frio.
Tênue é o voo
do pássaro cinzento.
Tênue é o sono
que adormece o navio.
No vago cais
do balouço da bruma
tênue é a estrela
que um peixe morde.
Tênue é o porto
nos olhos do casario.
Mas o que em fora nos dilui
faz-nos exatos por dentro.

Fernando Namora (1919-1989)

Filha do Sol e da Lua

Sara M Butcher Burrie
Filha do Sol e da Lua!
Digo baixinho, se passas,
Se te encontro pela rua...

Filha do Sol e da Lua!
És do Sol, sim, por ser loira
Essa cabeleira tua.

Filha do Sol e da Lua!
Da Lua, sim, por ser branca
A carne que trazes nua.

Tranças d’oiro..., tranças d’oiro...
Filha do Sol e da Lua!
Transformam-te num tesouro.

Teus olhos, que são dois astros,
Filha do Sol e da Lua!
Deixa os contemple de rastros.

E te manche as finas vestes,
Filha do Sol e da Lua!
Com estes lábios agrestes...

Que doçura a imagem tua,
De fogo e neve celestes...
Filha do Sol e da Lua!

Gentil Valadares (1916-2006)

28 de junho de 2015

Cantigas

John White Alexander
Não há pressas, nem demoras,
No coração das cantigas;
Nem os relógios dão horas
Quando cantam raparigas.

Como algum dia ando hoje;
Sou o mesmo apaixonado;
Quem disser que o tempo foge
É de nunca ter amado.

A saudade é queda d'água
Que ao longe quebra, ao bater;
É um compasso de mágoa
Marcado por te não ver.

Como um adeus de saudade
Não há palavra tão louca:
Dizer adeus, ninguém há de
Ouvi-lo da minha boca.

Quem ama liga-se à terra,
Quem canta, ao reino dos céus;
Quem para que Deus o salve,
Quem anda que vá com Deus.

Afonso Duarte (1884-1958)

Homem dentro do pesadelo

Naoto Hattori
Patas de lobo arranham
seu pescoço enquanto
intenta em vão
com socos e chutes amortecidos
pelo ar pesado
romper a membrana do sono

Veio rompê-la - de fora -
o dia
com suas patas de lobo.

Carlito Azevedo

27 de junho de 2015

Sombra e Névoa

Camille Pissarro
Cai o crepúsculo. Chove.
Sobe a névoa... A sombra desce...
Como a tarde me entristece!
Como a chuva me comove!

Cai a tarde, muda e calma...
Cai a chuva, fina e fria...
Anda no ar a nostalgia,
Que é névoa e sombra em minh'alma.

Há não sei que afinidade
Entre mim e a natureza:
Cai a tarde... Que tristeza!
Cai a chuva... Que saudade!

Da Costa e Silva (1885-1950)

À Garrafa

Vincent van Gogh
Contigo adquiri a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.

Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.

Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces suicida,

numa explosão
de diamantes.

José Paulo Paes (1926-1998)

26 de junho de 2015

Pensando Melhor

Sakai Hoitsu
Mesmo em tardes muito quentes de Verão,
há sempre uma ave aventureira
que sobrevoa a terra.

(Pensando melhor, o que de fato há
é terra, apenas terra — que a seu tempo
há de sobrevoar o voo das aves.)

A.M. Pires Cabral

O Mundo Como Ideia

Claude Monet
O mundo como ideia (ou pensamento).
Entre a gnose e o real (talvez) o acordo.
Mas no ramo (imperene) cantão tordo
(provisório) e invisível vem o vento
e leva o canto e deixa um desalento,
a queixa dos sentidos... Não recordo
se sonhei tudo isso ou não: um tordo
e a noite em meus ouvidos um momento,
outro rapto no vento... Mas supor
que o triunfo moral do cognitivo
restitua-me o ser menos a dor,
é resignar-me a um perfume tão rápido
que não existe quase, insubstantivo
como a Ideia... Não: o mundo como rapto!

Bruno Tolentino (1940-2010)

25 de junho de 2015

Ai, Margarida

Ismael Nery
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência alcoólica.

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa (1888-1935)

24 de junho de 2015

Paisagem pelo Telefone

Cícero Dias
Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,

a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,

Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,

sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,

que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,

mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.

Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria

que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

23 de junho de 2015

Bach Segovia Guitarra

Edmund Blair Leighton
A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia
Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra
A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada
Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa
Por companheira tenho
A voz da guitarra
E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada
E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia que não foi pisada.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

22 de junho de 2015

Ao Espelho

John William Godward
Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh Braga envelhecido, envilecido.

Rubem Braga (1913-1990)

ℂanção do amor livre

Edward Robert Hughes
Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.
Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.
Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.
Relâmpago, depois repouso
sem memória, noturno.

Jacinta Passos (1914-1973)

21 de junho de 2015

A Lácon, vencedor na corrida de rapazes em Olímpia

Louis-Jean-François Lagrenée
Lácon, do Zeus supremo,
alcançou a suma glória, com os seus pés,
junto à embocadura do Alfeu, feito igual
a outros pelos quais, outrora,

Ceos
¹ , criadora de vinhas,
foi cantada em Olímpia,
como vencedora no pugilato e na corrida,
por jovens exuberantes
de cabelos com grinaldas.

E a ti, agora, um hino de Urânia, soberana do canto,
por vontade de Vitória
— ó filho de Aristómenes,
de pés velozes como o vento —,
te honra com cantos, entoados diante de tua casa,

porque, com o teu triunfo na corrida,
a Ceos deste fama.

Baquílides (520-450 a.C.)
Tradução: Carlos Morais.
¹ Uma das ilhas do arquipélago das Cíclades, no Mar Egeu.

Mulher

Henri Matisse
Às vezes
nos momentos em que se faz amor
o homem surge à mulher como uma espécie de Deus.
"Deus... Deus!" grita a mulher
com o corpo
dominado pelo fogo.
"Olha-me,"
diz o homem,
"eu sou Deus."
A mulher
olha
e, em convulsões de dor
por perder Deus,
vira a cara
de lado.

Jyotsna Milan

20 de junho de 2015

Saudade

Gustave Caillebotte
Ai quantas vezes,
ai quantas, quantas
no turvo mar,
o mar penteado
pelas rajadas
como a desordem
da cabeleira
de uma mulher,
eu suspirei,
morto em saudade
pela doçura
de regressar.

Arquíloco de Paros (680 - 645 a.C.)
Tradução: Jorge de Sena

Não escrevas nada...

Henri Matisse
Não escrevas nada. Deixa os outros falarem,
e mesmo que eles nunca usem palavras como:
revolução, liberdade, dignidade, humilhação,
mesmo que as suas línguas sejam apenas carne
e não cítaras, ou frescos, ou espadas, permite-lhes
que falem. Deixa o sangue correr
e o fogo propagar-se, deixa o tronco da limeira engrossar,
deixa a água e o fruto extraviarem-se.
Não retenhas o teu coração,
deixa-o beber e escutar.

Jan Polkowski
Tradução: Luís Parrado

19 de junho de 2015

Me Tarzan

Agim Sulaj
Ele se agarra
ao passado
como um macaco
num abraço
se atira
e vai de galho em galho

Ele se amarra
a qualquer
ideia do passado
como a um louco
em amarras

O presente
será sempre
o passado do presente
o presente do futuro
e o futuro do passado.

Luiza Xavier

18 de junho de 2015

Rosa

Henri Fantin-Latour
Rosa do meu Jardim, que ardes na minha Jarra,
filha do meu afã, mártir do meu amor!
Minha grande paixão egoísta te desgarra
as pétalas, te aspira o segredo interior.

Pois que estamos a sós — eu volúvel cigarra,
tu, borboleta rubra estacionada em flor —
deveras ter comigo uma folha de parra,
a fim de preservar-te a beleza e o pudor...

Pois que! tão nua assim, tão fresca e tão punícea
¹ ,
rosa da Tentação, rosa da Impudicícia,
és o próprio Pecado: e há virtude em pecar...

— Pecar morrendo em ti, sangrando em teus espinhos,
remindo num Desejo os desejos mesquinhos,
gozando pelo Olfato e amando pelo Olhar...

Hermes Fontes (1888-1930)
¹ Da cor da romã; vermelho.

Devolução de Flores

Paul Gauguin
Eu estou devolvendo suas flores. É Outono.
Com hastes de groselha seca Terra cheiros doces.
E o céu é cada vez mais profundo, e água
Sente-se mais doloroso para os pés com frieiras.

Eu estou devolvendo suas flores. Você sabe -
É um fato - a cada verão atravessa.
Vamos procurar uma casa onde não há luz,
Onde não há nada além de pão e frutas.

E é por isso que eu estou voltando as flores
No campo da ilusão. Por favor, coloque
Palavras à parte, só ficar aqui comigo
Embora a Via Láctea desaparece sob os pés.

Oné Baliukonè (1948–2007)

17 de junho de 2015

Beijo Eterno

Pablo Picasso
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!

Castro Alves (1847-1871)

O Navio Negreiro – Canto Final (VI)

Johann Moritz Rugendas - Negros no porão de um navio negreiro
Existe um povo que a bandeira empresta
Para cobrir tanta infâmia e infâmia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio, Musa... Chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança.

Castro Alves (1847-1871)