31 de maio de 2015

Um Poema

Claude Fossoux
Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz…

Miguel Torga (1907-1995)

Pedrinhas

Richard Schmid
Reter na mente coisas desagradáveis
é como andar com pedrinhas dentro do sapato:

Enquanto você estiver caminhando
pela estrada de vida,
eles o machucarão.

Porque não jogar fora essas pedrinhas,
que estão no sapato da sua mente?

Masaharu Taniguchi (1893-1985)

30 de maio de 2015

Poeminha Cinético

Henri Bonaventure Monnier
Era um homem bem vestido
Foi beber no botequim
Bebeu muito, bebeu tanto
Que
…………………saiu
;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;de
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::..............::::::::assim.
As casas passavam em volta
Numa procissão sem fim
As coisas todas rodando:
Millôr Fernandes (1923-2012)

Assombração Inglesa

Georges Laugée
Perto da Avenida Malaquias
numa casa gótica levantada
por ex-capitão de navio inglês
que em frente à casa erguera o mastro do velho barco
durante anos comandado por ele,
em noites de muito escuro e vento mau
houve quem avistasse um marinheiro
no alto do mastro. Devia ser fantasma
do marinheiro inglês, alma de bife,
já descarnado em espírito, mas sem saber
separar-se daquele pedaço de navio velho
perdido entre mangueiras e jaqueiras do Recife.

Gilberto Freyre (1900-1987)

29 de maio de 2015

Minha especialidade é viver

Louis-Léopold Boilly
Minha especialidade é viver - era a legenda
De um homem (que não tinha renda
Porque não estava à venda)

Olhar à direita - replicaram num segundo
Dois bilhões de piolhos públicos do fundo
De um par de calças (moribundo).

E.E.Cummings(1894-1962)

Desaparecido

Euan Boyd-Wallis
Sempre que leio nos jornais:
"De casa de seus pais desapareceu..."
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser meu
— Livre o instinto, em vez de coagido,
"De casa de seus pais desapareceu..."
Eu, o feliz desaparecido.

Carlos Queirós (1907–1949)

28 de maio de 2015

Pastoral

Paul Cézanne
Por ser tão leve o teu passar
Na estrada, à tarde, quando vens
De pôr o gado que não tens,
A pastar...

Por ser tão brando o teu sorrir,
Tão cheio de feliz regresso
Do longo prado, onde apeteço
Contigo ir...

Por ser tão breve o teu querer
Alguém que perto de ti passe
E, porque a tarde cai, te abrace.
Sem nada te dizer...

Por ser tão calmo o teu sonhar
Que já é tempo de não ter
Esse rebanho de pascer,
Mas outro de amamentar...

É que eu me perco no caminho
Do grande sonho sem janelas,
De estar contigo no moinho,
Sem o moleiro nem as velas.

Carlos Queirós (1907–1949)

O primeiro pensamento de Deus foi um anjo

Jean-Marc Nattier
O primeiro pensamento de Deus foi um anjo.
A primeira palavra de Deus foi um homem.

Éramos criaturas esvoaçantes,
errantes e desejosas de milhares de anos
antes que o mar e o vento da floresta
nos arrebatassem a palavra.
Hoje como poderemos exprimir
aquilo que em nós é imemorial,
unicamente com os ruídos do nosso passado?

A Esfinge só falou uma vez e disse:
"Um grão de areia é um deserto
e um deserto é um grão de areia,
e agora calemo-nos outra vez."
Eu ouvi a esfinge mas não a entendi.

Uma vez vi o rosto de uma mulher
e senti todos os seus filhos que ainda não tinham nascido
E uma mulher olhou para mim
e aí reconheceu todos os meus antepassados
mortos antes de ela ter nascido.

Khalil Gibran (1893-1931)

27 de maio de 2015

Harmonia e proporção entre as partes da obra poética

Sir Edward John Poynter
Se um pintor à cabeça humana unisse
pescoço de cavalo e de diversas
penas vestisse o corpo organizado
de membros de animais de toda a espécie,
de sorte que mulher de belo aspecto
em torpe e negro peixe rematasse
vós, chamados a ver esta pintura,
o riso sofreríeis? Pois convosco
assentai, ó Pisões, que a um quadro destes
será mui semelhante aquele livro
no qual ideias vãs se representam
(quais os sonhos do enfermo), de tal modo,
que nem pés, nem cabeça a uma só forma
convenha. De fingir ampla licença
ao poeta e pintor sempre foi dada.
Assim é; e entre nós tal liberdade
pedimos mutuamente, e concedemos;
mas não há de ser tanta, que se ajunte
agreste com suave, e queira unir-se
ave a serpente, cordeirinho a tigre.

Quinto Horácio Flaco (65 - 8 a.C.)
Tradução: Cândido Lusitano

O Corpo Insurrecto

Eugène Durieu
Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e reto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),


labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas réstias mais íntimas,
as glândulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aquáticas
onde os corpos boiam.

No amor, dizendo ato de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar,
há ainda um outro
corpo incluído,

mas um corpo aquém
de ser são ou podre,
um repuxo, um magna,
substância solta,
com pulmões.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
labaredas tais
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o põem em prática
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,
tendo o corpo nu,
a carne ardida,
lhe pede o ladrão
a bolsa ou a vida.

Luiza Neto Jorge (1939-1989)

26 de maio de 2015

Quem precisa de Proust?

Vincent Van Gogh
É já tarde na noite
e a praia está deserta.
Rebenta o mar
sobre os rochedos.
Um ar cálido,
espesso de salitre
e de lembranças,
banha-me a cabeça.
Fecho os olhos.
Inalo.
Deixo-me levar.
E logo penso,
como quase sempre
que me ocorrem estas coisas,
em Proust.
Mas não li Proust.
Que importa.
A vida é bela.
Quem precisa
de Proust?

Roger Wolfe
Tradução: Luís Filipe Parrado

Sonatina Lunar

John Atkinson Grimshaw
Os padeiros da lua
Derrubam farinha
Na noite retinta.
Quem ganha? É o chão
Que se pinta e repinta
De giz e carvão.

Rendilha de aranha
Na face encantada,
Moedinha de prata
Escondida na mão,
Minh’alma menina
Fugiu para a mata.

Meu coração
bate sozinho
no velho moinho
da solidão.

Até eu me fujo…
Eu sou o corujo,
Olhar enorme
Que nunca dorme.
Nana, nana
Nina, nina,
Alma menina…

E sonha comigo
Como eu era dantes!
Os padeiros da lua
Derrubam farinha…
O chão se repinta
De giz e carvão…

Sonha, Menina,
Na mata assombrada
Enquanto o moinho
Vai rangendo em vão.

Mario Quintana (1906-1994)

25 de maio de 2015

Aprender a Ver

Charles Camoin
Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar que as coisas se aproximem de nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objetividade» moderna é mau gosto, é algo não-aristocrático par excellence.
Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900),
in "Crepúsculo dos Ídolos".

24 de maio de 2015

O Peso do Mundo

Odilon Redon
Não posso ler um só livro.
uma só página.
Um só parágrafo.
Nem uma linha.
Não posso escrever,
nem ouvir o telefone,
nem acender um cigarro,
nem estender as pernas,
nem levantar-me
sequer
dessa poltrona.
Se me buscar
o pulso
estou certo
de que o não me encontraria.
Realmente não sei
o que me acontece.
Não é asco.
Não é fastio.
Não é abulia.
Não é cansaço.
Não é indiferença.
São todas essas coisas
e não é nenhuma.
É como se o mundo
se me houvesse
caído
em cima.

Roger Wolfe
Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles

Gerhard Bartels

Pela primeira vez em 80 anos, o menino utilizado pela propaganda nazista dá entrevista. Gerhard Bartels, agora com 83 anos, foi escolhido para ser o garoto-propaganda do Nazismo.
Um pequeno menino de rosto angelical e olhos azuis chamado Gerhard Bartels foi um verdadeiro símbolo do nazismo e instrumento de propaganda do genocida Adolf Hitler. E tudo aconteceu por casualidade, quando ele teve que posar para uma foto ao lado do líder nazista, amigo de seu tio Isidor Weiss, que o conheceu na Primeira Guerra Mundial. O fotógrafo era ninguém menos que Heirich Hoffmann, o responsável por retratar Hitler em todos os momentos. No entanto, a propaganda nazista viu nessa imagem algo muito maior: identificaram rapidamente a oportunidade de utilizar o pequeno menino branco como exemplo da pureza ariana. Desde então, seu rosto apareceu em inúmeros postais, livros e cartazes de campanha.
Hoje, 80 anos depois, Gerhard Bartels quebrou o silêncio pela primeira vez, para aliviar as dores do evento que o atormentou por toda sua vida. Era o ano de 1936 quando seus pais o mandaram vestir sua melhor roupa. Tratava-se de uma ocasião muito especial: naquele dia, ele conheceria Hitler em pessoa. “Eu não tinha permissão para brincar com as outras crianças esse dia, para não sujar minha roupa (...) Não gostei disso. Eu só queria ficar fora com as outras crianças”, lembra Bartels.
“Hitler era um bandido. Os nazistas me usaram com fins propagandísticos. Fui utilizado para mostrar o amor de Hitler pelas crianças”, ele acrescenta. “Mas todo ditador faz a mesma coisa, de Mussolini a Stalin. Fui escolhido porque obviamente me encaixava no que Hitler pensava que deveria ser uma criança ariana”.
Daquele encontro, Bartels ainda se lembra de um fato muito específico e, segundo ele mesmo define, doloroso: o menino foi obrigado a cumprimentar Hitler com o tradicional “Heil, mein Führer”. “Mesmo naquela idade tão jovem, eu sabia que estava sendo manipulado”, confessa. Bartels também se recorda de outro detalhe, que evidencia a sua mais pura inocência em relação ao que acontecia: “Eu estava feliz por tirarem uma foto minha porque pensava que teria uma porção maior da torta de maçã. O fotógrafo, Heirich Hoffmann, tirou todas as fotos, mas, 80 anos depois, ainda estou esperando a torta”, ele afirma ironicamente.

23 de maio de 2015

Mapa de Esperança

Vladimir Volegov
Vinha pisando sobre toda a praia,
o sangue quieto — ou quase quieto —
os pensamentos leves como espumas
e os cabelos soltos como nuvens.

Trágica como princesa de elegia,
meu estandarte é o desespero,
minha bandeira, indecisão.

Ainda assim, alegria, te festejo.

Olga Savary

A Adormecida

[À Lucien Fabre]
Paul Gauguin
Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga.

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

Paul Valéry (1871-1945)
Tradução: Augusto de Campos

22 de maio de 2015

O Tempo e o Espírito

Victoria Harchencko
“O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo”.
Virginia Woolf (1882-1941)

As penas do amor

Frederick Cayley Robinson
Sobre os telhados a algazarra dos pardais,
Redonda e cheia a lua - e céu de mil estrelas,
E as folhas sempre a murmurar seus recitais,
Haviam esquecido o mundo e suas mazelas.

Então chegaram teus soturnos lábios rosas,
E junto a eles todas lágrimas da terra,
E o drama dos navios em águas tempestuosas
E o drama dos milhares de anos que ela encerra.

E agora, no telhado a guerra dos pardais,
A lua pálida, e no céu brancas estrelas,
De inquietas folhas, cantilenas sempre iguais,
Estão tremendo - sob o mundo e suas mazelas.

William Butler Yeats (1865 -1939)
Tradução: André C S Masini

21 de maio de 2015

As Múltiplas Almas Que Dividem Um Ser

René Magritte
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Poema que aconteceu…

Sir Edward John Poynter
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

20 de maio de 2015

Hamlet

Mariann Johansen Ellis
“O que é um homem cujo principal uso e melhor aproveitamento do seu tempo é comer e dormir? Apenas um animal. É evidente que esse que nos criou com tanto entendimento, capazes de olhar o passado e conceber o futuro, não nos deu essa capacidade e essa razão divina para mofar em nós, sem uso. Ora, a não ser por esquecimento animal, ou por indecisão pusilânime, nascida de pensar com excessiva precisão nas consequências”.
William Shakespeare (1564-1616)
Trecho do Livro: Hamlet.

Realismo

Norman Rockwell
quando estes
olhos

(um zoom
de azuis?)

sobre esta
mínima

pétala de
pálpebra

deixaram correr
de fina estria
a lágrima da
raiva

não morrerão
sóis
não se apagarão
estrelas

apenas outro
sulco na super
fície da face.

Carlito Azevedo

19 de maio de 2015

Hamlet

Paul Klee
“Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação”.

William Shakespeare (1564-1616)
Trecho do Livro: Hamlet.

Vagamundo

Henri Matisse
Em parte
alguma
do mundo
me sinto
em casa

Em cada
clima
novo
que encontro
reconheço
abatido
que
um dia
a ele também já estive
afeiçoado

E dele me despego sempre
estrangeiro

Nascendo
de volta de épocas demasiado
vividas

Gozar um único
minuto da vida
primal

Busco um país
inocente.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti