30 de abril de 2015

Elogio da Memória

Marie Spartali Stillman
O funil da ampulheta
apressa, retardando-a,
a queda
da areia.

Nisso imita o jogo
manhoso
de certos momentos
que se vão embora
quando mais queríamos
que ficassem.

José Paulo Paes (1926-1998)

29 de abril de 2015

Hoje, que estou só, posso ver.

Konstantin Razumov
Bem, hoje que estou só e posso ver
Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
Quanto se o for, serei em vão,

Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas urtigas dos meus dias
A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico
Em qualquer coisa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
Escrevo-o para o lembrar bem.

Fernando Pessoa (1888-1935)

28 de abril de 2015

II º Soneto Simmétrico

Claude Monet
Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,

dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre a mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.

Paulo Henriques Britto

27 de abril de 2015

Insônia

Odilon Redon
Na noite imperturbável,
infinitamente leve
a consciência se esbate,
espécie de semente
sobre um campo de neve
neve macia e negra
intensamente morna
onde o tempo se esquece
na inércia indiferente
das coisas que só dormem

onde, alheia ao mistério
de tudo ser evidente,
inteiramente encerrada
dentro do espaço exíguo
que é dado a uma semente

inútil como fruta
que não foi descascada
e apodreceu no pé,
jaz a semente aguda
profundamente acordada.

Paulo Henriques Britto

A poesia dói dentro de mim

Louis-Jean-François Lagrenée
A poesia dói dentro de mim
como quando meu pai podava a parreira
eu ia vendo caírem
as folhas
eu ia vendo caírem
as folhas
e ninguém sabia
como os ramos derramavam os sons
dolorosos.

Vera Lúcia de Oliveira

26 de abril de 2015

O Corpo

René Magritte
Lavava o corpo dele com a alma nas mãos
ia tateando a carne fria que tanto amara e
odiara agora nada mais ficara senão
aquela pena nos músculos inertes
que tanto ela vira vibrar e arfar
de prazer e dor.

Vera Lúcia de Oliveira

Soneto de Abril

Joyce Gibson
Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d’água, mas do canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas
.

Lêdo Ivo

25 de abril de 2015

Mudanças de nome

Childe Hassam
Aos os amantes das belas letras
Dirijo meus melhores desejos
Vou mudar o nome de algumas coisas.

Minha posição é esta:
O poeta não cumpre sua palavra
Se não muda o nome das coisas.

Por que motivo o sol
Continuará chamando-se sol? Peço que chame Micifuz
Aquele das botas de quarenta léguas!

Meus sapatos parecem ataúdes?
Saibam que de hoje em diante
Os sapatos se chamam ataúdes.
Comuniquem, anotem e publiquem
Que os sapatos mudaram de nome:
De agora em adiante se chamam ataúdes.

Bom, a noite é longa
Todo poeta que se preza
Deve ter seu próprio dicionário
E antes que eu esqueça
Até o nome de deus é preciso mudar
Que cada um o chame como quiser:
Esse é um problema pessoal.

Nicanor Parra
Tradução: Joana Barossi
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24 de abril de 2015

Amor de Poeta

Serge Marshennikov
Quando começo
eu sou terrível: tema.
Um poeta é aquele
que faz um poema
de nenhum assunto,
o que se alimenta de nada,
o que morre de medo
mas fica gratificado
com tudo.

Contudo, não permita o início: corte.
Caia num precipício.
Melhor a morte à rima,
ao forte amor danado
de um poeta,
amor melífluo e obsceno.

E todo o amor do mundo
fica muito pequeno
se houver comparação.

(Que estou fazendo no mundo
com este nome alemão,
este ar desconfiado
e essa cara de quem
vê cara, não vê coração?)

Yêda Schmaltz (1941-2003)

23 de abril de 2015

Nem paraíso nem inferno, só Deus

Louis-Jean-François Lagrenée
Amo-te com dois amores: cheia de amor,
O outro pelo que tu és digno de ser amado.
O primeiro é o desejo de me lembrar de você,
Por roubar-me de tudo que não seja você.
O segundo é a remoção de suas velas,
Para vê-lo.
Um ou outro, eu quero ser louvado,
Mas para um e outro, elogios para você!

Rabia al-Adawiyya (717–801)

O romance de um rapaz pobre

Francois Boucher - Sátiro surpreendendo a ninfa do sono
Chamava-se Pacífico,
Pacífico Ricaport,
de Santa Rita em Pampanga,
no centro de Luzón,

e ainda lhe restava
leve sotaque pampanguense
quando se impacientava
e nos momentos ternos,

precisamente ao recordar,
compadecido de si mesmo,
nos seus anos da capital,
sua infância camponesa,

nas noites de trabalho
— para cá do bem, do mal —
de tantos balcões de bares
da rua de Isaac Peral,

porque era pobre e tão sensível,
e bonito também, o que é pior,
sobretudo nestes países
sem industrialização,

e eram vagos seus recursos
tanto como as suas histórias,
e suas ditas e desditas
e suas chamadas telefónicas.

Quantas noites a suspirar
num local já tão vazio,
veio sentar-se junto a mim
e lhe ofereci um cigarrito.

Nessas horas miseráveis
em que nos fazem companhia
até as nódoas do nosso fato,
conversávamos da vida

e o pobre lamentava-se
do que faziam já com ele:
«Têm-me corrido a pontapés
de tantos quartos de hotel...»

Onde terás ido parar,
Pacífico, meu velho amigo,
hoje três anos mais velho?
Deves ter vinte e cinco.

Jaime Gil de Biedma (1929-990)
Tradução: José Bento

22 de abril de 2015

Tudo fala

William Turner
Tudo fala.
E agora, ó homem.
Você sabe por que está falando?

Ouça bem.

A velocidade do vento,
Ondas, chamas,
Árvores, juncos,
Rochas, tudo vive!

Tudo está cheio de almas.

Victor Hugo (1802-1885)

Meu amor é sempre na minha presença

Jean-Honoré Fragonard
Meu descanso, ó irmãos, é na minha solidão.
Meu amor é sempre na minha presença.
Nada pode substituir o amor que tenho por ele,
Meu amor é meu tormento entre as criaturas.
Em todos os lugares onde eu contemplava sua beleza
Tem sido meu mihrab
¹ e meu qibla² .
Se eu morrer de amor ardente e se está satisfeito,
Oh, esta penalidade tem sido minha desgraça neste mundo!
Médico do coração, que é todo o meu desejo,
Unidos-me com você, um link que curar minha alma.
Ó minha alegria, ó minha vida para sempre!
Em você meu original em você minha embriaguez.
Desisti inteiramente as criaturas na esperança
Que você me ligado a você. Porque este é o meu último desejo.

Rabia al-Adawiyya (717–801)

1. É um termo que designa nicho em forma de arco numa Mesquita.
2. Palavra definida como a direção da Caaba em Meca.

21 de abril de 2015

Chove

Camile Pissarro
Nesta tarde chove, e chove pura tua imagem.
Na minha recordação abre-se o dia. Entraste.
Não oiço. A memória dá-me só a tua imagem.
Só o teu beijo ou chuva cai em recordação.

Chove a tua voz, e chove o beijo triste,
o fundo beijo,
beijo molhado em chuva. O lábio é húmido.
Húmido de recordação o beijo chora
nuns céus cinzentos
delicados.

Chove o teu amor, molha a minha memória
e cai e cai. O beijo cai ao fundo. E cinzenta ainda cai
a chuva.

Vicente Aleixandre (1898-1984)
Tradução: José Bento

O Beijo

William Dyce
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu…)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar…

Alexandre O'Neill (1924-1986)

20 de abril de 2015

Espelho

Mary Cassatt
Quem é esse que mergulhou no lago liso do espelho
E me encara de frente à claridade?

Tem na íris castanha irradiações misteriosas,
E o negrume do sonho alarga tanto as pupilas
Que o seu lábio sensual como um beijo esmaece.

Abro a mão – ele abre a mão.

Meu plagiário teimoso...

Tudo que eu faço morre no gelo de um reflexo.

(Ele sorri do meu sarcasmo...)

Não poder fugir da introversão,
tocar a carne da evidencia!

Dói-me a ironia de pensar que eu sou tu, fantasma.

Augusto Meyer (1902-1970)

Noite

Édouard Manet
Desprotegida a noite foi assaltada por memórias
Azul profundo
Carmim
Amarelas
Seus braços abertos se encheram de sono
Seu cabelo solto de vento
Seus olhos de silêncio.

Odysseus Elytis (1911-1996)
Tradução: Mário Cláudio

19 de abril de 2015

Exultação

Louis-Jean-François Lagrenée
Não há maior maravilha do que percorrer
as alturas estreladas, abandonar as lúgubres regiões da terra,
cavalgar as nuvens, subir aos ombros de Atlas,
e ver muito distantes, lá em baixo, as pequenas figuras
que vagueiam e erram, desprovidas de razão,
inquietas, no temor da morte, e aconselhá-las,
e fazer do destino um livro aberto.

Públio Ovídio Naso (43 a.C.-17)

O Lago Morto

Modesto Brocos
O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua.

O murmúrio obstinado que cochicha e passa

(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).
Tão triste agora,
Recai sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.

Minhas pobres alegrias...
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.

Lentamente, a raiz acaba de morrer.

Emily Brontë (1818-1848)
Tradução: Lúcio Cardoso

18 de abril de 2015

Estupendo

“Toda obra de arte é filha do seu tempo e,
muitas vezes, a mãe dos nossos sentimentos”.

Wassily Kandinsky (1866-1944)

Alexandre Cabanel
Estupendo,
um jardim em chamas.

O meu coração carece de todas as formas:
um prado para as gazelas,
um mosteiro para os monges,
um chão sagrado para os ídolos,
ka'ba para o peregrino circular,
as tábuas de Tora,
os pergaminhos do Corão.

Eu creio no amor,
seja em que esquina a sua caravana vire.
e esta é a minha certeza,
esta é a minha fé.

Ibn Arabi (1165–1240)
Tradução: Pedro Calouste

Velhas Fábulas

Aleksandr Andreevich Ivanov
Quem disse alguma vez que há deuses lá nos céus?
Não há, não há, não há. Não deixem que ninguém,
mesmo crente sincero nessas velhas fábulas,
com ela vos engane e vos iluda ainda.
Olhai o que acontece, e dai a quanto digo
a fé que isto merece: eu afirmo que os reis
matam, roubam, saqueiam à traição cidades,
e, assim fazendo, vivem muito mais felizes
que quantos dia a dia pios são e justos.
Quantas nações pequenas, bem fiéis aos deuses,
sujeitas são dos ímpios com poder e força,
vencidas por exércitos que as escravizam.
E vós, se me vez de trabalhar rezais aos deuses,
e deixais de lutar para ganhar a vida,
aprendereis que os deuses não existem. Que todas
as divindades significam só
a sorte, boa ou má, que temos neste mundo.
Eurípedes (480-406 a.C.)
- Excerto de "Belerofonte"

Na Mitologia grega, Belerofonte foi um herói, venerado em Corinto.

17 de abril de 2015

Árvore

Raymond Quinsac Monvoisin
Árvore sob céu azul
Com rosto indiferente e ar de pouco caso,
saúdo as madrugadas, os ocasos
Árvore, hei de olhar, com mirada isenta
o céu azul ou a fúria da tormenta.
A vida, digo, é féretro no qual
dor, alegria do homem têm o seu final.

Kóstas Karyotákis (1896–1928)
Tradução: José Paulo Pais

Um amor depois do outro

Norbert Schrödl - Anacreonte com suas Musas
Virá o tempo
quando exultante
hás de saudar-te ao chegar, em teu espelho, e cada qual
retribuirá sorrindo a saudação do outro,
e dirá, senta-te aqui. Come.
Amarás de novo a quem te era estranho: a ti mesmo.
Dá vinho. Pão. Teu coração de volta
a si mesmo, ao estranho que toda a vida

te amou, que, por causa de um outro,
desconsideras, quem te conhece de cor.
Pega as cartas de amor na estante,

As fotos, as anotações desesperadas,
Descasca do espelho tua imagem.
Senta-te. Refestela-te com tua vida.

Derek Walcott – Prémio Nobel em 1992
Tradução: Nelson Archer

16 de abril de 2015

Alma Minha

Pintura mural da necrópole de Poseidonia
Alma minha, brandinha, vagabunda,
do corpo acompanhante e moradora,
a que paragens vais subir agora,
assim lívida, e rígida, e tão nua?

Deixarás de gozar o que hoje gozas.

Imperador Adriano (76-138 d.C.)
Tradução: David Mourão-Ferreira

Bela

Walter Langley
Perto da minha dama e longe do meu querer,
tão cheio de desejo e medo ao mesmo tempo,
o coração me falha e nas palavras tremo
quanto a poder dizer o que quero dizer.

«Bela», disse eu, “de dor fazeis-me estremecer,
e nem sei o que digo, e nem sei o que penso,
perto da minha dama e longe do meu querer.

De todas as demais nem desejo saber,

numa só coloquei todo o bem a um tempo,
Libertar-me ousarei do terror em que tremo
para pedir enfim que me façais valer
perto da minha dama e longe do meu querer?”

Alain Chartier (1385-1433)