28 de fevereiro de 2015

O Luto na Andaluzia

Koji Yamashita - Sunflower Andalucia (Spain)
Se na Andaluzia
branca é a cor
dos trajes de luto
- é justa coisa.

Não me vês, a mim,
vestido de cabelos brancos,
porque de luto estou
pela juventude?

Abu l-Hasan al-Husri (990-1077)
Tradução: Emilio Garcia Gómez (do árabe para o espanhol)
Tradução: Fernando Couto (do espanhol para o português)

Abu l-Hasan al-Husri foi um poeta Sufi e estudioso no século 11, também conhecido como "o cego", durante a ocupação muçulmana na península ibérica. Ele contribuiu de forma significativa para a difusão do Islã.
Dele se conservou apenas este poema.

Os Bois

Georgina de Albuquerque
É dolorosa a angélica atitude
Dos grandes bois lentos a trabalhar…
Sinto neles a força da saúde
A glória de viver para ajudar.

Da sua laboriosa juventude
Nada têm, pobres diabos a esperar…
Quem sabe? A vida pode ser que mude…
E eles se põem a olhar o campo, a olhar…

Tempo de safra. Brilham canaviais…
Gemem os carros e o rumor se irmana
À alma dos bois que geme muito mais.

Pacientemente seguem, dois a dois…
Há uma filosofia muito humana
No mugido e no olhar, tristes, dos bois…

Olegário Mariano (1889-1958)

27 de fevereiro de 2015

Soneto

Paul Gauguin
Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.

Ruy Belo (1933-1978)

O Vestido

Tamayo Rufino
No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, e volatiliza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado

26 de fevereiro de 2015

Não voltes atrás

Iluminura Medieval
Se os portais do meu coração
Estiverem sempre fechados,
Rebenta-os e entra na minha alma,
Senhor, não voltes para trás.

Se um dia destes as cordas da minha harpa
Não ressoarem com o teu nome,
Na tua espera digna de piedade,
Senhor, não voltes para trás.

Se quando me chamares
A sonolência do meu sono não passar,
Bate-me e acorda-me com o teu trovão,
Senhor, não voltes para trás.

Se um dia destes no teu trono
Eu colocar alguém sem pensamentos,
Meu eterno Rei,
Não voltes para trás!

Rabindranath Tagore (1861-1941)
Tradução: José Agostinho Baptista

Antes de nós

Caspar David Friedrich
Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.
Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento
Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o paga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?

Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935)

25 de fevereiro de 2015

Aquilo que agente lembra

Ivan Konstantinovich Aivazovsky
Aquilo que a gente lembra
Sem o querer lembrar,
E inerte se desmembra
Como um fumo no ar,
É a música que a alma tem,
É o perfume que vem,
Vago, inútil, trazido
Por uma brisa de agrado,
Do fundo do que é esquecido,
Dos jardins do passado

Aquilo que a gente sonha
Sem saber de sonhar,
Aquela boca risonha
Que nunca nos quis beijar,
Aquela vaga ironia

Que uns olhos tiveram um dia
Para a nossa emoção —
Tudo isso nos dá o agrado,
Flores que flores são
Nos jardins do passado

Não sei o que fiz da vida,
Nem o quero saber
Se a tenho por perdida,
Sei eu o que é perder?
Mas tudo é música se há
Alma onde a alma está,
E há um vago, suave, sono,
Um sonho morno de agrado,
Quando regresso, dono,
Aos jardins do passado.

Fernando Pessoa (1888-1935)

Os Sonhos

Gustav Klimt
“Os sonhos algumas vezes podem revelar certas situações muito antes de elas realmente acontecerem. Não é necessariamente um milagre ou alguma forma de previsão. Muitas crises em nossa vida tem uma longa história inconsciente. Caminhamos ao seu encontro passo a passo, desapercebidos dos perigos que se acumulam. Mas aquilo que conscientemente deixamos de ver é, quase sempre, captado pelo nosso inconsciente, que pode transmitir a informação através dos sonhos”.
Carl Gustav Jung (1875-1961)
O homem e seus Símbolos

24 de fevereiro de 2015

Querer é Poder

Naiden Stanchev
“O lema "querer é poder" é a superstição do homem moderno. Para sustentar essa crença, no entanto, o homem contemporâneo paga o preço de uma incrível falta de introspecção. Não consegue perceber que, apesar de toda sua racionalização e toda sua eficiência, continua possuído por "forças" fora do seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não desapareceram; tem, apenas, novos nomes. E o conservam em contato íntimo com a inquietude, com apreensões vagas, com complicações psicológicas, com uma insaciável necessidade de pílulas, álcool, fumo, alimento e, acima de tudo, com uma enorme coleção de neuroses”.
Carl Gustav Jung (1875-1961)
O homem e seus Símbolos

O prazer do difícil

Francesco Melzi
O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de sucesso que se escrevem
Com cinquenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente.
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

William Butler Yeats (1865-1939)
Tradução: Augusto de Campos.

23 de fevereiro de 2015

Deixei a Acrópole, em Atenas

Kenyon Cox
Deixei a Acrópole, em Atenas,
como a encontrei.
Pisei suas pedras
olhei as sobrantes figuras derruídas
e agora parto para meu distante país.
Não o fizeram assim os persas,
os turcos,
e aquele inglês avaro
que levou seus mármores.

No topo da montanha, a Acrópole resiste.

No café da manhã, a olhava.
No entardecer, a olhava.
À noite, iluminada, a olhava.
Certa madrugada levantei-me
para (há quatro mil anos)
contemplá-la.

Eu
— exposto a pilhagens e desmontes,
admirei sua permanência.

Um dia estarei morto.
Ela sobreviverá aos bárbaros
e aos que, como eu,
depositaram
aqui
o seu pasmo.

Affonso Romano de Sant'Anna

Sonetos de Orfeu - XIX

Friedrich Wilhelm Schadow
Ainda que se mude rápido o mundo
como figuras de nuvens,
todo o perfeito tomba
de volta ao primordial.

Por sobre a mudança e a marcha,
mais longe e mais livremente,
dura ainda o teu pré-canto,
deus com a lira.
Os sofrimentos não são reconhecidos,
o amor não é aprendido,
e o que na morte nos afasta

não é desvelado.
Unicamente a canção por sobre o campo
santifica e celebra.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Tradução: José Miranda Justo.

22 de fevereiro de 2015

Gozemos a vida, Lésbia

Sir Edward John Poynter - Lesbia e seu pássaro
Vamos viver, minha Lésbia, e amar,
e aos rumores dos velhos mais severos,
a todos, voz nem vez vamos dar. Sóis
podem morrer ou renascer, mas nós
quando breve morrer a nossa luz,
perpétua noite dormiremos, só.

Dá mil beijos, depois outros cem, dá
muitos mil, depois outros sem fim, dá
mais mil ainda e enfim mais cem – então
quando beijos beijarmos (aos milhares!)
vamos perder a conta, confundir,
p’ra que infeliz nenhum possa invejar,
se de tantos souber, tão longos beijos.

Caio Valério Catulo (84–54 a.C.)
Tradução: João Angelo Oliva Neto

Para um amigo cujo trabalho deu em nada

Anthony Frederick Augustus Sandys
Agora sabe-se toda a verdade,
Sê reservado e aceita a derrota
De qualquer garganta sem vergonha,
Pois como podes tu competir,
Sendo educado na honra, com alguém
Que, se se provasse que mente,
Não se sentiria envergonhado nem aos seus
Olhos nem aos dos vizinhos?
Educado para uma tarefa mais dura
Do que o Triunfo, afasta-te
E como uma corda sorridente
Tocada por dedos loucos
No meio de um lugar de pedra,
Sê misterioso e exulta,
Porque acima de tudo
Isso é o mais difícil.

William Butler Yeats (1865-1939)
Tradução: Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira.

20 de fevereiro de 2015

Dia de Anos

Jan Gerritsz van Bronchrorst
Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz, o mesmo? Coitado!

Não faça tal porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua
E fá-los queira ou não queira!

João de Deus (1830–1896)

Tivesse eu sabido

Emile Bernard
Tivesse eu sabido, quando a vida era um vento tépido e feliz,
Brando e ruidoso na aurora e na névoa brilhante do orvalho,
Que havia de chegar o tempo em que, suspirando os corações diriam:
“Tivesse eu sabido…”

Nem sequer as rosas rindo ao beijarem-se,
Nem, ao sol, o mais encantador riso ondulante do mar,
Teriam vindo fascinar a minha alma para que neles reparasse.

Agora o vento é como uma alma desterrada a rezar inutilmente
As preces que não conseguimos ouvir se o coração lhes resiste,
Agora que a minha própria alma, à deriva e perdida como o vento, suspira:
“Tivesse eu sabido…”

A. C. Swinburne (1837-1909)
Tradução: Maria de Lourdes Guimarães

19 de fevereiro de 2015

Poesia

Louis-Jean-François Lagrenée
Existe em nós
um sentido especial para a poesia,
uma disposição poética.
A poesia é absolutamente pessoal,
e por isso indefinível.
Quem não souber nem sentir
de forma imediata
o que é a poesia,
nunca poderá aprendê-lo.
Poesia é poesia.
Diferente, como a noite do dia,
da arte da fala e da palavra.

Novalis (1772-1801)
Tradução: João Barrento

Os Sonetos a Nize do Abade de Jazente

Jean Frederic Schall
Eu como, eu bebo, eu durmo, e sem receio
Do que há de vir a ser, a vida passo,
Ora de Nize no gentil regaço,
Ora das Musas no sonoro enleio.

Às vezes pesco, às vezes jogo, ou leio,
E torres vãs também no vento faço;
Depois me vou meter naquele espaço,
Onde Descartes tinha o seu passeio.

De lá mil orbes vejo, e de improviso
Soltando ao pensamento as vagas velas,
Turbilhões de cristal sem medo piso.

E pondo-me por cima das estrelas,
Descubro a terra em baixo, e me dá riso
Contemplando do mundo bagatelas.

Paulino Cabral de Vasconcelos (1719-1789)

18 de fevereiro de 2015

A Cíntia

Auguste Jean Baptiste Vinchon - Propertius and Cynthia
Oh, que feliz me sinto! Ó noite assinalável
com uma pedra branca! E tu, pequena cama,
pelo prazer que me deste, eis-te santificada…
Que murmúrios, à luz duma velada lâmpada!
E que luta, depois com a luz apagada!
Tão breve ao meu ardor a túnica interpunha,
como, de seios nus, comigo enfim lutava!
Se me via a dormir, logo os lábios depunha
em meus olhos, dizendo: “Indolente, assim jazes?…”
E os braços de nós dois renovavam abraços;
e meus beijos sem fim detinham-se em teus lábios.

Sextus Aurelius Propertius (43 a.C. - 17)
Tradução: David Mourão-Ferreira

Os Donos do Poder

Spyros Papaloukas
“O estamento, cada vez mais de caráter burocrático, filho legitimo do Estado patrimonial, ampara a atividade que lhe fornece os ingressos, com os quais alimenta sua nobreza e seu ócio de ostentação, auxilia o sócio de suas empresas, estabilizando a economia, em favor do direito de dirigi-la, de forma direta e intima. O encadeamento das circunstâncias históricas, que parte do patrimonialismo e alcança o estamento, fecha-se sobre si mesmo, com a tutela do comércio de transito, fonte do tesouro régio, do patrimônio do rei, fonte das rendas da nova aristocracia, erguida sobre a revolução do Mestre de Avis, engrandecida na pirataria e na guerra que incendeiam os oceanos Índico e Atlântico.”
Raimundo Faoro (1925-2003)

17 de fevereiro de 2015

Montanhas Minhas

Gustav klimt - Schubert at the Piano
Em montanhas me criei,
mais de três dúzias se erguiam.
Parece que nunca, nunca,
embora escute os meus passos,
as perdi, nem quando é dia,
nem quando é noite estrelada,
e embora veja nas fontes
a cabeleira nevada,
não fugi nem me deixaram
como filha mal lembrada.

E embora sempre me chamem
uma ausente e renegada,
possuí-as e ainda as tenho,
persegue-me o seu olhar
ao longo da minha estrada.


Gabriela Mistral (1889-1957)

Sorriso Interior

Pierre-Auguste Renoir
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo este brasão augusto
Do grande amor, da grande fé tranquila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem susto...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe esta glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio.

Cruz e Sousa (1861-1898)

16 de fevereiro de 2015

Noite

Iluminura
“A mão do amor vestiu-nos,
durante a noite, com uma túnica de abraços
que só a mão da aurora
veio por fim rasgar”.

Ibn Jafäya (1058-1138)
Tradução: David Mourão-Ferreira

Aos Poetas Clássicos

Pieter Brueghel - A luta entre o Carnaval e a Quaresma
Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.
Patativa do Assaré (1909-2002)

15 de fevereiro de 2015

Geografia da Fome

Josué de Castro pintado por Portinari
“Não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados, roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos na sua pele, que a fome aniquila a vida dos sertanejos, mas também atuando sobre o seu espírito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela imperiosa necessidade de alimentar-se, os instintos primários se exaltam, e o homem, como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que pode parecer a mais desconcertante”.
- Josué de Castro (1908-1973)
In Geografia da Fome.

Soneto 28

Albert Guillaume
Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
Que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Carlos de Oliveira

14 de fevereiro de 2015

Casais da Mitologia Grega

Zeus e Hera
Frans Christoph
Quando não estava ocupado lançando raios do topo do Monte Olimpo, Zeus sofreu com um casamento tão infeliz, que só terminou quando ele literalmente engoliu sua primeira esposa, uma Titan fêmea nomeada Metis. Zeus queria desesperadamente se casar com Hera, que, como a irmã de Zeus, não era entusiasmado com a ideia. Depois de 300 anos de seus resíduos, Zeus preparou um plano no qual ele criou uma tempestade e se transformou em um cuco encharcado. Voando na janela de Hera, a deusa pena do pássaro patético e apertou perto de seu peito. Zeus aproveitou o momento de intimidade e voltou-se para dentro de si e se abateu sobre ela até que ela concordou em se casar com ele. Seu casamento foi um grande evento que contou com a presença de todos os outros deuses, mas seu segundo casamento também foi infeliz porque Zeus tinha um olho itinerante e passou a se casar com outras mulheres, alguns fatais. Por causa da competência de Zeus para lançar raios, Hera não seriam punidos diretamente Zeus, para que ele, em vez procurou vingar-se do marido outras esposas.
Paris e Helena
Jacques-Louis David
Helena era filha de Zeus. Quando tinha onze anos foi raptada pelo herói Teseu. Porém seus irmãos Castor e Pólux a levaram de volta a Esparta.
Páris era filho mais novo dos reis de Tróia. Assim que Páris nasceu foi mandado para Ida, onde foi criado por pastores, que o chamavam de Alexandre, pois sua mãe na gravidez sonhou que estava parindo uma tocha que colocaria fogo em Tróia. Depois de algum tempo, Páris voltou à Troia, revelando sua verdadeira identidade.
Numa viagem a Esparta, Páris encontra a princesa Helena, que está casada com Menelau.
Helena deixou-se atrair, e também acabou se apaixonando por Páris, sendo seduzida por ele, que já estava caído de amores por tal beleza.
Forçada a tomar uma decisão, Helena resolveu deixar Menelau e fugir com Páris, durante a noite, levando consigo todos os seus tesouros. Os amantes dirigiram-se para Tróia, onde foram recebidos por toda a casa real. Pouco tempo depois chegaram a Tróia os embaixadores da Grécia, para reclamar a fugitiva. Esses embaixadores eram Ulisses e Menelau, e nenhuma tentativa de negociação deu certo, resultando desse impasse a Guerra de Tróia.
Durante a Guerra Páris foi atingido por uma flecha envenenada e pediu ajuda a única pessoa que poderia curá-lo: Enone, a ninfa que ele abandonara por Helena. Esta, ainda sofrendo com a atitude de Páris, recusou-se a auxiliá-lo, e quando mudou de ideia, por ainda amar Páris, já era tarde. Páris já havia morrido em consequência do ferimento.
Morto Páris, Helena ficou sozinha, e, mais tarde encontrou-se com Menelau que como primeiro impulso teve vontade de matá-la. No entanto, novamente não conseguiu resistir a beleza de Helena, e tornou a se apaixonar por ela, perdoando-a. Juntos voltaram para Esparta, onde viveram até o final dos dias de Menelau.
Helena, no entanto, jamais deixou de amar Páris.
Hades e Persephone
Paris Bordon
Hades (Plutão), ao lado dos irmãos Zeus (Júpiter) e Poseidon (Netuno), travaram uma longa guerra de dez anos contra o pai Cronos (Saturno) e os Titãs. Após a vitória dos três irmãos, uma nova ordem e poder estabeleceu-se sobre o mundo e os deuses, na partilha dessa nova ordem, coube a Zeus o reino do céu e da terra, a Poseidon o mar, e a Hades as profundezas da terra, conhecidas por Érebo, Infernos ou Hades. Se Zeus reina do Olimpo, ao lado de mais 11 deuses, Hades é o senhor absoluto do reino dos mortos, o décimo terceiro deus.
Hades tem como súditos os mortos, mas o seu domínio é a extensão final de todos os vivos, daí ser respeitado e venerado por eles. Reina taciturno nos subterrâneos, sendo auxiliado pelas criaturas infernais, que ao seu lado, mantêm a ordem e as sentenças nos reinos das trevas. Hades traz um capacete mágico, feito pelos Ciclopes, que o torna invisível diante dos deuses e dos vivos. Esta capacidade é a raiz da origem do seu nome, Hades em grego significa invisível.
Dante Gabriel Rossetti
O mito de Hades não gerou muitas lendas diretas, mas às criaturas adjacentes ao seu mundo. A lenda mais conhecida é a do seu amor por Perséfone (Prosérpina), movido por uma violenta e arrebatadora paixão que o faz raptar a jovem e levá-la da Terra para o subterrâneo do seu reino. No Érebo, o deus dos mortos faz de Perséfone a sua esposa, dividindo com ela o trono. A lenda do rapto de Perséfone, uma das mais belas da mitologia, retrata a origem da primavera sobre a terra. É o amor no mundo dos mortos estendendo-se às belezas terrestres.
Orfeu e Eurídice
Lord Frederic Leighton - Orfeu e Eurídice
Orfeu era filho de umas das nove musas, Calíope com o deus olimpiano Apolo. Esse jovem foi o melhor músico que já pisou na terra, pois de seu pai, Apolo, recebera a lira. E quando tocava tal instrumento os pássaros paravam de voar, os animais selvagens perdiam o medo e tornavam-se dóceis, e deuses e mortais emocionavam-se com tal perícia e bela música.
Tão bom homem não poderia ficar sozinho por tanto tempo; ele apaixonou-se por Eurídice, uma ninfa, e os dois se casaram. Porém, a ninfa era de tal beleza que mesmo depois de casada atraiu também os olhares de um apicultor (criador de abelhas). Eurídice recusou ao homem e pôs-se a fugir dele, que a perseguia, e durante tal fuga Eurídice acabou sendo picada por uma cobra, desse jeito, vindo a óbito. As ninfas companheiras de Eurídice fizeram com que toda a criação de abelhas do homem morressem, em vingança pela morte da amiga.
Após a morte da amada, o filho do deus-sol encheu-se de amargura e tristeza; entoava melodias tão triste que os deuses choravam ao ouvi-las. E, apiedados, os deuses recomendaram ao deus que fosse ao Hades e tentasse convencer o Rei dos Mortos a devolvê-la.
E assim foi feito. Orfeu desceu ao Mundo Inferior, tocou sua maravilhosa Lira e convenceu Caronte a levá-lo pelo Estige, adormeceu Cérbero – o cão de três cabeças, guarda do Submundo – amansou monstros que interpunham-se em seu caminho e por fim chegou à sala do trono de Hades. Tocando sua música fez com que o deus chorasse lágrimas de ferro; o Senhor dos Mortos, então, disse que Orfeu poderia levar a amada, com a condição de que ele não olharia para trás até que ambos atingissem a superfície.
Orfeu foi conduzindo a amada pelo percurso, tocando a Lira para conduzi-la; melodias lindíssimas de felicidade. Porém, no meio do caminho, Eurídice caiu e disse:
- Orfeu!
O homem virou-se para olhá-la e viu um fiapo de fumaça esvaindo-se e a última lamúria de amor da mulher.
Após esse episódio, Orfeu recusou-se a tomar qualquer outra mulher por esposa. Começou a oferecer conselhos aos que precisavam, a fim de que eles não sofressem como ele próprio havia sofrido.
Porém, um dia, um grupo de mulheres rechaçadas por Orfeu resolveram organizar-se para matá-lo. E assim foi feito, elas caíram sobre o deus frenéticas, atirando dardos. Os dardos não adiantavam, pois Orfeu tocava sua lira e os mesmos caiam por terra. Contudo, as Mênades (mulheres que mataram Orfeu) abafaram a música dele com gritos e conseguiram atingi-lo e matá-lo. Elas o esquartejaram e atiraram a cabeça dele no Rio Hebro. Todavia, enquanto flutuava a cabeça ainda clamava:
- Eurídice! Eurídice!
As Musas, apiedadas do fato, reuniram o corpo de Orfeu e enterraram-no no Monte Olimpo. Quanto às Mênades, foram punidas pelos deuses: Assim que saíram do rio, seus pés começaram a tornarem-se parte da terra, e quanto mais elas tentavam tirá-los, mais eles se enroscavam… Até que, elas tornaram-se árvores. E ficaram sendo açoitadas pelos ventos, furiosos pela morte de Orfeu.
No fim, Orfeu uniu-se à sua amada novamente, nos Campos Elíseos. E as Mênades, dado o tempo de morte de uma árvore os galhos delas caíram secos e sem vida ao chão.
Conta-se que após a morte de Orfeu, os pássaros cantaram mais felizes, pois o músico estava feliz outra vez com a sua amada.