15 de dezembro de 2015

Saudades

George Goodwin Kilburne
Saudades! Tenho saudades
Desses tempos que lá vão!
Quando à porta do quinteiro
Eu jogava o meu pião;
Quando no campo corria
Cum papagaio na mão.

Oh, que então eram, na terra,
Tudo venturas pra mim!
Meu pai me dava biscoitos,
Minha mãe beijos sem fim;
Minha avô me defumava
De manhã, com alecrim.

Por entre os prados amenos
Como, contente, eu saltei
Com meu chapéu de dois bicos
Que dum papel arranjei,
E em grosso pau a cavalo,
Mais orgulhoso que um rei!
De ser cristão, nessa idade,
Tendo já nobre altivez,
De papelão com a mitra
Que o mano António me fez,
Ao pé da minha igrejinha
Bispo fui por muita vez.
Nos inocentes folguedos
Eu via o tempo voar;
Se um dia vinha um sopapo
Que me obrigava a chorar,
Depois, de mimos coberto,
Eis-me a rir, eis-me a brincar.
Meu pião idolatrado,
Que será feito de ti?
Papagaio da Minh’ alma,
Há que tempo te não vi!
Doces biscoitos de outrora,
Quem nos dera agora aqui!
Meigos beijos, inocentes,
Como ainda me lembrais!
Cheirosos defumadores,
Que saudades me inspirais!
Meu lindo chapéu de bicos,
Não me enfeitarás jamais.

Grosso pau em que montava,
Em cinzas, talvez, será.
A mitra, com que fui bispo,
Esfarrapada foi já.
E a minha bela igrejinha
Em que mãos hoje estará!

Da infância a negra saudade
Que à desgraça. me reduz,
A Minh ‘alma espevitando
Tem quase apagada a luz:
Só vivo até que meu peito,
As escuras, diga: truz!

Faustino Xavier de Novais (1820-1869)

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